Plano Detalhe

12/08/2019 05:00

Sessão Review #3

Fotos: Divulgação / Montagem: João Victor Wanderley

Sessão Review #3

Por João Victor Wanderley

Seja por falta de tempo, demora a ter acesso ou mesmo por escolha sobre o que escrever, muitas das produções que assisto não recebem uma crítica aqui no Plano Detalhe. Escrever criteriosamente demanda tempo e esforço.

Para oferecer, ao menos, um olhar superficial sobre o que foi visto ou revisto, a Sessão Review traz comentários mais objetivos das obras que ficaram de fora do blog.

Minha Fama de Mau (2019)

A cinebiografia de Erasmo Carlos é dona de um estilo próprio que destoa das obras do gênero aqui no Brasil. A produção escolhe uma abordagem diferente para cada fase da vida do protagonista.

Quando no anonimato, vemos constantemente a quebra da quarta parede, onde Erasmo (Chay Suede) conversa diretamente com o público. Além disso, há influencias dos quadrinhos em transições que remetem às HQ’s – e não é uma escolha gratuita. A metalinguagem também é usada com inteligência para pontuar momentos que não entrarão em cena.

Na fase de sucesso, a produção se aproxima dos musicais com as letras do cantor e compositor capitulando a trama. Já o terceiro ato é mais sóbrio e um tanto amargo, dialogando com o declínio da carreira meteórica do artista.

O roteiro não oferece tanta profundidade, de maneira que uma composição estereotipada do elenco é mais que suficiente. Por um lado, enfraquece a humanização das personagens; por outro, atende à demanda descontraída. Nesse sentido, as atuações de Chay Suede como o “Tremendão” e Gabriel Leone como Roberto Carlos são adequadas e carismáticas – destaque especial para Vinicius Alexandre que vive o jovem Tião!

Minha Fama de Mau abraça a fanfarronice de forma saborosa, se mostrando um entretenimento gostoso de assistir e muito criativo.

Nota 8/10


Uma Noite de Crime (The Purge, 2013)

Durante 12 horas por ano, os Estados Unidos permitem que qualquer crime seja cometido. A medida visa diminuir a criminalidade liberando que as pessoas expressem seu ódio, mesmo que da forma mais violenta possível. Nesse contexto, acompanhamos uma família de classe alta que tem sua segurança ameaçada após acolher um homem que pedia ajuda.

Escrito e dirigido por James DeMonaco, o filme pontua discussões pertinentes como combater a violência através da mesma e as transformação dos pobres em alvos dos ricos. Porém, a produção perde sua força argumentativa ao focar no situacional.

Além disso, esbarra numa decisão que, paradoxalmente, fortalece e enfraquece a trama: se mergulhar na complexidade humana, deixa de levantar reflexões sociais; e se embarca no lado social, corre o risco de se render ao maniqueísmo.

Ao ir na segunda opção, o filme mostra como os pobres – especialmente negros – servem ao ódio da elite racista. Embora reflita, alegoricamente, um aspecto social, deixa de debater amplamente os impulsos sórdidos da natureza humana.

Uma Noite de Crime parte de um ponto interessante, mas opta pelo caminho mais fácil. Divide a comunidade entre ricos maus e pobres bons e se sabota ao preferir ser um terror genérico. Ainda assim, traz alguma provocação.

Nota 6/10

  

Uma Noite de Crime – Anarquia (The Purge - Anarchy, 2014)

O segundo capítulo da franquia mostra um grupo de cinco pessoas, liderado por um homem em busca de vingança, que precisa atravessar a cidade em segurança. O diretor e roteirista James DeMonaco tenta nos levar para outro lado da ideia.

Ainda vemos a elite branca usando o expurgo para praticar seus preconceitos, mas agora temos a ótica do lado mais pobre da sociedade, há maior ambiguidade nas ações mostradas aqui.

Novos conceitos são inseridos, como o leilão por pobres capturados, a força revolucionária que busca caçar os poderosos e uma sutil sugestão de envolvimento do Governo no extermínio.

Porém, novamente, a preocupação aqui não é se aprofundar nas reflexões, mas encontrar um escapismo genérico. Dessa vez, temos um filme com mais efeitos, confrontos, tiroteios e mortes. A estrutura narrativa se mostra repetitiva: os protagonistas procuram um local seguro, são surpreendidos e depois tentam encontrar outro local seguro.

