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09/08/2019 12:55

Olhos Que Condenam: a dor que nos põe no lugar do outro

Fotos: Netflix

Olhos Que Condenam: a dor que nos põe no lugar do outro

Por João Victor Wanderley

“Bandido bom é bandido morto.”. A máxima popular que ganhou ecos no Brasil dos últimos anos é um pensamento perigosamente superficial. Numa realidade onde a verdade nem sempre é clara, como podemos exigir tanto quando a própria justiça sucumbe à imperícia e, muitas vezes, à má fé?

São questionamentos assim, além de uma dor revoltante, que Olhos Que Condenam (When They See Us, 2019) provoca no espectador. Em 1989, quatro adolescentes afro-americanos e um latino-americano foram injustamente condenados pelo estupro de uma mulher branca.

Adaptando uma história real, a roteirista e diretora Ava DuVernay deixa evidente seu viés sócio-político já no primeiro episódio, ao mostrar um grupo de policiais – todos brancos – construindo uma versão distorcida dos fatos. Mesmo abordando garotos com 14, 15 e 16 anos, a polícia não se priva de gritar, violentar e manipular os suspeitos para que corroborarem com sua narrativa.

No julgamento, a promotoria segue a estratégia ao apresentar provas forjadas a um júri completamente branco, incapaz de reagir às diversas incoerências e contradições apontadas pela defesa. E quando nos chocamos por todos acabarem punidos, sem qualquer prova concreta, o baque se torna maior ao lembrarmos como a série reforça que a intolerância do ocorrido em 89 encontra eco 30 anos depois.

Em determinada cena, um famoso empresário – em imagens reais da época – clama por pena de morte para os jovens. Alguém alega que os 15 minutos de fama desse homem logo acabarão, mas o empresário em questão é Donald Trump, atual presidente dos EUA. Uma demonstração eficiente da perpetuação de um pensamento limitado e retrógrado.

Dividida em quatro partes, a produção também contempla as difíceis investidas de ressocialização da maioria dos protagonistas quando adultos. Antron McCray (Jovan Adepo), Yusef Salaam (Chris Chalk), Kevin Richardson (Justin Cunningham) e Raymond Santana Jr. (Freddy Miyares) tentam estabelecer uma rotina sob o olhar de familiares questionadores e da sociedade temerosa.

(Dos Cinco do Central Park, apenas Korey encarou uma prisão para adultos / Imagem: Netflix)

Os quatro sofrem para voltar a estudar, manter um relacionamento amoroso e, principalmente, conseguir um emprego. A desconfiança de todos e as palavras ásperas que ouvem nos mostram a dificuldade para um ex-detento reconstruir a vida honestamente.

Entretanto, mesmo cobrindo bem as passagens mais importantes da trama, Olhos Que Condenam apresenta alguns desequilíbrios narrativos. É obvio que centrar nos fatos é essencial e a série faz isso de forma satisfatória, mas peca ao criar certo distanciamento na construção de suas personagens principais.

Falta entrar nas personalidades dos cinco, pouco sabemos sobre quem eles realmente são. Tudo é relatado como um documentário que alcança todos os pontos da história, exceto a pessoalidade de seus protagonistas. Também falta clareza sobre o porquê desses garotos específicos, em meio a tantos outros, terem sido apontados pela polícia. A escolha se dá de forma arbitrária ou devida a alguma facilidade de manipulação?

O tempo dos mais jovens no reformatório é um tanto atropelado, pouco desenvolvido. Além disso, a Parte Três perde fôlego por ser repetitiva. A ideia é transmitida com clareza, mas desgastada por ser vista e revista num mesmo capítulo.

Outra discrepância está na construção de Korey (Jharrel Jerome) em relação aos demais. Até a Parte Quatro, pouquíssima informação é oferecida. Então, com um episódio totalmente dedicado a ele, a personagem passa a ser, de longe, a melhor composição do roteiro.

Compreendemos seus medos, desejos e motivações. Entramos em sua mente, descobrimos mais sobre seu passado e a relação familiar. Um episódio completo narrativamente, além de um prato cheio na parte dramática, nos fazendo sofrer juntos dentro de uma cela.

(A produção se permite algumas liberdades artísticas, sejam conceituais ou estéticas / Imagens: Netflix)

A bem conduzida direção de Ava DuVernay explora com talento as reações dos espectadores. Ela brinca com nossos sentimentos diversas vezes, nos levando do ódio às lagrimas sem esquecer de dar algumas recompensas emocionais no caminho.

Ela se permite algumas escolhas artísticas que refletem o estado mental de Korey, como suas interações com as alucinações que tem na prisão. Essa liberdade narrativa nos mostra mais sobre o rapaz e funciona como um motivador para ele, permitindo-o conforto ao “mudar” alguns acontecimentos de sua vida mentalmente.

A montagem tem papel fundamental ao resgatar os áudios da noite em que os protagonistas foram presos, representando o pesar que martela repetidamente em suas cabeças. Além disso, ao cobrir ação e reação, provoca grande tensão como no enervante veredito.

Ao criar momentos de impacto dramático, DuVernay usa bem os enquadramentos quase sempre. As cenas do interrogatório são incômodas pela proximidade em cada bofetão, cada grito. Quando os garotos começam a contar suas versões, são filmados ao centro da imagem. À medida em que vão sendo manipulados, passam a ocupar os cantos da tela, representando a falta de importância que têm para a polícia.

Seu deslize está na utilização exagerada do Contra-Polgée – enquadramento que filma de baixo para cima. Normalmente destinada a demonstrar uma superioridade e imponência de alguém, a técnica é aplicada diversas vezes durante o julgamento, chegando até a surgir em momentos inadequados.

(Jharrel Jerome entrega a atuação mais tocante de Olhos Que Condenam / Imagens: Netflix)

Único ator a interpretar as fases adolescente e adulta de uma mesma personagem, Jharrel Jerome brilha na transição precisa entre o rapaz assustado, incapaz de compreender o que está vivendo, e o homem determinado a lutar pela honra. Os olhos de Jerome são extremamente importantes no trabalho, refletindo bem cada fase vivida.

Porém, a série provoca estranhamento ao manter o ator e mudar os intérpretes dos demais na fase adulta. Os esforços para transformar Jerome numa figura mais velha entrega bons resultados e é válido até certo ponto. Quando vemos os cinco juntos, fica a sensação de que todos envelheceram, menos Korey.

O quinteto que interpreta os protagonistas mais jovens é excelente – inclusive eu lamento não ter visto mais cenas deles. Dentre os atores, outro que merece ser destacado é Asante Blackk. Como Kevin, ele brilha no capítulo inicial.

No ótimo elenco de apoio, os destaques são Niecy Nash como Delores Wise e Aunjanue Ellis como Sharon Salaam – respectivamente as mães de Korey e Yusef –, ambas demonstram força descomunal em cena; Felicity Huffman, implacável como a cínica e odiosa Linda Fairstein; e Vera Farmiga, que transmite complexidade como Elizabeth Lederer – a promotora demonstra não estar convencida da culpa dos garotos, mas sustenta a narrativa no tribunal, nos dando asco de sua figura.

Olhos Que Condenam é aquele tipo de soco no estômago que precisamos levar de vez em quando, para compreendermos melhor o lugar do outro antes de fazermos julgamentos vazios. Demonstra que a justiça ser cega não significa exatamente imparcialidade, mas que, por vezes, se recusar a enxergar a verdade, empalidecendo vergonhosamente diante de sua função primordial.

Nota 9/10