Plano Detalhe

05/07/2019 16:18

Homem-Aranha: Longe de Casa é divertido e... só!

Fotos: Sony

Homem-Aranha: Longe de Casa é divertido e... só!

Por João Victor Wanderley

ATENÇÃO! O TEXTO CONTÉM SPOILER DE VINGADORES – ULTIMATO

Não sou fã dessa proposta da Marvel de finalizar as fases de seu Universo Cinematográfico com aventuras que não sejam as protagonizadas pelos Vingadores. A escolha quebra a ideia de ciclo e remete a séries que depositam tudo no penúltimo capítulo, mas encerram as atividades com um epílogo menos atrativo, que empalidece o fim da jornada.

Além disso, o lançamento quase imediato de uma nova produção soa como imposição mercadológica que, queira ou não, diminui o peso do planejamento, já que um filme solo dificilmente será tão significativo quanto a reunião de todos os heróis mais emblemáticos da franquia.

Isso ficou ainda mais claro para mim no encerramento dessa terceira fase, com mais um lançamento logo no encalço do apoteótico Vingadores – Ultimato (2019), que se beneficiaria ainda mais sendo o grande encerramento. Um hiato maior até a próxima sequência ajudaria não só a retomada, mas o sucessor na construção de sua própria identidade.

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019) se passa pouco depois do sacrifício de Tony Stark (Robert Downey Jr.) para desfazer a tragédia provocada por Thanos (Josh Brolin). De volta à vida, Peter Parker (Tom Holland) quer apenas descansar e curtir as férias escolares, mas acaba envolvido noutra ameaça.

A morte do Homem de Ferro é sentida em todo o mundo, como mostrado nas diversas homenagens ao herói martirizado. Porém, o mais desolado é Peter, que perdeu novamente uma figura paterna e ainda precisa lidar com a vaga ideia de assumir a responsabilidade deixada pelo seu mentor.

Nesse ponto, o roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers é feliz ao abordar bem o pesar do garoto. É perceptível seu desgaste emocional, já que afeta até seu “sentido aranha”, impedindo-o de identificar uma ameaça se aproximando.

Peter Parker inseguro após os eventos de Vingadores - Ultimato (Imagem: Sony)

Aliás, ainda nesse quesito emocional, acerta ao construir convincentemente uma personalidade juvenil, rendendo ótimas passagens de ambiguidade ideológica. Peter sabe que é importante manter o mundo em paz, ao mesmo tempo que lembra ter apenas 16 anos e que deseja ser um garoto comum.

Essa dualidade é muito bem construída na firmeza de sua persona mascarada, quando em perigo, e na fragilidade de sua postura diante de um interesse romântico. Seus diálogos com o Mysterio (Jake Gyllenhaal) sobre suas responsabilidades também ajudam aqui.

O filme é conduzido com muito humor e leveza, quase todas as piadas funcionam para mim. É como se a produção se assumisse uma comédia adolescente. O primeiro ato é convincente, até que um acontecimento específico muda toda a dinâmica da trama.

Esse ponto é particularmente complicado, já que sua eficiência depende muito da maneira como cada espectador irá recebê-lo. Para os que encaram Longe de Casa como um produto meramente escapista e abraça a proposta, o divisor de águas funciona, já que traz uma surpresa interessante e é um potencializador dramático.

Por outro lado, encarar a obra com o mínimo de exigência narrativa é perigoso, já que o grande Plot Twist, ou reviravolta, não se sustenta por si – e eu me enquadro nessa segunda opção.

A surpresa parte do recurso barato de chocar apenas por chocar. Funciona como elemento inesperado, mas não tem argumentação sólida que justifique tal escolha. É como construir toda uma história em torno de uma mentira mal escondida e rezar para que o público tenha preguiça o suficiente para não questionar o que vê.

Tom Holland e Zendaya têm ótima química em cena (Imagem: Sony)

Para justificar melhor meu ponto de vista, será preciso mais objetividade nas palavras, o que resultaria num spoiler pesado. Por isso, QUEM NÃO QUISER TER A EXPERIÊNCIA CINEMATOGRÁFICA ESTRAGADA, BASTA CONTINUAR APÓS A PRÓXIMA FOTO.

A própria estrutura narrativa nos permite suspeitar que algo está errado quando, mais ou menos na metade da jornada, tudo se encaminha para uma solução definitiva, ficando a sensação de “não acredito que seja só isso. Estou sentindo uma treta (shhh).”. Ao percebermos que existe uma armação e como ela funciona, temos sim um choque. Entretanto, ela é vaga e inconsistente, tudo não passa de uma vingancinha tola e mesquinha de um grupo de pessoas com a vaidade ferida, que agora quer redenção pessoal disfarçada de altruísmo.

Depois, toda a fragilidade do plano mostra que ele não é inteligente, apesar de tentar parecer. Mysterio viaja pelo mundo combatendo ameaças. Essas lutas resultam numa destruição massiva de prédios e cidades. Porém, quando descobrimos que tudo é mera encenação, uma grande ilusão holográfica permitida por uma tecnologia de altíssima qualidade, a pergunta que fica é: o que acontece em seguida, após os hologramas serem retirados?

É possível crer que muitos tenham sido enganados, embora não seja nada fácil conceber o amigo da vizinhança se pendurando em projeções de realidade aumentada ou sentir o peso real de um prédio – afinal, são PROJEÇÕES. E se a tal tecnologia provoca tudo isso na mente humana, como ela não foi desmascarada após os acontecimentos de Veneza, por exemplo? Após a retirada da tecnologia que distorcia a realidade, ninguém tentou se aproximar do local? Não foi feita nenhuma cobertura jornalística que percebesse a cidade milagrosamente restaurada? É uma relação simples de ação e reação completamente ignorada pelo roteiro.

A fotografia captura a beleza das locações (Imagem: Sony)

A direção de Jon Watts se mostra vistosa e dinâmica, apresentando fluidez na ação e estética apurada. A câmera ágil, aliada à montagem dinâmica e bem executada de Leigh Folsom Boyd e Dan Lebental, entrega enquadramentos interessantes, que buscam sempre mostrar a capacidade física e a velocidade do herói.

A fotografia de Matthew J. Lloyd traz muita luz, contrastando com a paleta pessimista de Ultimato, procura enquadrar a Europa de maneira encantadora e aposta em cores vivas e agradáveis, deixando tudo visualmente convidativo.

O elenco está mais sólido que em De Volta ao Lar (2017). Tom Holland é muito talentoso, tendo timing para a comédia, firmeza nas cenas dramáticas e domínio das inseguranças adolescentes. Também é o Peter Parker ideal, mesclando juventude, carisma e vigor físico.

Zendaya tem mais espaço como M.J.; Jacob Batalon segue fazendo de Ned um ótimo alívio cômico e Jake Gyllenhaal passa credibilidade como Mystério. Marisa Tomei e Jon Favreau têm pouco espaço, mas fazem ótimas participações como Tia May e Happy Hogan, respectivamente.

Homem-Aranha: Longe de Casa é divertido, bem filmado e visualmente bonito, mas erra significativamente num ponto muito importante. A Marvel deveria compreender que o desgaste do protagonista pode representar a plateia, se propondo umas férias bem-vindas para deixar o público respirar. Caso contrário, o que vier pela frente pode acabar com o mesmo gosto de escapismo vazio.

 

Nota 7,5/10