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09/09/2019 21:35

IT - Capítulo Dois: continuação pouco inspirada

Fotos: Warner Bros.

IT - Capítulo Dois: continuação pouco inspirada

Por João Victor Wanderley

Uma das obras mais aclamadas de Stephen King, o extenso IT ganhou, em 2017, uma adaptação cinematográfica que levou às telas parte da história do Clube dos Perdedores. Dirigida por Andy Muschietti, arrecadou mais de 700 milhões de dólares. Com tamanho sucesso, seria impensável que a Warner não investisse numa continuação.

Em IT - Capítulo 2 (It Chapter Two, 2019), 27 anos se passaram desde os acontecimentos do filme anterior. Quando novas crianças desaparecem em Derry, os Perdedores fazem valer o juramento de retornarem à cidade caso Pennywise (Bill Skarsgård) voltasse a assombrar.

O roteiro de Gary Dauberman se responsabiliza por trazer o restante da obra literária que não entrou na primeira parte. Acompanhamos os protagonistas em suas vidas particulares até que são convocados por Mike (Isaiah Mustafa), o único que permaneceu em Derry.

A experiência vivida pelos adolescentes foi tão marcante que eles se tornaram adultos traumatizados. É curioso perceber que todos que se distanciaram do local perderam suas memórias. Quanto mais longe da cidade, menos se lembram. Tal efeito sintetiza bem a ferida deixada por Pennywise, que, de tão profunda, mantém o grupo refém dos mesmos medos.

Beverly (Jessica Chastain) casou com um homem tão abusivo quanto seu pai; Bill (James McAvoy) virou um escritor de sucesso, mas que não finaliza suas histórias de forma satisfatória – reflexo da culpa que carrega pela morte de seu irmão; Richie (Bill Hader) é um comediante inseguro que “não tem voz própria” e é alcoólatra; Ben (Jay Ryan) virou um homem solitário; Eddie (James Ransone) é neurótico, trabalha com riscos de acidentes e é casado com uma mulher idêntica à sua mãe – não por acaso, ambas interpretadas pela mesma Molly Atkinson; e Stanley (Andy Bean) se mostra o mais incapaz de rememorar o passado. Apenas Mike mantém as lembranças intactas e uma aparente segurança, o único capaz de permanecer em Derry e “enfrentar seus medos”.

(O Clube dos Perdedores retorna à Derry / Imagem: Warner)

Entretanto, com um material tão interessante, Dauberman demonstra inabilidade e entrega protagonistas unidimensionais. A perda de memória logo é contornada, sem render obstáculos narrativos relevantes. Além disso, há uma preocupação tão grande em associar essa continuação ao capítulo anterior que o filme se torna repetitivo e cansativo.

O apelo constante aos flashbacks, embora resgate o carismático elenco original, enfraquece o desenvolvimento das personagens – que dividem a atenção da narrativa entre suas versões infantis e adultas – e da trama – que estanca no meio do caminho, inflada por situações redundantes. Cada um ganha seu “momento de pavor”, constituído de uma ida a um lugar especial, uma lembrança onde foram atacados e um ataque no presente.

Considerando os dois capítulos, dá pra dizer que ambos falam as mesmas coisas e da mesma maneira, mas o mais recente não busca a profundidade do primeiro. Enquanto em 2017 os medos, à sua maneira, dialogavam com a temida transição da adolescência para a vida adulta, aqui temos apenas pessoas crescidas enfrentando obstáculos do passado: Beverly e o banheiro ensanguentado, Eddie e os zumbis, Bill e o fantasma do irmão, Richie e o pavor de palhaço... Nem a impactante sequência inicial, que sugere uma reflexão social pertinente e cabível, resulta em algo concreto. Falta ao roteiro mais substância.

Retornando à função de diretor, Andy Muschietti investe nos Jump Scares – sustos provocados através de inserções abruptas, tanto de imagem como de som. A técnica até funciona e rende alguns saltos na cadeira, mas é insuficiente por ser previsível. Mesmo que a direção brinque ao adiantar ou atrasar os momentos exatos, é muito fácil antecipar os sustos. A quebra dessa surpresa enfraquece a proposta da obra, que não é capaz de provocar medo.

Porém, é preciso dizer que há habilidade na construção da tensão. Os momentos que antecedem os Jump Scares, principalmente os que são esticados, dão aflição tanto pela preparação quanto pela boa utilização do fundo de cena, onde algumas ações desfocadas chamam atenção. A sequência dos espelhos e a visita de Beverly à sua antiga casa exemplificam bem.

(Pennywise encurrala suas presas através do medo / Imagem: Warner)

As criaturas também são questionáveis. Da expectativa de que algo vai aparecer até a aparição, o filme constrói uma atmosfera eficiente de tensão. O problema está quando tais criaturas ficam expostas por mais tempo. Elas não são realmente assustadoras, diminuindo o mérito conquistado ainda há pouco.

A computação gráfica é outro ponto irregular. Ora surge convincente, como durante o clímax, ora é muito artificial, como a criatura cabeluda que persegue uma das personagens. De qualquer forma, os efeitos interferem na experiência, seja por não serem refinados ou por aparecerem em excesso.

O elenco faz o máximo possível com o pouco material recebido. Dentro das limitações, a química dos atores e suas figuras são suficientes para nos prender. Existe boa dinâmica entre todos, mas os destaques são Bill Hader, que funciona como um bom alívio, e Bill Skarsgård, que segue ameaçador e asqueroso – sua imposição vocal e sua baba irrefreável são traços excelentes de sua composição.

IT - Capítulo Dois consegue criar uma ideia de nostalgia, tem boa interação do elenco e efetua alguns bons sustos, mas é muito pouco quando vemos o que foi entregue antes e como agora repete tudo com inferioridade. Uma continuação frustrante.

Nota 6,5/10