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23/08/2019 05:00

Mindhunter – 2ª Temporada: excelente fuga do óbvio

Fotos: Netflix

Mindhunter – 2ª Temporada: excelente fuga do óbvio

Texto: João Victor Wanderley

Dois anos após a estreia, Mindhunter (2017 - 2019) retorna se mantendo fiel à proposta inicial. Inspirada no livro escrito John Douglas e Mark Olshaker – a partir de suas experiências reais –, a série original Netflix foge das obviedades das histórias de Serial Killer ao dar luz ao processo científico que passou a guiar o FBI em investigações.

A segunda temporada segue a Unidade de Ciência Comportamental (UCC), que tenta traçar perfis psicológicos de criminosos condenados para encontrar similaridades em seus Modi Operandi. Depois da denúncia de manipular a pesquisa, Holden Ford (Jonathan Groff) sofre um inquérito. Além disso, precisa lidar com a Síndrome do Pânico resultante do trabalho estressante.

Em Quântico, Bill Tench (Holt McCallany) e Wendy Carr (Anna Torv) são apresentados a Ted Gunn (Michael Cerveris), novo diretor do FBI com a aposentadoria de Shepard (Cotter Smith). Gunn demonstra total apoio à UCC e decide investir o que for possível, mas exige que os resultados apareçam com brevidade.

O que faz de Mindhunter um olhar diferenciado sobre Assassinos Seriais não é sua temática, mas a abordagem. Evitando recorrer à violência gráfica, raramente mostra corpos das vítimas, isso porquê o foco está em estabelecer leitura eficiente das cenas de crime. O que não significa ausência de violência...

Os diálogos descrevem as mortes com tanta precisão que sentimos o peso dos atos e quase visualizamos tudo mentalmente. Normalmente a utilização de diálogos expositivos é demonstração de pobreza do roteiro. Em audiovisual, as informações importantes devem ser mostradas e não ditas. Porém, essa exposição verborrágica aqui é necessária já que os crimes servem à narrativa como objetos de estudo.

O trabalho da UCC se faz relevante quando, na década de 1970, Serial Killers começam a atuar com mais frequência. Essa mudança na sociedade é sintetizada numa conversa entre Bill e sua esposa Nancy (Stacey Roca), logo após um assassinato no bairro do casal:

- Isso não costuma acontecer por aqui.

- Acontece em todo lugar, Nancy.

(Unidade de Ciência Comportamental do FBI em reunião / Imagem: Netflix)

O estudo desenvolvido é posto em prática no caso das crianças negras, entre 11 e 14 anos, que são sequestradas e assassinadas em Atlanta entre 1979 e 1981. Holden e Bill tentam aplicar o conhecimento científico adquirido, mas, por se tratar de algo novo, encontram resistência da polícia local e, principalmente, do Governo, que teme piorar a própria imagem.

Os roteiros acertam ao investirem na dualidade. Um paralelo eficiente é traçado entre a evolução das técnicas investigativas e o aperfeiçoamento dos procedimentos de um psicopata. Enquanto acompanhamos a metodologia do trio protagonista crescer gradativamente, a produção pontua a rotina de um criminoso: o vemos lidar com seus conflitos psicológicos, escolher suas vítimas cautelosamente e passar desapercebido em locais públicos ao planejar seus ataques.

A ideia de inserir a ameaça no cotidiano atinge ainda a família Tench após uma morte acontecer na comunidade em que vivem. Através do comportamento ambíguo de uma personagem específica, vemos que indícios de criminalidade também surgem em lares bem estruturados. Todo esse arco é primordial para o desenvolvimento da trama e, principalmente, de Bill.

Com mais espaço em tela, precisa cumprir suas obrigações profissionais, dar atenção ao novo diretor do FBI – que adora bajular superiores – e lidar com uma crise familiar. Sobre esse último ponto, é curioso ver como interfere diretamente na maneira como o agente passa a se comportar.

Durante as reuniões, se mostra maleável com jovens que seguem algum criminoso e rigoroso com os manipuladores. A cena em que conversam Charles Manson (Damon Herriman em grande atuação) ilustra isso com perfeição. Reparem ainda a maneira como Bill passa a encarar uma cruz... A atuação de Holt McCallany é incrível ao compor cansaço e impaciência e parecer ligeiramente encurvado devido ao peso que aparenta carregar nos ombros.

