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Receber o diagnóstico de câncer já representa um desafio enorme. Mas a luta contra a doença pode envolver outro inimigo, muitas vezes pouco percebido: a desnutrição.
Segundo estimativas da ESPEN (Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo), entre 10% e 20% das mortes de pacientes com câncer podem estar associadas à desnutrição, e não diretamente à doença oncológica.
O dado, publicado em documento científico de 2017, chama a atenção para a importância de incluir o acompanhamento nutricional no tratamento de diferentes tipos de câncer.
Mais do que uma questão de alimentação, a desnutrição pode comprometer o funcionamento do organismo, provocar perda de massa muscular, aumentar a vulnerabilidade a complicações e dificultar a tolerância a tratamentos como quimioterapia, radioterapia e cirurgias.
“A desnutrição não é apenas uma consequência da doença, mas uma condição que pode comprometer significativamente a evolução clínica do paciente”, explica Valéria Rosenfeld, gerente médica de Nutrição e Saúde da Nestlé Brasil.
Por isso, a avaliação nutricional deveria começar já no diagnóstico e continuar ao longo de todo o tratamento. A identificação precoce dos riscos permite estabelecer estratégias individualizadas para preservar a força, a capacidade funcional e a qualidade de vida.
Perda de músculos pode dificultar o tratamento
Quando se fala em desnutrição, muita gente pensa apenas no emagrecimento. Mas, no paciente oncológico, a perda de massa muscular é uma preocupação especialmente importante.
Os músculos desempenham funções essenciais para a força, a mobilidade e o funcionamento do organismo. Quando há redução significativa dessa reserva, o paciente pode apresentar mais fadiga, fraqueza e dificuldade para realizar atividades cotidianas.
A situação também pode interferir na resposta aos tratamentos. “Quanto menor a massa muscular do paciente, maior pode ser sua vulnerabilidade à toxicidade desses tratamentos, o que aumenta o risco de complicações e pode comprometer sua capacidade de tolerar as terapias propostas”, alerta Valéria.
Além disso, a perda muscular está associada à redução da força, ao aumento do cansaço e à piora da capacidade funcional. Em determinadas situações, essas complicações podem levar à necessidade de ajustes, adiamentos ou até interrupções do tratamento.
A cirurgia também exige atenção. A perda muscular pode dificultar a recuperação, tornando ainda mais importante o acompanhamento nutricional antes e depois dos procedimentos.
Paciente oncológico perdeu 12 quilos após cirurgia
A experiência de Durval Júnior, hoje com 65 anos, mostra como as dificuldades nutricionais podem passar despercebidas durante a jornada oncológica.
Em dezembro de 2022, ele recebeu o diagnóstico de câncer de próstata. Segundo seu relato, a doença havia ultrapassado a próstata e atingido uma região próxima à bexiga. Diante da gravidade do quadro, precisou passar por uma cirurgia para retirada do órgão.
A operação aconteceu em 27 de dezembro, poucos dias depois do diagnóstico. O que parecia ser uma recuperação relativamente tranquila, porém, se transformou em um período bastante difícil.
Durval permaneceu por 45 dias com uma bolsa coletora de urina, enfrentou infecções urinárias recorrentes e precisou passar por procedimentos para retirar e recolocar o cateter, que apresentava obstruções.
Nesse período, também perdeu entre 10 e 12 quilos. O apetite diminuiu, a vontade de comer praticamente desapareceu e a recuperação se prolongou muito além do esperado.
“Eu também não conseguia me alimentar direito e não tinha muita vontade de comer”, conta Durval.
Apesar da perda expressiva de peso, nenhum profissional conversou com ele sobre desnutrição, perda de massa muscular ou necessidade de acompanhamento nutricional.
“Não recebi nenhuma orientação específica sobre alimentação durante esse período, nem antes, nem durante o processo de exames pré-cirurgia, nem depois, muito menos durante a recuperação”, relata.
Os ajustes na alimentação foram feitos por iniciativa própria, com a ajuda da esposa. O casal decidiu reduzir pratos mais pesados e gordurosos, mas Durval não recebeu encaminhamento para um nutricionista nem orientações específicas sobre suplementação.
Os impactos da perda de peso
Quase quatro anos depois da cirurgia, Durval afirma que ainda percebe mudanças importantes em sua condição física.
Antes do diagnóstico, tinha uma rotina bastante ativa. Trabalhava em uma empresa, carregava equipamentos pesados e costumava fazer caminhadas de aproximadamente uma hora aos finais de semana.
