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02/11/2019 05:00

O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio: franquia retorna às origens

Fotos: Fox Film

O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio: franquia retorna às origens

Por João Victor Wanderley

Pode-se dizer que James Cameron nasceu para Hollywood em 1984 com seu corajoso O Exterminador do Futuro. Até então responsável apenas pelo terrível Piranhas 2 - Assassinas Voadoras (1981), ele transformou uma mistura de Sci-fi, ação e Slasher, de baixíssimo orçamento, num fenômeno de bilheteria. A obra, que custou menos de 7 milhões de dólares, faturou mais de 78 milhões em tono do mundo.

O capítulo seguinte, O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final (1991) se firmou como o ápice da franquia em formação, mas também marcou o afastamento do cineasta das continuações. Coincidência ou não, as sequências foram bastante controversas... Agora em 2019, Cameron retorna – como produtor – para devolver a série ao caminho interrompido em 1991.

Em O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio (Terminator - Dark Fate, 2019), Grace (Mackenzie Davis) é uma humana tecnologicamente aprimorada que vem do futuro para impedir que um Rev-9 (Gabriel Luna), máquina de última geração também vinda do futuro, mate Daniella Ramos (Natalia Reyes). Para isso, ela contará com a ajuda da lendária Sarah Connor (Linda Hamilton).

A franquia iniciada em 1984 centrava na personagem de Sarah. O modelo T-800 (Arnold Schwarzenegger) havia sido enviado ao passado para eliminá-la antes dela se tornar mãe de John Connor, homem que lideraria a resistência contra as máquinas que dominariam o mundo no futuro. No filme seguinte, a intensão era matar John (Edward Furlong) ainda adolescente.

A partir daí, o que sucedeu foram tentativas de expandir o universo proposto, com capítulos preocupados em mostrar o crescimento da Skynet, a humanidade já dominada e até mesmo uma linha temporal alternativa, jogada para reiniciar a série cinematográfica sem apagar o que ocorreu até então. Só que tais tentativas de expansão não foram bem recebidas por público e crítica.

(Mackenzie Davis foi ótima adição à franquia / Imagem: Fox Film)

Particularmente, nunca achei a franquia mais do que puro entretenimento, talvez isso tenha adoçando minha experiência ao longo dos anos. Afinal, nunca achei nenhum filme descartável – me reservo o benefício da dúvida, já que faz muito tempo que os assisti e, hoje, poderia mudar de opinião.

De qualquer forma, Destino Sombrio se assume como continuação e reboot. A presença de Sarah Connor liga os dois episódios iniciais ao recente, ignorando o que há no meio. Isso joga o novo projeto de volta às origens, o que é positivo e negativo ao mesmo tempo.

Se, por um lado, estamos novamente no jogo de caça e caçador, onde uma mulher indefesa é o objeto de desejo de um assassino impiedoso, por outro, vemos a história já contada diversas vezes. A sensação de déjà vu é, paradoxalmente, reconfortante e incômoda. O que nos entrega ao já conhecido é, justamente, a falta de criatividade.

O roteiro de David S. Goyer, Justin Rhodes e Billy Ray faz de Rev-9 uma reciclagem do icônico T-1000 (Robert Patrick), o inesquecível exterminador de metal líquido de O Julgamento Final. O novo vilão é de um material diferente, mas que funciona com a mesma lógica. Além disso, se entrega a algumas facilitações narrativas ao resolver alguns impasses, como a explicação para as mensagens que chegam para Sarah ou a solução para resolver o obstáculo do ato final.

Mas o roteiro também traz acertos. O México é inserido sem a visão distorcida que Rambo - Até o Fim (2019) traz, por exemplo. Aqui, há uma inversão positiva de valores, com uma pessoa realmente importante para o futuro da humanidade não sendo dos Estados Unidos, sendo de um país comumente tratado em Hollywood como um reduto de tráfico e criminalidade.

