Daniel Vorcaro pagou R$ 1 milhão para “adiar” e “amenizar” matéria na Folha de S.Paulo

17 de Outubro 2026 - 07h31
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Daniel Vorcaro pagou R$ 1 milhão para interferir na dinâmica de publicação e no conteúdo de uma reportagem sobre ele na Folha de S.Paulo, do mesmo grupo que edita o UOL. As negociações constam em uma série de conversas obtidas pelo Metrópoles entre o banqueiro e Guilherme Barros, um dos principais gestores de crise do país.

“A Folha vai segurar a matéria. O Sérgio me respondeu agora”, informou Guilherme Barros a Vorcaro às 13h27 do dia 8 de agosto de 2024. Barros refere-se a Sérgio Dávila, diretor da redação da Folha de S.Paulo.

No dia anterior a este diálogo, portanto em 7 de agosto, Vorcaro deu o seguinte comando: “Gasta todos seus cartuchos aí, se voce conseguir segurar e nao sair nada vc tem um prêmio de R$ 1mm. Sei que você é guerreiro de toda forma, mas faço isso pra você cobrar favores. Se eles soltam isso agora eles vao quebrar o banco (sic)”.

As mensagens indicam que a matéria seria publicada em uma semana decisiva para a sobrevivência do Master. No dia 8, o Banco Central homologou o aumento de capital do Banco de Brasília (BRB) que permitiu posteriormente ao BRB comprar mais de R$ 16 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master. Esta foi a operação que deu sobrevida à instituição de Vorcaro.

Àquela altura, matérias negativas sobre Vorcaro poderiam afugentar a operação. O próprio banqueiro diz isso na conversa com seu gestor de crise: “Se eles soltam isso agora eles vao quebrar o banco”.

Ainda em agosto de 2024, o Master fechou a compra do Will Bank e Vorcaro fez enorme esforço político pela emenda Master, que foi apresentada em 13 de agosto. A medida aumentaria a cobertura dada pelo FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

A Folha de S.Paulo topou o jogo e segurou a matéria por pelo menos 22 dias. O texto só foi publicado em 30 de agosto sob o título “Novato na Faria Lima, banqueiro de 40 anos chama a atenção para aquisição em séries e festa com Alok”.

Um dia após segurar a reportagem atendendo aos anseios de Daniel Vorcaro, o gestor de crise Guilherme Barros informa a Vorcaro que Sérgio Dávila solicitou data para tomar um café com o banqueiro: “O Sérgio Dávila acabou de me pedir uma data para tomar um café contigo e eu”. No que Vorcaro responde: “Pode marcar qq dia”.

De acordo com a troca de mensagens, o encontro ocorreu na sede da Folha de S.Paulo dia 12 e contou com a presença de Sérgio Dávila, além de dois editores. O encontro não foi registrado publicamente pela Folha, como é praxe da publicação.

Vorcaro fez valer sua vontade em matéria da Folha

A partir do encontro entre Vorcaro e Sérgio Dávila, as conversas de WhatsApp demonstram que o banqueiro conseguiu interferir no conteúdo que viria a ser publicado. Como revelam as mensagens de Guilherme Barros a Vorcaro, trechos que enalteciam a performance do Banco Master foram publicados tais quais repassados pelo gestor de crise da instituição financeira.

O texto feito por Guilherme Barros e aprovado por Daniel Vorcaro sugere que a matéria da Folha de S.Paulo aborde “dados positivos”, como a antecipação da meta de patrimônio líquido de R$ 5 bilhões, o objetivo de elevar a cifra até R$ 10 bilhões em 2026, a aquisição da Kovr [Seguradora], além da criação de um comitê estratégico formado por Henrique Meirelles e Gustavo Loyola.

O ponto mais polêmico envolvendo o Banco Master e que, àquela altura, já era questionado pelo mercado financeiro é enaltecido pela reportagem sem nenhum tipo de questionamento. Os CDBs do Banco Master são tratados como “os mais rentáveis do mercado”.

Este trecho específico foi excluído da matéria após a prisão de Daniel Vorcaro em 17 de novembro de 2025.

Também foram retiradas da reportagem informações sobre as metas positivas do Banco Master.

Ao mesmo tempo em que excluiu trechos favoráveis e de interesse de Vorcaro, a Folha de S.Paulo inseriu um parágrafo de sentido totalmente oposto. Na versão editada da matéria, segundo comprova a comparação entre os textos, a operação agora é descrita como uma “estratégia agressiva de venda de CDBs com alta remuneração aos aplicadores”.

O leitor da Folha de S.Paulo não foi informado de que pedaços da reportagem foram suprimidos e outros foram enxertados. Segundo o Manual de Redação da Folha de S.Paulo, “suprimir ou inserir uma informação de um texto pode alterar o significado da notícia”. O documento que ampara o trabalho dos jornalistas diz que a Folha costuma manter uma “atitude de permanente transparência diante dos seus leitores”.

Folha não cita casa de Orlando como queria Vorcaro

Ao oferecer R$ 1 milhão para o gestor de crise interferir na publicação da Folha de S.Paulo, Daniel Vorcaro demonstra sua maior preocupação.

“Falar de casa orlando? A casa do meu pai. Nao tenho negocios com ele ha quase 5 anos. Eu nem conversar com ele estou. Estamos brigados. O que tenho a ver com imovel dele? (sic)”

A reportagem publicada pela Folha cita o pai de Vorcaro, seus negócios, mas nenhuma linha sobre a tal mansão em Orlando.

Após o sucesso da operação com a Folha de S.Paulo, Guilherme Barros cobra de Daniel Vorcaro o dinheiro prometido pela gestão da crise.

Veja o que disse o gestor:

“No episódio da matéria da Folha, vc tinha me falado sobre um success fee, caso a matéria não saísse. A matéria, evidentemente, saiu, porem muito mais branda, o que espero que concorde. Mas, enfim, saiu, e quero te deixar, evidentemente, super a vontade. Afinal, nao fiz e jamais vou fazer qualquer trabalho para amigos como voce movido por success fee ou qualquer coisa do genero. E voce tem consciencia disso. Gosto de voce, te considero um amigo e estou sempre à disposição. Sinta-se realmente a vontade. Vou entender perfeitamente, muito embora, qualquer ajuda seria muito bem-vinda. Abração” (sic).

Daniel Vorcaro demonstra sua satisfação com o trabalho entregue por Barros dizendo que “amigo, vc merece muito, vamos ajustar (sic)”.

Vorcaro fez o Pix.

Com informações de Metrópoles