Entenda por que Nordeste é a região do Brasil com mais risco de terremoto

03 de julho 2026 - 11h27
Créditos: Getty images

Apesar de o Brasil estar localizado no interior da Placa Sul-Americana, longe das regiões onde costumam ocorrer os maiores terremotos do planeta, o Nordeste concentra a maior parte dos abalos sísmicos registrados no país.

Especialistas explicam que isso acontece por causa das características geológicas da Província Borborema, formação rochosa que ocupa parte dos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Alagoas.

Nessa região, a crosta terrestre é mais fina do que a média continental, o que facilita o acúmulo de tensões capazes de reativar antigas falhas geológicas e provocar tremores de terra.

Segundo o geofísico Aderson Farias do Nascimento, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), essa característica é consequência da separação entre a América do Sul e a África, ocorrida há milhões de anos, durante a formação do Oceano Atlântico.

"É uma região que sofreu um processo de estiramento com a abertura do Atlântico. Em áreas assim, as tensões podem se acumular com mais facilidade e, eventualmente, desencadear terremotos", explica o pesquisador.

Brasil está em área estável, mas não está livre de tremores

Os terremotos são provocados pelo movimento constante das placas tectônicas, grandes blocos que formam a superfície da Terra. A maior parte dos grandes sismos acontece nas bordas dessas placas, onde ocorre o encontro entre elas.

Como todo o território brasileiro está localizado no interior da Placa Sul-Americana, o país está em uma área considerada geologicamente estável.

Mesmo assim, isso não significa que o Brasil esteja livre de terremotos.

As tensões geradas pelos movimentos das placas chegam ao interior do continente e podem reativar falhas geológicas antigas, principalmente em regiões onde a crosta terrestre apresenta maior fragilidade, como ocorre na Província Borborema.

Além disso, as rochas cristalinas presentes no Nordeste favorecem a propagação das ondas sísmicas, fazendo com que os tremores sejam sentidos com mais intensidade.

Região reúne centenas de falhas geológicas

Outro fator que explica a maior atividade sísmica no Nordeste é a grande quantidade de falhas geológicas existentes na região.

Essas falhas funcionam como fraturas naturais na crosta terrestre. Quando as tensões acumuladas superam a resistência das rochas, ocorre um deslocamento que libera energia na forma de terremoto.

Segundo o geólogo Marco Moraes, autor do livro Planeta Hostil, muitas dessas estruturas foram formadas há milhões de anos e permanecem inativas por longos períodos, até serem reativadas.

"A placa mais delgada é um dos fatores para mais tremores. Mas existem também falhas antigas que, de tempos em tempos, voltam a se movimentar por causa das tensões acumuladas no interior da placa", afirma.

O terremoto que abalou o Rio Grande do Norte

Capa do Jornal O Poti, no Rio Grande do Norte, no dia após o tremor registrado em João Câmara — Foto: ReproduçãoReprodução

O episódio mais marcante da atividade sísmica brasileira aconteceu em novembro de 1986, no município de João Câmara, no Rio Grande do Norte.

Na ocasião, um terremoto de magnitude 5,1 provocou danos em milhares de imóveis e deixou cerca de 10 mil pessoas desabrigadas.

A estimativa é que aproximadamente quatro mil casas tenham sido destruídas ou parcialmente danificadas. O medo de novos tremores fez parte da população deixar a cidade.

No caso do sismo de João Câmara, acredita-se que a falha responsável já existisse há milhões de anos. Mas estava "quietinha". Com as tensões absorvidas pela Placa Sul-Americana, em dado momento estourou ali. Tecnicamente, a falha foi reativada.

Na imagem, a linha vermelha representa a Falha de Samambaia — Foto: LabSis UFRNLabSis UFRN
Estudo confirmou que a crosta é mais fina no Nordeste

As características geológicas da Província Borborema foram detalhadas em um estudo desenvolvido pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos Tectônicos, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Durante a pesquisa, cientistas utilizaram explosões controladas em poços de até 45 metros de profundidade para analisar a propagação de ondas sísmicas no interior da Terra.

Os dados confirmaram que a crosta terrestre na região tem espessura entre 30 e 35 quilômetros, inferior à média dos continentes, além de apresentar uma composição bastante heterogênea.

Segundo os pesquisadores, essa combinação de crosta mais fina, diferentes tipos de rochas e grande número de falhas geológicas ajuda a explicar por que o Nordeste registra mais terremotos do que qualquer outra região brasileira.

Embora os tremores sejam relativamente frequentes, especialistas ressaltam que, na maioria dos casos, eles apresentam baixa magnitude e dificilmente causam grandes danos. Ainda assim, o monitoramento sísmico da região é considerado essencial para compreender o comportamento dessas estruturas geológicas e reduzir riscos à população.

Com informações de BBC e g1