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25/10/2019 05:00

O Cinema Brasileiro é mesmo ruim?

O Cinema Brasileiro é mesmo ruim?

Por João Victor Wanderley

Recentemente me deparei com um texto de Sérgio Trindade que me despertou vontade de debater, de trocar uma ideia. O texto, intitulado O Cinema Brasileiro é Ruim, trazia reflexões sobre a visão do autor em relação à pratica cinematográfica realizada aqui no país. Toda leitura que faça pensar é valorosa, concorde o leitor com ela ou não.

Desde então, fiquei com a reflexão na cabeça e senti a necessidade escrever. Discordo categoricamente do que li, mas não venho aqui rebater apenas por rebater, não se trata de medir certo ou errado. Apenas acredito que discutir sobre o tema seja realmente importante. Por isso, respeitosamente, ofereço uma ótica diferente.

“Sou crítico dos filmes nacionais porque os assisto e os acho ruins”, diz Trindade num trecho. O que me chama atenção nessa frase é justamente a subjetividade do gostar. É comum que a gente associe qualidade de um filme à nossa apreciação, à nossa experiência. Logo, se gostamos é porque é bom. Eu não concordo com esse pensamento.

Gostar é algo muito pessoal, está ligado à nossa capacidade empática com a obra, a maneira como ela nos cativa. Já “ser bom” está diretamente ligado aos seus atributos técnicos, aos recursos escolhidos para construir a narrativa. Sendo mais claro: O bom filme é aquele feito com domínio técnico, utilização inteligente de recursos (atuação, direção, roteiro, fotografia, etc...) para contar histórias, mas uma obra que atende bem esses quesitos não será, necessariamente, capaz de nos cativar.

(2011 - Uma Odisseia no Expaço X O Noviço Rebelde. Nem sempre gostamos do que é bom)

Stanley Kubrick fez de 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968) uma das obras mais aclamadas de Hollywood. Grande direção, belos efeitos especiais, um tema intrigante e provocador. Esse é um exemplo de filme bom que eu não gosto. Acho arrastado e cansativo – embora sua lentidão tenha lógica –, não consigo me conectar com ele.

Por outro lado, e para citar um brasileiro, é provável que eu tenha mais empatia e carinho por O Noviço Rebelde (1997), protagonizado por Renato Aragão. Mesmo se tratando de uma obra extremamente problemática, com atuações exageradas, roteiro bobo e direção apática, traz alguma coisa que me faz sorrir, e isso desperta empatia em mim.

Quando presumimos que um filme brasileiro é ruim só por ser daqui, estamos sendo levados por vozes de outras experiências, que consideraram bem mais o “gostar”. Não que exista algo errado em não gostar de um filme nosso. Cada um sabe exatamente o que lhe agrada e o que não. Mas cada produção é diferente, não se pode dizer que todos são ruins só porque falam a mesma língua.

Isso me leva à próxima citação de Trindade: “Os nossos cineastas e os nossos intelectuais dizem que o público brasileiro boicota os filmes produzidos aqui.”. Não me atrevo a dizer que há um boicote. Boicote é algo consciente. Não imagino um movimento contrário ao cinema nacional, mas não nego que haja resistência.

Replicar que produções nacionais são ruins ajuda nessa resistência. A produção nacional sempre encontrou dificuldades, o que rendeu trabalhos de baixíssimo orçamento – o gênero da pornochanchada, com forte teor erótico, acabou contribuindo também com essa imagem, já que o país sempre adorou conservadorismo... Quando se tem em mente que algo não é bom, qualquer coisa boa que saia de lá será ignorada.

(Lisbela e o Prisioneiro é dos filmes mais lindos que eu já vi)

De fato, algumas obras são ruins: Bezerra de Menezes - O Diário de Um Espírito (2008), S.O.S.: Mulheres ao Mar (2014) e Até que a Sorte nos Separe (2012) – e todos encontram uma parcela respeitável de fãs. Mas muita coisa boa também aparece: Tropa de Elite (2007), Lisbela e o Prisioneiro (2003) e Bacurau (2019) – e, obviamente, esses também têm seus detratores.

