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16/08/2019 20:20

Era Uma Vez... Em Hollywood: diferente, mas um autêntico Tarantino

Fotos: Sony

Era Uma Vez... Em Hollywood: diferente, mas um autêntico Tarantino

Por João Victor Wanderley

“Seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo.”. A frase que dá nome a um dos álbuns de Gabriel, O Pensador pode, muito bem, ser aplicada a Quentin Tarantino. O cineasta costuma brincar em suas obras com a maneira de fazer cinema, misturando ideias repetidas que resultam em algo original e que estabelece seu estilo. Porém, desta vez, ele entrega seu trabalho mais diferente, mesmo trazendo todas as suas características.

Era Uma Vez... Em Hollywood (Once Upon a Time ... in Hollywood, 2019) mostra a Los Angeles de 1969 através do olhar de três personagens: Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um famoso ator de TV em declínio, seu amigo e dublê Cliff Booth (Brad Pitt) e Sharon Tate (Margot Robbie), uma jovem atriz em início de carreira.

Para aproveitar melhor o filme, o espectador precisa estar ciente sobre o que aconteceu com Tate – e saber isso é essencial na compreensão de onde Tarantino quer chegar. Do trio de protagonistas, apenas a atriz é recriação de uma figura verídica. Ela fora brutalmente assassinada por seguidores de Charles Manson, uma espécie de mentor intelectual que manipulava seus seguidores para cometer crimes.

Era Uma Vez foge da estrutura clássica onde, por exemplo, uma personagem precisa se locomover de um ponto A até um ponto B ou realizar/impedir algo. O roteiro aqui não tenta contar uma história bem definida, mas apresentar um recorte de um período e um local específicos.

Compreender essa escolha é uma maneira eficiente de evitar frustrações já que existe uma quebra de expectativa aqui. O material entregue é diferente do que, normalmente, se espera de Tarantino. Nesse sentido, acompanhamos uma recriação de época tão rica em detalhes que é como se fossemos jogados no ano em questão. Existe um valor de produção absurdo através da direção de arte.

Figurinos, carros, estúdios, objetos de cena, fachadas de lojas, letreiros de cinemas com as obras em cartaz, músicas tocando em rádios, séries sendo exibidas na TV... Os pensamentos da época são capturados através dos diálogos eficientes: o desejo pela notoriedade, a vaidade dos artistas, a luta contra o ostracismo, a filosofia Hippie que se opõe à autoridade e prega a liberdade sexual... Toda a ambientação é bem-sucedida, seja no âmbito físico ou ideológico.

(Set de filmagens de Era Uma Vez... Em Hollywood)

Por outro lado, a falta de um elemento condutor atrasa nosso envolvimento com o que é mostrado – mesmo que a trama jamais seja desinteressante. É como se ficássemos alheios até que o engajamento emocional, que vai surgindo pouco a pouco, seja consolidado. Até lá, parece que acompanhamos “um documentário” sobre como era viver em 1969.

De qualquer forma, chama atenção como o roteiro trabalha os contrastes das diversas visões de uma realidade e, principalmente, traz sensibilidade. Existe uma simbiose incrível entre atuações, texto e direção.

Acostumado a interpretar vilões caricatos, Rick é muito canastrão e tem trejeitos exagerados, embora tenha talento. Longe das câmeras, existe um homem inseguro, capaz de se emocionar após uma grande cena ou de se transtornar ao errar suas falas. Aliás, o momento em que se cobra no camarim é brilhante por ser hilário e sensível. Leonardo DiCaprio está sensacional, transitando entre a persona das séries, a insegurança de quem vê a carreira declinar e a comicidade – essa para nós da plateia.

O olhar de Rick também serve para nos jogar nos bastidores da produção televisiva. A síntese dessa proposta está na gravação do episódio de uma série – que existiu de verdade. Após o erro de uma fala, a câmera desfaz o movimento para retornar à posição inicial e, em seguida, repetir tudo. O momento é registrado pela câmera do filme que, por sua vez, emula a da série, num exercício de metalinguagem bem aplicado.

