Créditos: Ricardo Stuckert/PR
O desfile da Acadêmicos de Niterói — primeira escola a entrar na Marquês de Sapucaí pelo grupo especial do Carnaval do Rio de Janeiro este ano — mobilizará não apenas foliões, mas também o mundo político neste domingo (15). A agremiação estreia na elite da folia carioca com um enredo dedicado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Às vésperas da disputa presidencial, a homenagem ganhou dimensão política. Enquanto partidos de oposição veem no espetáculo indícios de campanha antecipada, dirigentes do PT admitem, nos bastidores, preocupação com eventual desgaste à imagem de Lula.
Em “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a escola contará a trajetória do petista e, no samba-enredo, incluirá referências diretas ao universo do PT. A letra reproduz um dos gritos de guerra entoados pela militância (“Olê, olê, olê, ola, Lula, Lula”) e menciona, em duas passagens, o número de urna do partido.
O enredo também faz menção ao “legado do lulismo” e classifica o petista como o “político mais bem-sucedido de seu tempo”. Nas redes, a Acadêmicos de Niterói tem utilizado imagens oficiais de Lula e um dos motes da campanha de 2022 (“O amor vai vencer o medo”) para vender o desfile, que apresentará cinco carros alegóricos e 3.100 componentes.
Lula deve assistir à apresentação em um camarote da Prefeitura do Rio, ao lado do prefeito Eduardo Paes (PSD), que é cotado para disputar o governo do estado, com apoio do presidente. A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, deve desfilar em uma das alas da escola. A combinação elevou a temperatura do debate jurídico e eleitoral em torno do desfile.
Oposição vê campanha antecipada
Para políticos da oposição, a passagem da escola de Niterói pela Sapucaí representará uma espécie de campanha antecipada da reeleição de Lula. O enredo já é alvo de questionamentos na Justiça Federal e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A Corte Eleitoral rejeitou, na última semana, um pedido para barrar a apresentação da escola, mas alertou que eventuais ilícitos poderiam ser analisados após o desfile.
A presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, destacou que o caso não foi arquivado e avaliou que havia um “risco muito concreto” de que delitos eleitorais pudessem ocorrer.
Principal partido de oposição, o PL deverá ficar “de olhos abertos” para possíveis deslizes de aliados de Lula no desfile. Dirigentes da sigla avaliam que eventos do tipo podem ser configurados como propaganda antecipada, o que pode levar à aplicação de multa contra Lula.
Membros da cúpula do partido relembram que um cenário semelhante ocorreu em 2022, quando o PT foi à Justiça Eleitoral para impedir a utilização de imagens do desfile do Sete de Setembro na campanha de Jair Bolsonaro.
O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), afirmou que o grupo vai “aguardar” o desfile para avaliar contestações jurídicas.
Além de contestar o conteúdo do enredo, a oposição questiona repasses de verbas federais ao Carnaval. Parlamentares acusam o governo de financiar indevidamente a Acadêmicos de Niterói por meio de recursos da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), que destinou R$ 12 milhões ao grupo especial — R$ 1 milhão para cada agremiação, incluindo a escola de Niterói.
O Partido Novo levou o caso ao Tribunal de Contas da União (TCU) e pediu a suspensão dos repasses. No início do mês, o ministro Aroldo Cedraz rejeitou bloquear os recursos da Acadêmicos de Niterói, mas determinou que a Embratur e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa) prestem esclarecimentos sobre possíveis irregularidades.
Um dos dirigentes nacionais do PT reconhece que o desfile é um “prato cheio” para um eventual desgaste de Lula às vésperas das eleições. Segundo ele, ao perceber o risco de judicialização, a cúpula da sigla passou a discutir uma espécie de “contenção de danos”.
O partido “desestimulou”, nas palavras de outro membro da direção nacional, a participação de deputados e ministros no desfile, em uma tentativa de evitar ainda mais a politização do evento.
Com informações de Metrópoles