(Gabriel Luna é Rev-9, um exterminador bem similar ao T-1000 / Imagem: Fox Film)

O segundo é a consciência de um exemplar de gênero e jamais tentar ser o que não é. Não existe intensão de ser profundo ou reflexivo, tudo o que é apresentado em cena serve ao propósito de entreter, gerar ação impactante e de referenciar os próprios ícones. Ao abraçar a simplicidade narrativa, não dá brechas para esperar da obra mais do que ela tem a oferecer, o que se torna uma boa escolha.

Com um enredo talhado para a ação, cabe aos atores se adequarem à proposta. Mackenzie Davis apresenta vigor físico impressionante que a permite estar, sempre que possível, nas coreografias de luta. Ela entrega ímpeto e energia completamente adequados à personagem, além de ser convincente em seu lado mais humano.

Gabriel Luna também corresponde bem na fisicalidade e incorpora algo entre o sisudo dos vilões anteriores e o adaptável da tecnologia moderna, oferecendo mais expressões faciais e carisma. Natalia Reyes tem uma transição pouco convincente entre a mulher que não compreende o seu papel para a humanidade e a que aceita sua jornada, mas isso não é culpa dela. Está muito mais atrelado ao roteiro. No que pode fazer, a atriz demonstra carisma.

Mas o ponto alto fica por conta de Linda Hamilton e Arnold Schwarzenegger. Ela retorna ao papel 28 anos após sua última aparição como Sarah Conor e parece que nunca saiu dela. Completamente à vontade e vigorosa, a atriz ainda convence como uma mulher “porradeira” e dá credibilidade ao que é visto. Ainda mais amargurada, se dedica totalmente a aniquilar todo e qualquer exterminador que chegue por perto.

 Já ele aposta no carisma que criou como o T-800 e brinca com isso. Há mais espaço para humor, que funciona, além da possibilidade de apresentar alguma camada nova em sua personalidade. É preciso citar a boa química entre ambos, ver Hamilton e Schwarzenegger juntos novamente é muito legal.

(Arnold Schwarzenegger e Linda Hamilton dividem a tela novamente após 28 anos / Imagem: Fox Film)

A direção do longa ficou por conta de Tim Miller, responsável por Deadpool (2016). Miller é competente ao criar sequências dinâmicas e repletas de energia. A sequência que se inicia na fábrica e se estende na estrada é forte e impressionante. Porém, algumas delas se estendem demais, passando do limite entre longa e cansativa. O maior exemplo disso é a do avião, que contempla disputa entre aeronaves, queda livre e uma represa.

A montagem oscila entre imprimir um ritmo dinâmico e ser convulsiva ao ponto de interferir na compreensão. São poucos os momentos em que a cena se torna difícil de entender quem faz o quê e para onde se movimenta, mas estão lá. O trabalho poderia ser um pouco menos agitado. Só um pouco.

O som da produção é muito rico, preocupado com diversos elementos. Porém, as constantes cenas de lutas, explosões, tiros e batidas, com o passar do tempo, transformam o rico trabalho de mixagem e dição de som em algo barulhento. Isso pode afetar a experiência. Mesmo assim, se trata de uma ótima composição sonora.

Por fim, os efeitos visuais são capazes de momentos impressionantes – quando recriam as versões de Linda Hamilton e Edward Furlong de 1991 ou a liquidez do Rev-9 – e outros bem artificiais – quando substitui os atores por suas versões digitais.

O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio aposta no lugar comum, no que já deu certo no passado. Embora seja pouco inspirado, resgata o que transformou a franquia em algo marcante. Atualiza o visual, cria espaço para explorar novas ideias e ainda homenageia o que é tão especial para os fãs. Pode ser uma versão inferior dos melhores momentos da cinesérie, mas é melhor do que boa parte do que já foi entregue.

Nota 7/10


O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio está sendo exibido pela Rede Cinépolis, com sessões tanto no Cinépolis Natal Shopping quanto no Cinépolis Partage Norte Shopping Natal. Confira os horários das sessões e compre seu ingresso.