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23/09/2019 05:00

Rambo - Até o Fim: uma besta enjaulada com ódio (e muitos problemas)

Fotos: Divulgação

Rambo - Até o Fim: uma besta enjaulada com ódio (e muitos problemas)

Por João Victor Wanderley

A primeira coisa que me veio à cabeça após assistir a Rambo - Até o Fim (Rambo - Last Blood, 2019) foi Cristiano Ronaldo. Não que exista qualquer relação entre ambos, mas uma denominação específica para o atleta reflete perfeitamente à obra cinematográfica.

Dono de um apetite incontrolável por títulos e de uma carreira irrepreensível, o jogador português arranca entusiasmadas demonstrações de afeto dos fãs, como o memorável áudio que o define como “uma besta enjaulada com ódio”. Nenhuma outra definição parece mais adequada ao filme, que busca na animosidade irrefreável do protagonista o suspiro para sobreviver a um roteiro catastrófico.

Deixando o passado para trás, John Rambo (Sylvester Stallone) leva uma vida tranquila num rancho isolado. Lá, mora com uma antiga amiga de família, Maria (Adriana Barraza), e com Gabrielle (Yvette Monreal), neta desta e com quem mantém saudável relação paternal. Após a garota ser sequestrada, o ex-combatente recorre à linguagem que domina: a violência.

Dirigido por Adrian Grunberg, a produção pode ser dividida em duas partes, e a primeira é muito ruim. O roteiro mal escrito por Matthew Cirulnick e pelo próprio Stallone – a parir da história deste e de Dan Gordon – tenta criar um arco dramático emotivo, que humanize o protagonista e o coloque em conflito com sua essência violenta, mas não passa de uma caricatura.

A construção de personagens é muito limitada. Se, por um lado, acerta ao deixar o veterano de guerra mais à vontade num conjunto de túneis, refletindo sua sensação de deslocamento na sociedade, por outro, erra ao dizer literalmente que ele é perturbado e de natureza ruim. Não faz sentido algum lembrar uma pessoa o quão traumatizada ela é, principalmente se for a figura central de uma franquia em seu desfecho.

O pior é que não há relato traumático que se sustente por si quando a obra mostra total calmaria e ignora as dores internas do protagonista. Ouvi-lo DIZER que luta diariamente para domar sua violência não tem o mesmo impacto de VÊ-LO cuidar de cavalos, cavalgar ao entardecer e ter uma família que o respeita. Ou se cria cenas que mostrem seu psicológico quebrado ou apenas se aposta no background da série.

Gabrielle é outra vítima da exposição narrativa. A todo momento alguém precisa dizer o quanto ela é inteligente e de bom coração, mas o filme nos priva de ver isso. Uma cena particularmente constrangedora é a do diálogo dentro de um carro onde é dito, fora de contexto, que a garota ainda criança havia vencido cinco provas num único dia de competição escolar.

À exceção do ex-combatente, que ao menos apresenta uma tentativa de arco dramático, todas as personagens são mal desenvolvidas e unidimensionais: Gabirelle é a garota inocente; Maria faz café e contextualiza através de diálogos expositivos; Carmen Delgado (Paz Vega) tem seu propósito inicial ignorado e se torna um preenchimento para lacunas do roteiro; e os irmãos Victor e Hugo Martinez (Óscar Jaenada e Sergio Peris-Mencheta), são apenas os vilões cruéis.

A obra é completamente rasa na concepção dos vilões. Victor é agressivo e trata sua “mercadoria” com profundo ódio. Já Hugo é o “cérebro” do esquema, mas isso é mostrado apenas numa cena de negociação – que acaba antes das negociações começarem – e de alguns momentos onde sua autoridade se impõe às vontades do irmão.

Não existe qualquer tentativa de transformar os dois em figuras realmente ameaçadoras, o que reduz a dupla a um par caricato, incapaz de despertar algo em mim que não seja indiferença. Isso reflete bem o maniqueísmo rasteiro – e até preocupante – que coloca bem e mal claramente definidos e os situa geograficamente: Estados Unidos e México.

Considerando o atual momento político dos EUA, onde o presidente adota discurso tão xenófobo, soa no mínimo imprudente considerar logo os mexicanos como os homens maus da história. O esquema dos irmãos Martinez poderia, facilmente, ser orquestrado por representantes de qualquer lugar do mundo, principalmente do próprio território comandado por Trump.

Não que o roteiro precisasse ser mais político e, por exemplo, colocasse Gabrielle sob o ódio de organizações locais que repliquem, em ações, o discurso imperativo de Trump, não existe essa obrigação – mesmo que o primeiro filme da série, lá em 1982, se colocasse como crítica ao próprio país –, apenas lamento a escolha equivocada e de mal gosto. É uma prova de que Rambo - Até o Fim buscou até mesmo os pontos fracos do cinema dos anos 1980, época em que era comum ver nos cinemas vilões que representassem os inimigos políticos dos EUA.

Se a primeira parte tropeça na pretensão de ser algo que não consegue sustentar, a segunda acerta ao se assumir como um “filme de Rambo”, com um brucutu musculoso que resolve tudo na porrada. E funciona! Embora não faça jus ao título original (First Blood), a tradução brasileira para o capítulo inicial da franquia encontra em Programado Para Matar a síntese para a essência do personagem central, um homem cuja animosidade de combate o classifica como uma máquina mortal.

Motivado pelo incontrolável desejo de vingança, ele usa todo seu repertório para atacar os inimigos e, principalmente, atraí-los a um ambiente em que seja capaz de controlar. A produção aposta numa agressividade gráfica, com muita morte explícita. Mostrando desde uma clavícula exposta por um polegar até membros decepados com brutalidade, essa segunda metade do filme oferece justamente o que se espera.

Alguns momentos incomodam, mas criticar essa característica é tão sem sentido quanto reclamar de um musical que tenha “música demais”. É justamente quando abraça o visceral que a obra respira um pouco mais, ganhando bem-vindos contornos de terror.

A montagem ágil no ato final auxilia tanto no ritmo, que parece correr atrás do prejuízo, quanto na construção icônica do ex-combatente, que surge onipresente enquanto persegue os inimigos. Os efeitos práticos são muito bem executados e oferecem credibilidade ao horror visto em cena. Já a computação gráfica peca por ser facilmente reconhecida, seja utilizada em grande ou pequena escala. Até a tela verde (Chroma Key) é questionável.

É preciso destacar também a energia de Stallone que, aos 73 anos de idade, esbanja um físico adequado ao papel e protagoniza uma produção de ação. É verdade que as plásticas interferem um tanto em suas expressões, mas não podemos dizer que ele fosse um ator muito versátil nesse quesito.

Como sugere seu título original, Rambo - Até o Fim vem com a proposta de finalizar a franquia, de ser o derramamento final de sangue. Acerta aonde deveria, mas errar aonde não poderia interfere diretamente na experiência que já nasce datada. Um eco de 1980 que até tem coisas legais para os saudosistas do gênero, mas que mantém a limitada visão de mundo do passado.

Nota 4/10