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06/09/2019 21:12

Yesterday: cinema também é deleite

Fotos: Divulgação

Yesterday: cinema também é deleite

Por João Victor Wanderley

O cinema é versátil, capaz de usar seus recursos tanto para bater quanto para afagar. Se no início da semana falei sobre Bacurau (2019) e sua habilidade em fazer refletir – nos mostrando o que é viver em comunidade –, hoje trago minhas impressões sobre Yesterday (2019), bem-vinda dose da positividade necessária para nossa individualidade.

Durante um inexplicável apagão que atingiu todo o mundo, o músico fracassado Jack Malik (Himesh Patel) sofre um acidente e perde a consciência. Ao acordar, descobre que Os Beatles nunca existiram e que apenas ele sabe as músicas da banda. Após o choque inicial, Jack usa seu conhecimento e se torna “o maior compositor de todos os tempos”.

Escrito por Richard Curtis, a partir de uma história sua e de Jack Barth, o roteiro carrega duas intenções narrativas muito claras, e a primeira é a de construir uma jornada de superação. Jack divide seu tempo entre o emprego no comércio e a frustrada careira de cantor e compositor, empresariada pela amiga de infância – e visivelmente apaixonada – Ellie (Lily James).

A jornada é permeada por clichês como o orgulho ferido, a vontade de desistir, a chegada do sucesso, e a ascensão. Todo os passos da trama são facilmente telegrafados, o que tira qualquer surpresa em relação às reviravoltas propostas e o rumo escolhido. Porém, o que torna tudo tão interessante aqui é o talento de Curtis para extrair humor cotidiano até em situações atípicas, como mostram suas obras Um Lugar Chamado Notting Hill (1999) e Questão de Tempo (2013).

(Jack emociona ao "compor" Yesterday / Imagem: Divulgação)

Só o fato de uma das maiores bandas ter sumido gera situações hilárias como as reações de quem ouve os nomes John, Paul, George e Ringo; o descaso com algumas das músicas mais icônicas – a cena de Let It Be é ótima –; a interferência artística dos que tentam “melhorar as letras”; e, principalmente, as pesquisas feitas por Jack sempre que descobre algo que deixou de existir – sim, não foram só Os Beatles!

Um acerto da produção está na a versão que Ed Sheeran interpreta dele mesmo. A escolha ancora a trama numa realidade mais crível, com um artista da atualidade encantado pelas “novas canções”, e cria comicidade nas interações no cotidiano dos anônimos. Outro ponto que precisa ser citado é como o filme aborda o incômodo sentido pelo protagonista.

Embora alcance o sucesso desejado, a ciência de ser através do trabalho de terceiros o perturba, como visto em suas reações ao ser chamado de gênio, como se incomoda com as palmas exageradas em determinada reunião e quando canta Help! como se suplicasse ajuda.

A segunda intenção narrativa é a de prestar homenagem aos Beatles. O filme não tenta usar as músicas como fez Across The Universe (2007), mas reverenciá-las através nos pequenos trechos tocados, na trilha sonora instrumental e nos nomes de personagens.

(A idolatria aos Beatles é preservada graças ao esforço de Jack / Imagem: Divulgação)

Há a preocupação em mostrar o impacto das letras, suas repercussões e aceitações pelo público. É como se a produção cinematográfica fizesse questão de reforçar a importância da banda, para que ela não “se apague” em tempos de cultura tão descartável, cujas obras trazem curtos prazos de validade.

Não à toa, o esforço do protagonista em manter as letras vivas é significativo. O cantor faz o que pode para lembrar de diversas músicas e eternizá-las – o que gera boas piadas com ele “finalizando” as canções incompletas. Nessa onda de homenagens, há uma cena belíssima entre Jack e outra personagem. O momento deve gerar um calorzinho especial no coração dos fãs.

A relação entre Jack e Ellie é adorável. Muito se deve à excelente química entre Himesh Patel e Lily James, que trazem carisma absurdo para a tela. Ele é completamente natural, tem ótimo timing cômico e canta muito bem. Ela exala simpatia e carinho tão grandes que é impossível não se encantar.

Aliás, a interação de ambos representa a importância das pequenas conquistas da vida, que as vezes se perdem ao sonharmos alto. E Ellie é a perfeita encarnação daquelas pessoas que entram em nossas vidas e acreditam na gente mais que nós mesmos – talvez por ter alguém assim do meu lado, eu tenha me encantado tanto com a personagem! O resto do elenco está afiado, mesmo que em participações menores. Destaque para Sanjeev Bhaskar, o pai de Jack, e Joel Fry, que transforma Rocky num ótimo coadjuvante.

(Lilly James e Himesh Patel / Imagem: Divulgação)

Comandando tudo, o sempre bom diretor Danny Boyle consegue arrancar o máximo possível de uma história tão leve. Sua câmera investe em movimentos circulares, para dar dinamismo a certos diálogos, e é entusiasmante nos shows, elevando a atmosfera ao nos contagiar com a energia do momento.

A montagem de Jon Harris é eficiente na criação do ritmo, na estética e ao elaborar elipses temporais. A divisão de tela proposta no show em Moscou liga a apresentação diretamente à repercussão nas redes sociais de forma simples e elegante. Harris é particularmente feliz ao montar as cenas em que o protagonista faz pesquisas na internet, dando vigor à piada recorrente, e ao representar a dificuldade de Jack ao lembrar das letras – a sequência de Eleanor Rigby é legal demais.

Já a fotografia de Christopher Ross aposta em cores quentes para dar tom agradável à estética. Além disso, traz enquadramentos belíssimos como quando toca a canção-título do filme. Outro grande momento é quando a dupla central é enquadrada pela luz emitida pela TV do quarto.

Unicamente destinado a reverenciar uma das maiores bandas da história, e de oferecer uma experiência adorável, Yesterday é um filme extremamente leve e faz com que nos sintamos felizes. É previsível enquanto obra cinematográfica, mas acerta nossos corações em cheio com suas intenções. Um trabalho de fãs para fãs, e para todos que procuram cinema para a alma.

Nota 8/10