Créditos: Getty images
O cérebro possui um sistema de proteção que controla quais substâncias presentes no sangue podem chegar ao tecido nervoso. Essa estrutura, chamada barreira hematoencefálica, funciona como um filtro seletivo: permite a passagem de elementos necessários ao funcionamento cerebral e restringe a entrada de muitas substâncias potencialmente prejudiciais.
Na doença de Alzheimer, alterações nessa barreira podem estar relacionadas à inflamação e à perda progressiva de funções cognitivas. Entretanto, ainda existem dúvidas sobre como essas mudanças acontecem e se podem ajudar a prever a evolução da doença.
Para investigar essa relação, pesquisadores avaliaram a permeabilidade da barreira hematoencefálica por meio de uma técnica avançada de ressonância magnética. Os resultados apontaram uma associação importante em uma região cerebral envolvida na memória.
Como os cientistas observaram a barreira hematoencefálica
O estudo piloto foi publicado em 2026 na revista científica Scientific Reports, com Beth Mary Stevens McCausland como autora principal. A pesquisa utilizou a ressonância magnética dinâmica com contraste, conhecida pela sigla DCE-MRI, para estimar a passagem de um agente de contraste dos vasos sanguíneos para os tecidos cerebrais.
Participaram do estudo 14 pessoas com diagnóstico clínico de Alzheimer e 16 indivíduos do grupo de controle. Os pesquisadores compararam medidas de permeabilidade em diferentes áreas do cérebro e também analisaram indicadores sanguíneos relacionados à inflamação e à neurodegeneração.
Além disso, 13 participantes com Alzheimer passaram por uma nova avaliação clínica após 12 meses. Esse acompanhamento permitiu investigar se as características observadas inicialmente estavam associadas a mudanças posteriores na cognição.
Uma região ligada à memória chamou a atenção
Na avaliação inicial, os cientistas não encontraram diferenças estatisticamente significativas na permeabilidade da barreira hematoencefálica entre os participantes com Alzheimer e o grupo de controle, considerando medidas gerais e regionais.
No entanto, surgiu um resultado relevante quando os pesquisadores analisaram o córtex entorrinal esquerdo, uma região importante para a formação e a organização das memórias e para a comunicação entre estruturas cerebrais envolvidas na aprendizagem.
Nesse local, uma maior permeabilidade inicial da barreira hematoencefálica esteve associada a um declínio cognitivo mais acentuado ao longo de 12 meses.
Isso não significa que a alteração tenha causado a piora, nem que o exame já consiga prever individualmente a progressão do Alzheimer. O achado indica uma possível relação que precisa ser investigada em estudos maiores.
Inflamação também pode estar envolvida
Os pesquisadores identificaram níveis séricos mais elevados de interferon-gama (IFN-γ) entre os participantes com Alzheimer em comparação com os controles. Essa molécula é uma citocina, ou seja, uma proteína que participa da comunicação entre células do sistema imunológico.
Outro resultado envolveu a interleucina-6 (IL-6). Níveis iniciais mais altos dessa citocina estiveram associados a um declínio cognitivo mais rápido durante o acompanhamento.
A inflamação periférica, que ocorre fora do sistema nervoso central, pode interagir com processos cerebrais. Ainda assim, os dados não demonstram que essas moléculas sejam responsáveis pela progressão da doença. Elas representam pistas para compreender melhor a relação entre inflamação, barreira hematoencefálica e neurodegeneração.
O exame pode ajudar a acompanhar o Alzheimer?
A DCE-MRI demonstrou ser viável para investigar alterações regionais da barreira hematoencefálica em pessoas com Alzheimer. Essa abordagem pode contribuir para pesquisas que buscam identificar sinais associados à evolução da doença, especialmente quando combinada a avaliações clínicas e biomarcadores.
Apesar disso, a amostra reduzida e o acompanhamento relativamente curto limitam as conclusões. Os pesquisadores destacam a necessidade de estudos com mais participantes e confirmação da doença por biomarcadores.
Por enquanto, a permeabilidade da barreira hematoencefálica não é um marcador prognóstico estabelecido para uso clínico rotineiro no Alzheimer. A descoberta mais relevante está na associação entre uma região cerebral específica, a inflamação e a evolução cognitiva, que poderá orientar investigações futuras.
Fonte: Fala Ciência


