Como age a pílula que traz esperança no combate ao câncer de pâncreas, um dos mais letais do mundo

08 de Junho 2026 - 17h39
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Por décadas, o câncer de pâncreas esteve entre os tumores mais difíceis de tratar. Entre pacientes diagnosticados com a forma metastática da doença entre 2015 e 2021, cerca de 97% morreram em até cinco anos após o diagnóstico.

A alta mortalidade está relacionada à dificuldade de detecção precoce. O câncer de pâncreas raramente provoca sintomas nos estágios iniciais e, quando sinais como icterícia (amarelamento da pele) ou dor abdominal aparecem, a doença geralmente já se espalhou para outros órgãos.

Agora, um novo medicamento oral chamado daraxonrasib surge como uma das maiores promessas dos últimos anos para o tratamento da doença. Em estudo clínico de fase 3, a droga quase dobrou a sobrevida de pacientes com câncer pancreático metastático.

O desafio do câncer de pâncreas

O tratamento padrão para casos avançados sempre foi baseado na quimioterapia. Embora possa retardar a progressão da doença, a estratégia costuma perder eficácia com o tempo devido à capacidade das células cancerígenas de desenvolver resistência aos medicamentos.

Mais de 90% dos tumores pancreáticos apresentam mutações no gene KRAS, responsável por controlar o crescimento celular. Quando alterado, esse gene mantém o processo de multiplicação celular permanentemente ativado, favorecendo o crescimento descontrolado do tumor.

Durante décadas, cientistas consideraram o KRAS um alvo praticamente impossível para medicamentos, o que limitou o desenvolvimento de terapias mais precisas contra a doença.

Como funciona o daraxonrasib

Administrado por via oral uma vez ao dia, o daraxonrasib atua de forma diferente dos tratamentos convencionais. Em vez de se ligar diretamente ao KRAS, ele se conecta a uma molécula chamada ciclofilina A, que auxilia na estruturação das proteínas dentro das células.

A partir dessa ligação, o medicamento consegue bloquear a atividade do KRAS e interromper os sinais que estimulam a multiplicação das células cancerígenas.

Os resultados apresentados pela farmacêutica Revolution Medicines, em maio de 2026, envolveram cerca de 500 pacientes com câncer pancreático metastático que já haviam passado por tratamentos anteriores.

Segundo os dados, a sobrevida média dos pacientes tratados com daraxonrasib chegou a 13,2 meses, contra 6,7 meses entre aqueles que receberam quimioterapia convencional. O estudo também apontou redução de 60% no risco de morte.

Efeitos colaterais e próximos passos

O efeito adverso mais comum foi uma erupção intensa na pele, registrada em mais de 86% dos participantes. Também foram observados casos frequentes de estomatite, diarreia, náuseas e vômitos.

Apesar disso, os pacientes tratados com o novo medicamento apresentaram menor taxa de interrupção do tratamento por efeitos colaterais graves e relataram melhora na qualidade de vida e redução da dor.

A empresa responsável pelo desenvolvimento da droga pretende solicitar a aprovação do medicamento junto à Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, além de outros órgãos internacionais.

Se os resultados forem confirmados pelas autoridades regulatórias, o daraxonrasib poderá representar uma mudança significativa no tratamento do câncer de pâncreas, abrindo caminho para terapias mais eficazes e personalizadas contra uma das formas mais agressivas da doença.