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07/11/2019 11:36

O Iluminado: clássico resiste ao tempo

Fotos: Warner Bros.

O Iluminado: clássico resiste ao tempo

Por João Victor Wanderley

Doutor Sono estreia hoje em todo Brasil. Baseado na obra literária homônima de Stephen King, lançada em 2013, é continuação de O Iluminado (The Shining, 1980), feita pelo icônico Stanley Kubrick ao adaptar outro livro de King. Assim, é mais do que oportuno revisitar o clássico cinematográfico – ou, no meu caso, quitar a vergonhosa dívida que tinha comigo mesmo por nunca ter assistido ao filme de Kubrick.

Jack Torrance (Jack Nicholson) aceita ser responsável pelo Hotel Overloock durante o inverno, quando o estabelecimento fecha por cinco meses. Apenas acompanhado da esposa Wendy (Shelley Duvall) e do filho Danny (Danny Lloyd), Jack vê o trabalho como oportunidade para escrever seu tão desejado romance. Porém, a estadia se torna cada vez mais assustadora à medida que o inverno os isola.

O cinema de terror se popularizou muito com o passar dos anos ao abraçar os Jump Scares, técnica que consiste em assustar o espectador com elementos que surgem do nada ou são atiradas em direção à câmera. Embora as obras que se sustentem desse recurso não sejam vistas com bons olhos por parte da crítica especializada, não dá para negar o apreço que provoca no público.

Apesar de cumprirem suas propostas, os filmes que se apoiam exclusivamente na técnica limitam o gênero à sensações passageiras. Quando os revisitamos, o conhecimento prévio do que estar por vir interfere na experiência. Isso dificulta que produções como as da franquia Atividade Paranormal (2007), as derivadas da boneca Annabelle (2014) e a recente It - Capítulo 2 (2019), por exemplo, se tornem eficientes a longo prazo.

O que faz de O Iluminado ainda impactante hoje em dia é a opção por se agarrar ao atmosférico. Sem recorrer a sustos tolos, Kubrick trabalha o espectador por meio de um elemento muito mais marcante: a apreensão. E como ele faz isso? Através da construção e quebra de expectativa.

(Jack Nicholson como Jack Torrance, em seu declínio mental / Imagem: Warner Bros.)

Escrito pelo próprio cineasta, em parceria com Diane Johnson, o roteiro apresenta o contexto da trama já no início, quando Jack vai ao hotel para uma última entrevista. Lá, somos informados sobre como o estabelecimento fica isolado no inverno e sobre o surto que atingiu o responsável anterior.

Simultaneamente, na casa do protagonista, outros elementos são introduzidos: Danny demonstra uma “amizade imaginária” que lhe permite perturbadora capacidade premonitória; já Wendy, conversando com a médica que foi ver a criança, confessa que o marido tem um passado agressivo por causa de alcoolismo. Em poucos minutos, ficamos cientes de onde o filme quer chegar, nos restando aguardar o caminho a ser trilhado.

Logo no início de Lisbela e o Prisioneiro (2003), durante uma sessão de cinema, a personagem-título (Débora Falabella) diz: “A graça não é saber O QUE acontece. É saber COMO acontece e QUANDO acontece”. É óbvio que o conteúdo é sempre relevante e saber previamente pode prejudicar a experiência. Mas, em alguns casos, a jornada, de fato, é mais importante. O Iluminado é um desses.

A partir do momento em que sabemos exatamente aonde a trama pretende ir, ficamos apreensivos para ver como isso acontecerá, distorcendo a calmaria do que foi introduzido inicialmente. E a obra cria tensão e agonia ao prometer o que não se cumpre logo de cara.

Desde que a família fica sozinha e coisas estranhas acontecem, a gente se preparar para algo impactante. Aí o filme vai, vai, VAI... mas não chega! Kubrick é extremamente hábil no suspense, dilatando o que antecede o terror sem torna-lo maçante ou desinteressante. Ele constrói sua atmosfera sem pressa.

(A câmera que persegue Danny está sempre passos atrás, gerando expectativas / Imagem: Warner Bros.)

