Plano Detalhe

19/07/2019 19:48

O Rei Leão (2019): “Eu vejo o futuro repetir o passado”

Fotos: Divulgação

O Rei Leão (2019): “Eu vejo o futuro repetir o passado”

Por João Victor Wanderley

Escrita por Cazuza e lançada em 1988, O Tempo Não Para traz a emblemática frase citada no título desse texto. Pode-se interpretar que “Eu vejo o futuro repetir o passado” refere-se à sociedade brasileira e à interrupção de sua evolução social, não faz sentido parecer moderno e propagar conceitos e costumes ultrapassados.

Obviamente não há relação entre a obra do poeta e o novo lançamento da Disney, mas me permito essa associação uma vez que a referida frase ecoou em minha cabeça após o término da sessão de O Rei Leão (The Lion King, 2019). Não que eu ache a mensagem ultrapassada, mas faltou um frescor que justificasse a existência do remake.

Após ser apresentado na Pedra do Reino como o futuro sucessor de seu pai, o rei Mufasa, Simba precisa aprender as responsabilidades reais, lidar com o amadurecimento e com seu ambicioso tio Scar, que almeja o trono.

Desde que começou a adaptar suas animações clássicas com atores reais, a Disney tem adotado mais sobriedade, maior proximidade com nossa realidade, e o diretor Jon Favreau transmite isso com sucesso aqui. Apesar de ainda ser uma animação, o nível de realismo da computação gráfica nos permite compreender como seria O Rei Leão caso filmado com bichos de verdade.

Logo, o grande mérito é o visual arrebatador. Os efeitos beiram à perfeição, salvo alguns poucos momentos que denunciam a virtualidade – como, eventualmente, a textura borrachuda de Zazu ou o tom de cinza do Pumba, que destoa do colorido encantador de onde vive. Antílopes, elefantes, suricatos e os próprios leões são completamente convincentes.

Sob o olhar de Caleb Deschanel, a fotografia equilibra bem a utilização da luz, seja no nascer do sol maravilhoso, na cor viva do ambiente ou em passagens menores, como na curta cena onde Rafiki é iluminado por vagalumes.

(Imagem: Capturas de Tela / Montagem: João Victor Wanderley)

Outra escolha que reforça a postura mais realista adotada aqui é o afastamento da atmosfera espetaculosa da obra original. Os animais não trazem as expressões humanas, agora se portam como bichos. Isso afeta, por exemplo, os números musicais, que se tornam mais acanhados. A sequência em que Scar canta para as hienas ilustra a sobriedade do projeto, sendo executada com mais objetividade e lógica dentro do universo proposto.

Porém, nada disso justifica a existência desse remake. Alimentar franquias e reviver filmes já estabelecidos é o caminho mais rápido para os estúdios lucrarem, principalmente quando resgatam obras consolidadas – a nostalgia dos fãs sempre será um atrativo mercadológico. Refilmagens noutra época não deveriam se sustentar apenas no imaginário coletivo e oferecer outros olhares.

É necessário ter acréscimo à história, complementar o material referenciado, algo realizado por Aladdin (2019) em sua nova abordagem de Jasmine, por exemplo. É preciso também encontrar a própria identidade e sair da sombra do material original, funcionar por si só. Isso não acontece, já que a atual versão é exatamente igual à anterior. São os mesmos discursos, os mesmos acontecimentos, na mesma ordem e da mesma forma, trazendo de novo apenas a tecnológica e o tom mais sério.

Analisando essa realidade pretendida, destaca-se um distanciamento emocional em relação ao potencial já conhecido da trama. Embora o número musical de Scar funcione bem dentro da proposta, os demais parecem engessados pelos limites autoimpostos. A liberdade artística no filme de 1994 permitia números imponentes, coloridos, envolventes; agora, mesmo sendo correta a abordagem, perde força e impacto, os números são apáticos.

As músicas ainda carregam acordes de grandiosidade que destoam das sequências nada inspiradas de “dança”, como quando Simba canta sobre ser rei: música demais para quase nada de coreografia. Talvez até fosse o caso de evitar fazer um novo musical, mas não entrarei nesse mérito. Não cabe a mim dizer o que um filme deveria ou poderia ser.

(Cena da Debandada / Imagem: Captura de Tela)

A sobriedade interfere também na carga dramática. Se os protagonistas não se parecem com humanos, não reagem como tal. Isso não é um problema por si, mas afeta diretamente momentos marcantes como a icônica cena de Mufasa, que empalidece pelo comportamento animal ser mais distante do nosso. Uma coerência que põe a frieza da lógica acima do calor emocional.

Já a abertura ao som de Circle of Life e a debandada são prejudicadas por acontecerem com o máximo de fidelidade. Se antes marcaram pelo vigor e pela representatividade narrativa, hoje impressionam muito mais pela similaridade com o real.

Muitos fãs poderão ter uma experiência mais emotiva que a minha, o que – em palpite – atribuo à memória afetiva que boa parte do público traz para o novo filme. Isso me faz perceber como os maiores méritos desta versão vêm, na verdade, da primeira. Sejam as cenas que reaproveitam a magistral trilha de Hans Zimmer, a ideia de ciclo, a relação paternal forte ou a figura onipresente de Mufasa, as melhores coisas que estão aqui vieram diretamente de 1994, “um museu de grandes novidades”.

A construção das personagens é boa. Se o primeiro Simba sempre me pareceu irritante, sem saber separar pretensão de egoísmo, o segundo me é bem mais palatável. Sai a arrogância e fica o deslumbre de um príncipe afobado. Vi com a dublagem original e gosto bastante dos trabalhos de JD McCrary e Donald Glover, que vivem, respectivamente, o protagonista em suas fases infantil e adulta.

Mufasa repete a áurea imponente e edificante do rei justo, reforçada pelo retorno de James Earl Jones na dublagem e pelos enquadramentos onde trazem o leão quase sempre bem iluminado, conferindo um brilho enobrecedor. Scar é uma figura menos cínica e com o desrespeito mais evidente. A voz de Chiwetel Ejiofor parece não encaixar com a figura projetada na tela, mesmo com o ator desempenhando uma boa atuação.

Mas os melhores trabalhos vocais ficam a cargo de Billy Eichner e Seth Rogen como os hilários Timão e Pumba. A dupla tem ótimo timing cômico, mandando piadas com naturalidade, além de apresentarem boa química juntos. Disparados o ponto mais eficiente do projeto. Destaco ainda Alfre Woodard como Sarabi – deveria ter mais tempo de tela – e Beyoncé como Nala, que empresta uma voz doce e aconchegante.

O Rei Leão entretém, evoca a nostalgia e encanta visualmente, mas é um eco de sua própria referência. Enquanto a obra inspiradora segue imortal, a nova é efêmera, sobrevivendo até pouco depois dos créditos finais. Se coloca como escapismo passageiro por se limitar a replicar algo sem trazer nada diferente, mas, paradoxalmente, se beneficia por ser fiel a um material excelente, capaz de nos manter minimamente interessados. Se Cazuza cantou que o Tempo Não Para, a Disney mostrou como é possível parar no tempo.

Nota 7/10