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02/07/2019 17:13

Turma da Mônica – Laços: carinho que transcende a tela

Fotos: Maurício de Sousa Produções

Turma da Mônica – Laços: carinho que transcende a tela

Por João Victor Wanderley

Desde a infância, minhas visitas à minha avó materna são repletas de afeto. Dessas visitas, se fortaleceu a relação com uma das pessoas que mais amo, minha prima Camila – irmã, na verdade –, uma das responsáveis por me fazer ter interesse em histórias.

Ela assinava a coleção da Turma da Mônica e sempre que uma nova edição chegava, fazia questão de me passar. Por muitos anos eu tive o hábito de ler e reler algumas das revistas que mais gostava, me fazendo respeitar demais a obra de Maurício de Sousa.

Não me recordo de algo tão representativo para gerações brasileiras ter ido às telonas com uma nova linguagem, o que me deixou receoso desde o anúncio da adaptação. Felizmente, a produção envolvida demonstrou a mesma atenção que o material original tem, até hoje, com seu público.

Em Turma da Mônica – Laços (2019), após o desaparecimento de Floquinho, Cebolinha (Kevin Vechiatto), Mônica (Giulia Benitte), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira) partem para resgatar o cachorrinho, passando por uma jornada que moldará a relação entre os quatro.

Somos apresentados ao quarteto principal e a convidativa cidade de Limoeiro. É impossível não notar, já no primeiro ato, a força estética do filme, muito responsável por nos fazer aceitar essa releitura. A direção de arte aposta em cores muito bem definidas e vivas, que vão desde os figurinos irretocáveis às casas e locações escolhidas.

É fácil perceber que a história se passa numa realidade possível e próxima à nossa, mas que traz uma fantasia jamais deslocada graças ao tom cartunesco adotado. Parece que estamos vendo a simulação de uma animação, e isso soa lindo aqui. Esse viés cartunesco ajuda a diminuir o impacto de se fazer um Live Action – trabalho que utiliza atores reais – de um desenho com traços tão característicos e pouco simétricos com a realidade.

Turma da Mônica - Laços tem um design de produção belíssimo (Imagem: Paris Filmes)

O filme ainda faz questão de construir uma estética atemporal, que remete à jornada dos quadrinhos ao longo do tempo. Compreendemos que a história se passa nos dias de hoje através da forma de agir e de falar das crianças – que usam expressões como “só que não”. Ao mesmo tempo, vemos objetos antigos como alguns veículos ou modelos de telefone.

A abordagem da trama é muito respeitosa com o público, jamais adotando recursos que possam agredir os espectadores mais novos. Reparem nas cenas onde a Mônica descarrega sua força e a câmera exclui os acontecimentos do enquadramento, priorizando as reações de quem assiste. Além de não glorificar a violência, preserva a ingenuidade e a pureza infantil das revistinhas.

O roteiro de Thiago Dottori – a partir da Graphic Novel de Vitor e Lu Cafaggi – encontra na direção de Daniel Rezende o suporte para transformar o filme em brincadeira. Ao abrir e fechar com alguns rabiscos imprecisos do que seriam os protagonistas, a produção parece reforçar a ideia de que vemos uma história saída diretamente da cabeça de uma criança apaixonada por esse universo.

Não por acaso, nos deparamos com referências a Jotalhão, Orácio e com o próprio Maurício de Sousa, numa participação como o responsável por uma banca repleta de revistas de toda a turma, numa pura demonstração de respeito e carinho pelo material adaptado.

O filme ainda encontra uma maneira singela de abordar a complexa relação entre Cebolinha e Mônica. Ele, por querer ser o líder da “tulma”, têm a garota como sua rival, levando-o a elaborar estratégias para vencê-la. Por outro lado, ela é a primeira que se prontifica a ajudar o amigo quando este perde seu cachorro.

Essa relação de idas e vindas ganha contornos tocantes quando representa as confusões de uma mente ingênua. Reparem na singela cena onde a Mônica se encontra incapaz de revidar as palavras ásperas do Cebolinha, desmoronando em lágrimas que fazem o amigo se arrepender do que disse.

Reparem também quando ambos estão dormindo e, inconscientemente, ficam felizes apenas por suas mãos se tocarem acidentalmente. São momentos simples e tocantes assim que dão ao subtítulo Laços uma ideia mais substancial de união, consolidada na camada mais objetiva – quando os laços amarrados nas árvores demarcam o caminho para não se perderem – ou na metafórica – quando remete à proximidade do grupo.

O lindo trabalho de fotografia emula a vivacidade dos quadrinhos (Imagem: Captura de tela/trailer do filme)

Para traduzir tudo isso em imagem, a fotografia de Azul Serra e a montagem de Marcelo Junqueira e Sabrina Wilkins constroem esses momentos com calma, gastando o tempo necessário nos enquadramentos mais significativos. Além disso, os três também se destacam em atribuições particulares.

O primeiro consegue dar dinamismo com movimentos de câmera fluidos, como quando desliza lateralmente ao acompanhar os quatro em ação. Também cria enquadramentos de pura beleza estética, como se montasse uma página de quadrinho. A cena do grupo passeando pela floresta com o sol ao fundo é lindíssima.

Já os outros dois fazem ótimo jogo de cortes, dando ritmo e jamais sendo confuso. O melhor momento da dupla é na montagem instigante na participação do Louco, que passa uma surrealidade condizente com a personagem e ainda conta com um Rodrigo Santoro inspirado.

Mesmo com tantos atributos técnicos, talvez o maior feito de Daniel Rezende seja mesmo a condução de seu elenco. É visível a inexperiência dos quatro, que não são necessariamente bons atores. Mas o diretor usa isso a seu favor, evitando coloca-los em situações de carga dramática mais forte e construindo todo o drama necessário na montagem. Além disso, fica evidente que as crianças estão se divertindo demais em cena, o que dá a sensação de naturalidade. Eles não parecem estar atuando e têm ótima química.

Turma da Mônica – Laços tem algumas facilitações narrativas, não chega a ser tão complexo como algumas obras da Pixar e talvez não cative adultos sem ligação com o material original, mas conversa objetivamente com seu público alvo e, para os fãs mais velhos como eu, é um prato cheio de nostalgia.

Me peguei sorrindo feito uma criança, como se acabasse de voltar no tempo e visitasse a casa da minha avó. Como se reencontrasse a minha prima, novamente ingênuos, para conversar sobre essa turminha tão amada. E levando em consideração as reações da minha esposa, creio que algo similar tenha acontecido a ela. Como ignorar essa capacidade que o cinema tem de nos fazer dialogar com nossas memórias afetivas?

 

Nota 8,5/10