Aos poucos, vemos Jack perder a paciência e a sanidade; Danny vai tendo experiências desagradáveis à medida que o sobrenatural entra em contato e suas premonições se intensificam, mesmo que não compreendamos se são mensagens metafóricas do que está por vir ou se acontecerão daquela forma mostrada; a neve e a solidão do isolamento também pontuam essa evolução psicológica das personagens.

A tensão dilatada é acentuada através de som e da imagem. A ótima trilha sonora de Wendy Carlos e Rachel Elkind é deliciosamente incômoda, fantasmagórica, repleta de sussurros que se adaptam perfeitamente aos cenários. Cada passeio de Danny em seu triciclo é uma aflição à parte, isso porque a câmera o acompanha sempre alguns passos atrás. Cada corredor que surge e cada curva para um novo local são sucedidos por segundos preciosos de atraso até que a câmera chegue no garoto. E nesses segundos em que alimentamos a esperança de algo assustador, nada acontece. Até que...

Quando entramos de fato no clímax da trama, toda a expectativa quebrada vale a pena. Valorizamos verdadeiramente as situações de desespero. Cada grito, investida e interação com o sobrenatural ganha peso por não terem sido banalizados. E o sobrenatural é administrado com talento ao provocar dúvidas se o que estamos vendo é mesmo a verdade ou se trata de delírios das personagens.

A vastidão dos cenários é bem utilizada. A câmera flutuante, além de empregar ritmo com movimentos fluidos, valoriza a imponência do local ao se colocar, muitas vezes, mais próxima do chão e ao esbanjar planos abertos. A fotografia de John Alcott também consegue extrair claustrofobia de alguns ambientes mais apertados, como o quarto em que a família dorme e, principalmente, o banheiro da icônica cena do machado.

Em conjunto com a direção de arte de Leslie Tomkins, transforma o hotel em personagem cuja vida é traduzida nas cores muito bem definidas. Diversos aposentos trazem tonalidades de verde, laranja, azul e vermelho. O vermelho, aliás, está quase sempre presente nos figurinos de Danny e Wendy, como quem chama atenção para o perigo que eles irão correr.

(A direção e arte aposta em cores bem definidas para dar vida, e no vermelho para criar alerta / Imagens: Warner Bros.)

Porém, o ponto fraco da produção reside em duas atuações. Jack Nicholson é um monstro e entrega mais um trabalho firme e intenso. Embora exagere em alguns momentos, pesando a mão em certas reações, ele é impecável quando precisa realmente demonstrar descontrole. O mesmo não pode ser dito das fraquíssimas aparições de Danny Lloyd e Shelley Duvall.

Lloyd, em seu primeiro papel, demonstra ter decorado as falas, não passa convicção no que diz. Suas expressões de medo também não convencem. O recurso de mudar o tom de voz quando encarna o amigo imaginário é artificial e incômodo. Entretanto, dá pra relevar algumas coisas por se tratar de um papel difícil, sem falar que é a montagem de Ray Lovejoy que coloca o pequeno Danny nas situações mais assustadoras.

Reparem como ele jamais aparece no centro das cenas mais forte... Suas expressões são acrescentadas na montagem a partir da ideia de ação e reação: mostra o que deve assustar e corta para o garoto. Esse recurso supre a ausência do jovem ator nas passagens mais intensas, provavelmente colocado em outro ponto do set como medida de proteção, mas interfere diretamente em sua interpretação ao obriga-lo a reagir às coisas não vistas.

Já Duvall é um caso sem escapatória. A atriz passa uma imagem de fragilidade através de sua figura contida e muito magra, que atende bem à demanda da personagem. Mas quando precisa atuar, ela não se mostra preparada. A maneira como verbaliza seu texto não provoca reações, não convence quando é exigida em cenas mais fortes. Ao menos sua expressão de pavor e seus gritos funcionam.

O Iluminado sobreviveu muito bem aos anos. Sua maneira de quebrar expectativas e de entregar o esperado no momento exato nos prende à cadeira e provoca apreensão. Um terror muito mais eficiente que boa parte do que chega às telonas hoje. Vi o filme pela primeira vez recentemente e saí mexido, o que mostra a qualidade artística do projeto. Um bom terror é muito mais do que meros sustos...

Nota 8,5/10