Hoje, sente que perdeu força e massa muscular. Segundo ele, atividades que antes realizava com facilidade se tornaram muito mais difíceis.
Ele também relata dificuldades urinárias persistentes, que interferem até nas caminhadas. Apesar de ter realizado oito meses de fisioterapia, afirma que não recuperou completamente as condições anteriores à cirurgia.
Durval reconhece que a idade e a redução da atividade física também podem ter contribuído para as mudanças, mas acredita que a falta de orientações sobre alimentação e recuperação muscular fez diferença em sua trajetória.
“Se eu soubesse que perderia o apetite, a vontade de comer e que poderia emagrecer tanto, poderia ter questionado e pedido encaminhamento para um nutricionista”, afirma.
Identificar os riscos cedo pode fazer diferença
Um dos desafios do cuidado oncológico é identificar a desnutrição antes que ela esteja avançada. Isso porque a perda de massa muscular nem sempre aparece acompanhada de uma redução expressiva do peso na balança.
De acordo com Valéria, todos os pacientes deveriam passar por uma triagem nutricional desde o diagnóstico. A avaliação considera fatores como perda involuntária de peso, redução do apetite, dificuldades para se alimentar, alterações gastrointestinais e diminuição da massa muscular.
“Um paciente pode apresentar perda importante de massa muscular mesmo sem uma redução expressiva do peso corporal”, explica a médica.
Quando o problema é identificado tardiamente, o organismo já pode estar mais fragilizado, com maior risco de complicações, toxicidade dos tratamentos e dificuldades de recuperação.
Entre os sinais de alerta estão:
Perda de peso sem intenção;
Diminuição persistente do apetite;
Sensação de saciedade após pequenas quantidades de comida;
Fraqueza e cansaço excessivo;
Perda perceptível de força e musculatura;
Náuseas, vômitos e diarreia;
Alterações no paladar e dificuldades para mastigar ou engolir.
A recomendação é não esperar que o emagrecimento se torne evidente para procurar ajuda. Como reforça Valéria: “O paciente não precisa esperar perder peso para procurar ajuda. Quanto mais cedo os riscos forem identificados, maiores são as possibilidades de adotar medidas para preservar o estado nutricional, a funcionalidade e a qualidade de vida durante o tratamento”.
Todo paciente com câncer precisa de suplementos?
Não. Nem todos os pacientes oncológicos precisam de uma dieta específica ou de suplementação nutricional. As necessidades variam conforme o tipo e o estágio da doença, o tratamento realizado, os sintomas e as condições nutricionais de cada pessoa.
Em alguns casos, ajustes na alimentação habitual, mudanças na consistência e na frequência das refeições e estratégias para aumentar a ingestão de proteínas e calorias podem ser suficientes.
Quando necessário, o profissional também pode recomendar suplementos nutricionais orais. Em situações específicas, podem ser indicadas outras formas de suporte, como nutrição enteral ou parenteral.
“O mais importante é evitar recomendações generalizadas. O cuidado nutricional deve ser individualizado e integrado ao tratamento oncológico”, ressalta a médica.
O uso de suplementos por conta própria e a adoção de dietas restritivas devem ser evitados. A orientação precisa considerar as necessidades de cada paciente e fazer parte do planejamento terapêutico.
Acompanhamento nutricional ainda é um desafio
Apesar da importância desse cuidado, a avaliação nutricional ainda não está incorporada de maneira sistemática à rotina de todos os serviços de oncologia. A falta de profissionais especializados, as desigualdades de acesso e a necessidade de maior integração entre as equipes estão entre os desafios.
Nesse cenário, iniciativas que ampliam o acesso à orientação profissional também podem contribuir para o cuidado dos pacientes.
A Nestlé, por exemplo, mantém uma jornada de apoio a pessoas em tratamento oncológico há mais de uma década, com pesquisas científicas e parcerias, entre elas com o A.C.Camargo e o aplicativo Cecí, antigo WeCancer. A plataforma oferece acompanhamento e informações gratuitas, incluindo suporte nutricional. A empresa também anunciou a ampliação da parceria para oferecer atendimento gratuito a mais de mil pacientes com câncer.
Para além das iniciativas, a mensagem central é que a nutrição não deve ser tratada como um cuidado secundário ou acionado somente quando a perda de peso já é evidente.
Preservar o estado nutricional, a força e a capacidade funcional faz parte do tratamento oncológico. Como mostra a experiência de Durval, a recuperação não termina necessariamente com a cirurgia ou com o fim de uma terapia. O cuidado precisa considerar o paciente de forma integral, inclusive suas necessidades nutricionais.
Fonte: R7


