Plano Detalhe

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28/10/2019 05:00

Sessão Review #6

Fotos: Divulgação

Sessão Review #6

Seja por falta de tempo, demora a ter acesso ou mesmo por escolha sobre o que escrever, muitas das produções que assisto não recebem uma crítica aqui no Plano Detalhe. Escrever criteriosamente demanda tempo e esforço.

Para oferecer, ao menos, um olhar superficial sobre o que foi visto ou revisto, a Sessão Review traz comentários mais objetivos das obras que ficaram de fora do blog.


A Morte Te Dá Parabéns 2 (Happy Death Day 2U, 2019)

Após ter se livrado do loop temporal no filme anterior, que a jogava novamente no dia de seu aniversário sempre que era morta por um assassino mascarado, Tree (Jessica Rothe) se vê presa novamente no fatídico dia, mas algo está diferente. Com a interferência de Ryan (Phi Vu), que também percebeu estar num loop temporal, a jovem é jogada numa realidade alternativa, mas não tem certeza se pretende corrigir tudo desta vez.

O filme dá um passo à frente ao expandir as possibilidades criadas anteriormente. Além de encontrar um desdobramento narrativo alinhado à proposta original, traz algumas preocupações palpáveis como dar à protagonista um novo dilema. Embora tenha toda uma vida em sua “dimensão natural”, essa nova realidade oferece algo emocional muito valioso para ela, e isso gera um conflito interessante.

 O humor segue ainda mais afiado, com uma morbidez bem-vinda que rende piadas inusitadas e divertidas. Outra coisa que é positiva é a maneira que a produção tem de não se levar à sério, isso permite uma autorreferência debochada que implica também em se ridicularizar e em não levar sua pseudociência como algo de grande substância. Por fim, Jessica Rothe continua muito apta a carregar a produção, mostrando ótimo timing cômico e boa capacidade dramática nas poucas cenas mais exigentes.

A Morte Te Dá Parabéns 2 é leve, descompromissado, divertido e deliciosamente absurdo. Para quem procura escapismo, é um prato cheio!

Nota 7,5/10


Entre Nós (2013)

Sete amigos escritores escrevem cartas para eles mesmos, mas essas cartas só podem ser abertas 10 anos depois. Passado período combinado, eles se reencontram e se deparam com as diversas mudanças causadas pelo tempo.

Escrito por Paulo Morelli, que dirige o filme ao lado do filho Pedro, o roteiro é bem decepcionante na construção de sua história. Filmes desse tipo dependem muito da força dos diálogos, já que a trama se passa num cenário limitado e a proposta é mesmo mostra a interação do grupo.

Logo, os diálogos precisam ser dinâmicos, inteligentes e capazes de usar os detalhes para construir as personagens através das sutilezas, das nuances. Não é o que ocorre aqui. Entre Felipe (Caio Blat), dono do arco dramático melhor desenvolvido, e Lúcia (Carolina Dieckmann), a personagem mais inexpressiva, existe um grupo de figuras a estereótipos rasteiros.

Todos são rasos, superficiais, identificados por suas características mais fortes: tem o crítico chato, a divertida magoada, o cara triste, a mulher livre e segura... O problema é que quase nada acontece para dar complexidade ao grupo, todos são apenas o que sugerem suas características mais marcantes. O filme sequer se dá o trabalho de incluir discussões ou passagens literárias, o que é estranho já que todos são escritores.

Mesmo com um elenco bom, Entre Nós é mal escrito, cansativo e desinteressante. O potencial reflexivos e de humanização é deixado de lado para que a produção se entregue às escolhas fáceis. O resultado é entediante.

Nota 4/10


Um Contratempo (Contratiempo, 2016)

Dorian (Mario Casas) é um empresário de sucesso que está sendo acusado de assassinar sua amante, Laura (Bárbara Lennie), mas ele jura ser inocente. Sua versão da história, porém, é bastante questionável.

O roteiro, assinado pelo diretor Oriol Paulo, é instigante e ambíguo. O fato de ser narrado em primeira pessoa, pelo protagonista, nos faz tentar compreender a versão contada e ter empatia. Mas também nos deixa receosos, já que apenas temos a sua versão. Fica a dúvida se estamos diante de um narrador confiável.

Algumas facilitações narrativas surgem e podem soar como falhas, mas há inteligência o suficiente aqui para reverter alguns desses “problemas” de forma coerente. Diversas reviravoltas acontecem no decorrer do filme e isso causa boas surpresas, mas também esbarra no que considero o problema mais grave da produção.

Na tentativa de surpreender, algumas escolhas parecem estar ali apenas para impactar, causar choque pelo choque. Isso tira o peso do suspense bem construído na maior parte e fica ainda mais acentuado quando uma determinada escolha é tomada, ferindo a “regra” estabelecida pela lógica daquele universo. Um momento que realmente me afasta do filme.

De qualquer forma, Um Contratempo é envolvente, ágil, bem conduzido, conta com boas atuações – principalmente de Ana Wagener –, e, acima de tudo, intrigante.

Nota 7,5/10


The Crown – 1ª Temporada (2016)

A produção original Netflix conta a história da Rainha Elizabeth II (Claire Foy). Nessa primeira temporada, acompanhamos o processo de amadurecimento da monarca e como a Coroa interfere diretamente em sua vida pessoal.

Criada por Peter Morgan, que é um roteirista experiente e de ótimos trabalhos, e com os dois primeiros episódios dirigidos pelo ótimo Stephen Daldry, a série traz uma grande parcela de problemas que, à primeira vista, podem soar artificiais: um casal irritado porquê é obrigada a morar num palácio, uma família refém de tradições milenares, um marido frustrado porque não pode fazer nada sem permissão do parlamento...

Entretanto, tudo o que parece irrelevante para um público não conectado com a realeza, na verdade, serve para humanizar uma figura socialmente inalcançável. A pessoalidade perdida diante da tradição, dos deveres e dos comportamentos que, supostamente, são esperados pelos súditos.

É forte ver como, aos poucos, o casamento de Elizabeth e Philip (Matt Smith) se torna amargo, como a Coroa está sempre entre eles e ofuscando a mulher que a carrega. Essa distância é brilhantemente mostrada nas diversas cenas onde Philip brinca com os filhos e Elizabeth apenas se reserva o direito de espioná-los, por alguns segundos, de longe, afastada por janelas ou corredores enormes. O cargo ocupado por ela a impede de ter uma vida comum e saciar vontades próprias, o que também abala sua relação com a irmã Margaret (Vanessa Kirby).

Direção de arte, figurino e maquiagem são irretocáveis, criando época com muito luxo e bom gosto. O roteiro é inteligente, repleto de diálogos fortes, nuances ricas e personagens bem construídas. Todo o elenco foi muito bem escolhido, mas o destaque é mesmo Claire Foy. É fascinante como ela consegue transformar uma pessoa “sem brilho próprio” em alguém carismático e interessante, sem falar que sua postura sempre contida, até quando está irritada, é excelente.

A primeira temporada de The Crown demorou um pouco a me prender, mas me deixou completamente imerso e interessado naquelas pessoas e em suas vidas.

Nota 9/10