Sérgio Trindade

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19/01/2020 21:12

Neolilberalismo e neoliberais

Neolilberalismo e neoliberais

Roberto de Oliveira Campos, ex-embaixador, ex-ministro, ex-senador e ex-deputado federal e um dos maiores entusiastas do liberalismo, concedeu, nos anos 1990, ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, uma entrevista na qual dizia não conhecer o neoliberalismo e sim neoliberais.

Segundo Campos, o neoliberalismo é apenas um produto do liberalismo econômico neoclássico, uma redefinição do liberalismo clássico, influenciado pelas teorias econômicas neoclássicas. Logo não há uma escola neoliberal e sim uma escola liberal. Sendo assim, concluiu, o que existe por aí são apenas pessoas que aderiram ao pensamento liberal e não um pensamento neoliberal propriamente dito.

A origem do neoliberalismo deve ser remetida à Escola Austríaca, mais precisamente aos economistas Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek (este discípulo daquele), que formularam o pensamento econômico a partir da Lei de Say e da teoria marginalista, contestadas pelo britânico John Maynard Keynes, contemporâneo de ambos.

O pensamento de Lorde Acton, de Adam Smith e de Jean B. Say foram fundamentais na construção e no desenvolvimento do pensamento de Hayek, pois enfatizava a importância central da moralidade no desenvolvimento de uma civilização avançada.

Para Hayek, uma economia próspera e o desenvolvimento da lei como um processo evolucionário requerem uma sólida ordem moral. Sem isso não haverá uma sociedade saudável, próspera e livre.

A economia mundial experimentou praticamente duas décadas de crescimento contínuo. O lastro de tal crescimento está nos princípios liberais esboçados por Smith, Ricardo, Say, os neoclássicos, Hayek, Mises, Friedman, etc.

O modelo, é verdade, tem suas limitações, mas garantiu crescimento econômico, superou uma sucessão de crises e legou à periferia do capitalismo um lugar de destaque no cenário mundial, com China, Índia, Rússia e Brasil (BRIC) apitando alto sobre os destinos do mundo econômico.

Quando a crise econômica engolfou os Estados Unidos e a Europa, na virada do século/milênio, não faltaram os que euforicamente apontaram a dura realidade.

Como por encanto, esquecemos que o subdesenvolvimento não é uma doença crônica, nem a periferia do capitalismo é o saco de pancadas do mundo desenvolvido.

As teorias terceiro-mundistas serviram durante anos para difundir uma tristeza generalizada contra o desenvolvimento e o risco que seria viver num mundo globalizado. Os seus formuladores e simpatizantes vibram quando há sinais de crise no ar. É o momento em que vêm à cena os Antônios Conselheiros, intelectuais agitam as teorias marxianas não inteiramente desenvolvidas sobre os ciclos econômicos e abundam os seminários e os fóruns alternativos que proclamam o fim do sistema e a emergência de um outro, mais justo e humano, no qual não haverá pobreza, pois a justiça social irá desabrochar e enraizar-se fortemente.

Os mesmos profetas do caos não piam quando a economia mundial vai bem, apenas usufruem das benesses do capitalismo explorador e injusto e torcem para que o trem saia do trilho, pois só assim poderão tornar audível a cantilena tosca e atrasada que adoram difundir.

Na América Latina, dizia Campos, o liberalismo nunca deu o ar da graça, porque os governos desejam “um capitalismo sem lucros, um socialismo sem disciplina e investimento sem investidores estrangeiros”.

Lula, Dilma, Mantega, Mercadante, Mirian Belchior e os do governo tucano, como José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Paulo Renato e outros de alta ou baixa plumagem e democratas do ex-PFL (Antônio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen, José Agripino) não eram, não são e nunca serão liberais em política, tampouco em economia. O mesmo se pode dizer de Temer e mesmo de Bolsonaro, forjado na defesa de corporações.

Como essa turma sabe que a história e a política são nutridas por versões, houve em dado momento adesão ao propalado Consenso de Washington apenas por conveniência tática.

Tornaram-se liberais na aparência e intervencionistas na essência, fizeram com o sistema que diziam combater uma aliança conjuntural, oportunista, momentânea e arriscaram, diria Campos, por amor ao passado, perderem o presente e comprometerem o futuro.