As demais personagens também acrescentam camadas à narrativa. Holden tem um olhar clínico para ler as pessoas com quem interage, seu talento é primordial para o trabalho executado e é respeitado por Gunn. Já no primeiro episódio o vemos em ação ao notar que existe algo errado com Shepard durante sua despedida.

(O jogo de cores ilustra bem o impasse de Bill, dividido entre a profissão e a crise familiar / Imagem: Netflix)

Por outro lado, é arrogante e não reage bem ao não ter suas ideias acatadas. Basta ver, por exemplo, seu descaso ao entrevistar quem julga não ser necessário ou seu desdém quando a polícia interroga alguém que não se enquadra no perfil traçado por ele.

Compondo ambiguidade, Jonathan Groff mostra talento ao transitar entre o humano e o arrogante. É difícil estabelecer ao certo se o que motiva Holden é a ânsia de comprovar sua capacidade intelectual ou o desejo de evitar outras mortes. De qualquer forma, apenas uma atuação competente é capaz de transitar entre esses dois pontos e ainda ser empática.

Já Wendy ganha destaque com sua vida pessoal. Ao iniciar um relacionamento com Kay (Lauren Glazier), sai da zona de conforto criada para proteger sua carreira. Kay é segura quanto sua sexualidade e não permite se privar de seus sentimentos por causa da sociedade preconceituosa.

Tais características provocam reflexão na Doutora, que questiona conceitos auto impostos. No trabalho, segue as entrevistas ao lado de Gregg Smith (Joe Tuttle), que a acompanha na ausência dos outros dois protagonistas e se torna mais presente.

Com episódios dirigidos por David Fincher, Andrew Dominik e Carl Franklin, Mindhunter aposta na linguagem visual estabelecida pelo primeiro e que se aproxima de sua filmografia. Uma atmosfera sombria e apreensiva, fortalecida pela trilha ruidosa que incomoda na medida certa, pela estética “suja” – através da aparência de película desgastada – e pela ambientação de alguns cenários descuidados.

O amarelo está presente na direção de arte, que atrela a cor um sentido de alerta. Reparem, como Bill aparece diversas vezes rodeado de amarelo, seja na poltrona do avião, em sua camisa ou em sua casa, onde a série faz questão de evidenciar...

(Imagens: Netflix)

Muito apoiada na força de seu texto, a produção investe na montagem para entregar um ritmo atrativo. Os inúmeros diálogos, ao invés de soarem cansativos, trazem maior dinamismo, o que é lógico já que os principais acontecimentos estão no campo da dialética. Por isso, os cortes secos durantes as entrevistas e reuniões criam urgência ou tensão, de acordo com que pede cada cena. A propriedade do elenco sobre o texto também auxilia na construção do ritmo.

Outra característica que merece ser destacada é a quebra de paradigmas comumente atrelados às “obras de Serial Killer”. Clichês como a câmera se movendo lentamente antes de alguma revelação ou a porta que não deveria estar aberta tão tarde da noite geram no espectador uma expectativa que não se concretiza.

A utilização dos clichês cria tensão, que é quebrada em seguida pela fuga do óbvio. Utilização efetiva do suspense como a expectativa criada durante um momento determinado, não relacionado ao desfecho desse momento.

Por fim, a direção aposta num visual que corrobora com o compromisso de fidelidade com a realidade. Os atores escolhidos para interpretarem os criminosos não só entregam atuações excelentes como surgem muito parecidos com suas contrapartidas verídicas. Basta uma breve pesquisa na internet que logo se percebe o esmero técnico.

O limite entre ficção e realidade é constantemente provocado, gerando momentos como a cena em que Charles Manson debocha de sua biografia escrita por Vincent Bugliosi e Curt Gentry. Reparem, por exemplo, o diálogo sobre relógios...

Já na marcha que acontece em Atlanta, a produção mescla imagens reais com outras que emulam a estética de película da época, como se tentassem parecer verdadeiras ou – e isso é apenas um palpite – denunciassem ser encenações do material original.

A segunda temporada de Mindhunter mantém a qualidade estética, a narrativa complexa e a condução que aflige sem chocar com violência gráfica. A série escapa do lugar comum ao contar um tipo de história já conhecida sob uma ótica singular.

Nota 10/10