
Ao contrário do que muita gente pensa, o desenvolvimento da fala de crianças deve ser observado desde os primeiros meses. É comum os pais não atentarem até o segundo ano de vida, na crença de que o filho terá o seu próprio tempo, mas estudos mais recentes mostram que já é possível detectar sinais precoces de atraso na fala antes mesmo do primeiro ano.
A Apraxia de Fala da Infância (AFI) pode ser causada por uma lesão cerebral (como tumores, infecções ou traumas) ou pode ter origem genética (associada a transtornos neurológicos e do desenvolvimento, como no Autismo, Síndrome de Down etc.). Mas na maioria dos casos ela não apresenta causa específica definida.
De acordo com a coordenadora de Fonoaudiologia do Núcleo Desenvolve, Maria Tereza Freitas, é importante que a criança diagnosticada com AFI ou outros transtornos motores de fala sejam submetidas a uma avaliação completa. "Além da avaliação motora de fala, deve-se examinar outras áreas da comunicação, pois a maioria das crianças também apresenta atraso na linguagem", alerta.
"Após o diagnóstico, deverá ser realizado um plano de intervenção baseado nos princípios da aprendizagem motora da fala, ou seja, ensinando à criança a organizar os sons da fala para realizar os movimentos adequados na boca", explica a fonoaudióloga.
No Núcleo Desenvolve, as intervenções ocorrem de maneira intensiva e na casa da criança, aproveitando as oportunidades de comunicação do dia a dia. Além disso, Maria Tereza pondera que cada criança é única, assim como as dificuldades apresentadas. "O tratamento deve ser planejado de forma individualizada, respeitando as características culturais, desenvolvimento e costumes".
Como detectar
A fonoaudióloga alerta para alguns sinais que podem indicar distúrbios na fala de forma precoce, mas sempre destacando que somente uma avaliação profissional é eficaz neste sentido:
- Apresentação ou não de vocalizações/balbucios quando bebê;
- Emissão de sons antes de começar a falar;
- Apresentação de coordenação motora oral para se alimentar ou para realizar movimentos na boca;
- Tendência a manter a boca aberta por muito tempo;
- Excesso de salivação;
- Dificuldade em "procurar" os sons para falar;
- Pronúncia de palavras com estrutura limitada a sílabas;
- Vocabulário adequado à idade.
"É necessário que os pais observem os sinais e procurem um profissional especialista em Linguagem para uma avaliação o quanto antes, porque esperar não é a melhor atitude", reforça Maria Tereza. "Pode até não ser possível realizar um diagnóstico precoce, mas o desenvolvimento será monitorado, e os pais serão orientados".
O apoio em casa
A família tem um papel essencial no tratamento: quando engajada, faz toda a diferença em um melhor prognóstico. "Os exercícios que a criança realiza na terapia deverão ser realizados também em casa, de maneira adaptada, porque o ambiente familiar é uma extensão", acredita Maria Tereza.
Para ela, é necessário que a criança tenha consciência da sua dificuldade para poder se esforçar e planejar melhor os sons da fala. "Os pais podem ajudar com atitudes que fazem a diferença: oferendo o modelo de fala adequado, conversando sem utilizar diminutivos ou modificar a entonação e dando um feedback auditivo do padrão correto".
Por fim, a fonoaudióloga frisa que também é muito importante considerar a afetividade no processo. "É preciso encorajar a criança, exaltar as suas potencialidades, exaltar quando pronuncia uma palavra corretamente", diz.