Outro ponto a ser levantado é o valor cobrado pelos estabelecimentos. Hoje, não se assiste um filme por menos de R$ 22,00, a não ser que o cliente participe de alguma promoção ou faça parte de algum grupo beneficiado pela meia entrada. Portanto, quando se vai ao cinema disposto a pagar tão caro, o espectador prefere investir em algo de mais fácil empatia e que lhe dê um retorno mais claro – como os que usam melhor as dimensões da tela gigante ou o som potente. Pagar caro para ver um drama apoiado em diálogos pode não ser atraente para muitos.

Mas, que fique registrado, já me deparei com salas cheias em sessões de obras brasileiras em eventos como Projeta Brasil, que dedica um dia inteiro ao cinema nacional a um preço ótimo – se não me engano, o último preço registrado foi de R$ 4,00. Tive a oportunidade de ver, por exemplo, Muito Gelo e Dois Dedos D’Água (2006), Romance (2008) e Saneamento Básico - O Filme (2007), todos com as salas lotadas. Diferente do ótimo 2 Coelhos (2012), que devia ter umas 15 pessoas quando vi numa sessão normal.

Por fim, não dá para negar a presença pesada de Hollywood na ocupação das salas de projeção. Eu comparo esse fenômeno com o futebol: uma criança potiguar que cresce vendo o Corinthians pela TV, não vê transmissão dos jogos de ABC e América e nem vai ao estádio, dificilmente não se tornará torcedor do time paulista. Claro que isso não é uma regra, mas é a tendência.

Com a sétima arte é igual. Trindade fala: “Há quem aponte falta de recursos técnicos e a concorrência nociva do cinema norte-americano, outra rematada asneira.”. Vários filmes brasileiros não chegam às telonas. Outros até chegam, mas é atípico que permaneçam em cartaz por mais de uma ou duas semanas. Enquanto isso, franquias como Velozes & Furiosos e o Universo Cinematográfico Marvel, que atendem as demandas financeiras do comércio, ocupam diversas salas por diversas semanas.

(Vingadores - Ultimato arrecadou mais de 2,7 bilhões de dólares no mundo)

Vingadores – Ultimato (2019) chegou a ser exibido em 80% das salas brasileiras. Isso é um número monstruoso. Aqui em Natal, entre as duas primeiras semanas de exibição, uma rede reservou todas as sessões em um dia de feriado nacional, TODAS! Eu entendo a dinâmica capitalista e sei que a empresa lucra em eventos assim – e até a permite apostar em filme de menos apelo comercial, como faz toda semana –, mas é muito difícil algo semelhante acontecer com nossas produções .

Ainda em Natal, Bacurau e Divaldo - O Mensageiro da Paz (2019) conseguiram a proeza de se sustentarem em cartaz por muitas semanas, mas são pontos fora da curva. O primeiro já chegou badalado pela vitória em Cannes, respeitado festival internacional; o segundo tem um público cativo muito forte, trata de uma personalidade religiosa importante. Tirando eles, não me recordo de outro exemplar nacional que tenha se saído tão bem e que não pertença a essas séries de comédia lucrativas como De Pernas Para o Ar e Minha Mãe é Uma Peça.

Sem falar que a demanda de Hollywood interfere diretamente na nossa maneira de ver cinema. Assistir a tantos filmes produzidos a ritmo industrial e, muitas vezes, superficiais afeta nosso discernimento. Fator que justifica outra frase de Trindade: “O maior inimigo do cinema brasileiro é querer ser brasileiro demais, é querer capturar, como direi?, o Brasil como ele é (seja lá o que isso signifique) e mostrá-lo pra nós mesmos e para o mundo.”.

Cinema é diversão, lazer e escapismo. Mas também é arte, é voz, identificação e protesto. Achar que nossos filmes são “brasileiros demais” é sinal de uma identidade visual perdida. Não se faz cinema apenas nos EUA. França, Espanha, Japão e Argentina, por exemplo, têm características próprias muito fortes e as preservam. Não podemos abrir mão das nossas.