Uma Noite de Crime – Anarquia também se inicia com uma boa proposta e até pontua novos olhares, mas se entrega ao cinema de entretenimento superficial, repleto de tiro, porrada e bomba.


12 Horas Para Sobreviver – O Ano da Eleição (The Purge – Election Year, 2016)

A terceira parte da série cinematográfica é a única que repete um protagonista. Leo Barnes (Frank Grillo) agora é chefe de segurança da Senadora Charlie Roan (Elizabeth Mitchell).

Candidata à presidência, Charlie defende o fim do Expurgo – evento anual que permite qualquer crime durante 12 horas. Temendo perder o controle, o atual governo retira a imunidade dos políticos durante o evento e inicia uma caça à candidata.

O filme até tenta pontuar alguma novidade como a extorsão das empresas de seguro que cobrem os comércios, o turismo de morte promovido pelo governo e, através da Senadora, a preservação pela vida. Mas logo se entrega à ação – que até funciona, mas cansa logo.

Sem trazer novos olhares e ao se prender à estrutura repetitiva mostrada anteriormente, 12 Horas Para Sobreviver – O Ano da Eleição faz a franquia retroceder.

Nota 5,5/10

A Primeira Noite de Crime (The First Purge, 2018)

Precisando de novo fôlego, a franquia Uma Noite de Crime chega ao seu capítulo final – ao menos até o momento – buscando a origem do evento anual que libera o crime durante 12 horas. Aqui, vemos como ocorreu o primeiro Expurgo, ainda um evento teste aplicado pelo Governo.

James DeMonaco, que escreveu e dirigiu os filmes anteriores, assina o roteiro e deixa a direção para Gerard McMurray. Mas a intensão de revigorar esbarra na repetição estrutural, falta de profundidade reflexiva e, pela primeira vez, na ação mal coordenada.

A história se passa num bairro pobre com muitos moradores negros. A mensagem social que iniciou o projeto lá em 2013 fica ainda mais clara: limpar o país dos negros pobres – agora com apoio explícito do governo. Travestido de experimento científico, o Expurgo não sai como o planejado, o que leva parte da organização a acionar grupos de extermínio étnico contratados para dar os números esperados.

Tirando essa ideia pouco explorada, o que sobra é mais um produto que não fortalece seu posicionamento político para focar no choque ocasional da aplicação da violência. A direção de McMurray é ruim, deixando o ritmo desgastado e entregando cenas ruins de ação, com efeitos bem artificiais. A escolha por uma estética contrastante entre o escuro e o neon não acrescenta nada além de estranheza.

Repetitivo, pouco argumentado, cansativo, mal dirigido e desperdiçando um bom argumento, A Primeira Noite de Crime é o filme mais chato da franquia.

Nota 4/10


Shippados – 1ª Temporada (2019)

A primeira temporada de Shippados acompanha Rita (Tatá Werneck) e Enzo (Eduardo Sterblitch), dois verdadeiros fracassados em seus relacionamentos que, de tão estranhos, percebem que funcionam juntos.

A série traz diálogos banais incomuns conduzidos com um delicioso humor. Além disso, funciona, até certo ponto, como reflexo dos relacionamentos nos tempos da tecnologia. A todo momento a internet desempenha um papel fundamental, seja como fonte de pesquisa, orientador social ou local de desabafo.

Os roteiristas Fernanda Young e Alexandre Machado investem no desenvolvimento de seus protagonistas, algo incomum nas obras da dupla. Rita e Enzo são figuras atípicas e muito complexas. Nesse ponto, o talento de Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch segura a onda e torna quase tudo verossímil.

Porém, a série perde a mão ao tentar elevar o nível de complexidade do casal central. Seja quando ela surta inexplicavelmente com o parceiro ou quando ele mostra a relação paranoica com seus pais, a produção erra o tom e alcança alguns momentos de sentida chatice.

Tatá e Eduardo têm química e até conseguem compor suas personagens com sucesso, mas ainda pecam quando são mais exigidos dramaticamente. Tatá, por exemplo, se apoia demais em sua persona e resgata trejeitos de seu humor peculiar, como a voz falhando quando emula raiva ou as caretas excessivas. Talvez o fato dela estar em bastante evidência provoque um certo cansaço de sua figura – e isso eu digo lamentando, pois sou muito fã dela.

Shippados é irregular. Começa desinteressante, tem momentos realmente hilários, irrita desnecessariamente e, já no fim, entra nos trilhos. Tem um elenco afiado e um texto que é muito mais feliz quando se propõe às trivialidades.

Nota 6,5/10