Já Cliff personifica o profissional de Hollywood que não consegue mais trabalho. O dublê, que tem idade avançada e carrega um passado dúbio, se sustenta como assistente do amigo Rick Dalton. Nesse seguimento, o humor é explorado com sucesso graças ao roteiro e ao timing impecável de Brad Pitt.

Com gags físicas e piadas rápidas, o ator constrói uma persona naturalmente engraçada, sem cair no estereótipo. Ele ainda mostra como a passagem de tempo é cruel no ramo, quando visita um rancho antigo, usado para filmagens no passado, e vemos o que aconteceu com o proprietário.

(DiCaprio e Pitt estão excelentes; Robbie faz o melhor com o pouco material que tem)

Por fim, Sharon representa a ânsia de quem começa a crescer em Hollywood. Enérgica e cheia de vida, a jovem atriz simboliza a felicidade de quem está realizando um sonho. Essa mensagem é brilhantemente captada quando ela vai ao cinema assistir a um filme seu e se preocupa em notar a recepção da plateia – e é legal ver que Tarantino preserva a imagem da Tate verdadeira ao não recriar a cena exibida.

Entretanto, é curioso perceber a visão idealizada que o projeto tem de Sharon Tate. Como personagem, ela não acrescenta à trama e limita demais o trabalho de Margot Robbie – que se sai muito bem com o que tem. Por outro lado, surge como um símbolo do sentimento que o diretor tem pela época retratada.

Assim, não espanta que ela apareça sempre sorrindo, dançando, transbordando felicidade, vestida com cores quentes e enquadrada com bastante luz, como uma entidade. Uma demonstração de que Tarantino consegue ser sensível...

Em sua filmografia, o cineasta segue uma fórmula própria. Entre si, suas produções divergem bastante em essência, embora sejam semelhantes em estrutura. Todas trazem violência exagerada, humor ácido, trama não-linear, diálogos ágeis, ritmo acelerado e uma sensação de pertencimento a um universo particular.

Tudo isso está presente em Era Uma Vez, mas, de uma maneira nova. A diferença aqui é a dosagem: o diretor controla mais seus impulsos e extravagâncias, entregando sobriedade temática que aproxima o filme, o máximo possível, da nossa realidade. Por muito tempo temos um tom leve e mais próximo do que é uma comédia.

(Tatantino em filmagem de seu 9ª filme)

Mas estamos falando de um cineasta que não segue a lógica comum. Ao decidir ser o que estamos acostumados a ver, provoca uma catarse deliciosamente assustadora. É como se tentasse se livrar de amarras e, quando consegue, instaura o caos (narrativamente controlado).

Seja com uma conversa completamente trivial entre bandidos, instantes antes de provocar uma crueldade, ou quando recorre à ultraviolência, nos fazendo sentir gratificação pelo que vemos, o diretor parece tentar compensar seus fãs por terem aceitado fazer essa viagem com ele. Impressionante justamente por ter vindo depois do sentido autocontrole, o choque provocado é saborosamente real.

É legal também ver como ele se abraça ao seu universo próprio, permitindo-se distorcer alguns fatos. Ao assinar seu 9º trabalho com a tradicional frase inicial das fábulas, atesta a liberdade artística que adota com maestria ao distorcer a verdade para que esta sirva à trama. Tal escolha cria momentos memoráveis, como o embate fantástico entre Cliff e Bruce Lee (Mike Moh) ou a inserção de Rick em séries ou filmes reais.

A estética da obra é apurada, repleta de cor e movimentos de câmera interessantes. Tarantino utiliza de gruas para sair do quintal de uma casa e descer pelo telhado de outra, enquadramentos enviesados durante uma disputam por autoridade e travellings que deslizam durante uma cavalgada para dar ritmo. Ritmo, aliás, que nunca chega a ser acelerado, mas que é bom o suficiente para que não sintamos o peso das suas 2h40 de duração.

Era Uma Vez... Em Hollywood não é perfeito. É tecnicamente irrepreensível, mas exige do espectador algum conhecimento prévio para se ambientar melhor até ser cativado por completo – o que demora. Mas é extremamente divertido, bem executado e uma recriação competente de um período idolatrado por seu realizador. Pode ser diferente, mas é um autêntico Tarantino!

Nota 8,5/10