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05/10/2019 03:23

Coringa: somos consequência do meio

Fotos: Divulgação / Warner Bros.

Coringa: somos consequência do meio

Por João Victor Wanderley

Difícil determinar o que nos torna quem somos. Somos o que herdamos de nossos familiares, o que aprendemos e o que não compreendemos; nossos desejos, conquistas e fracassos; a soma de diversas coisas – ou o que resta delas. Somos parte de um todo, mas também podemos estar à margem deste. O que dá pra dizer é que o meio em que vivemos interfere em nossa formação, seja em pequena ou grande escala. E nessa formação, corremos o risco de nos transformarmos naquilo que jamais deveríamos ser.

Dirigido por Todd Phillips, que escreve o roteiro ao lado de Scott Silver, Coringa (Joker, 2019) tenta reconstruir um dos vilões mais icônicos dos quadrinhos e dos cinemas. A trama acompanha Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um frustrado comediante marginalizado numa Gotham nada amistosa.

Antes de tudo, é preciso deixar um aviso: NÃO LEVEM CRIANÇAS AO CINEMA! Apesar de ser sobre uma figura presente no imaginário coletivo, a história contém temáticas sensíveis.

O filme abre com Arthur se preparando para mais um dia de trabalho. Ele ganha a vida como palhaço, fazendo publicidade para pequenas lojas. Ouve na rádio sobre a greve dos lixeiros e como a cidade está abandonada pelos políticos. Já em serviço, é abordado por um grupo de adolescentes que o agridem. Os primeiros minutos do longa servem para estabelecer a dura realidade de Gotham: suja e miserável, que encontra na violência uma forma de ser vista.

É nesse ambiente hostil que mergulhamos no protagonista, um homem quieto, introspectivo e que sofre por não se encaixar no “padrão”. Suas particularidades e jeito desengonçado o fazem alvo fácil de deboches e desrespeito. Logo fica claro que a intenção narrativa de Phillips e Silver é oferecer um estudo de personagem, proposta executada com calma e perícia, além de discursar corajosamente sobre opressão e suas consequências.

O roteiro constrói Arthur de dentro para fora, lhe entregando diversas camadas que, aos poucos, são moldadas pelas constantes e agressivas interferências do meio em que vive. Não é coincidência que a figura central da trama tente ser engraçada e ganhe a vida como palhaço. Suas escolhas perante a sociedade refletem o que ele tenta ser e não consegue. Chega a ser doloroso que alguém tão infeliz tente dar ao próximo aquilo que não tem.

(Arthur Fleck - Joaquin Phoenix - se preparando para o trabalho / Imagem: Warner)

Um evidente grito de atenção, um desejo de ser notado e aceito. Só que sua mente atormentada sofre nesse processo. Ele busca ser reinserido após passagem no Hospital Arkham, por problemas neurológicos: tem acompanhamento psicológico, expõe os pensamentos negativos, fala da depressão, toma regularmente os remédios prescritos e se dedica ao sonho de ser comediante.

Mas a sociedade não o trata com a mesma boa vontade. Em seu diário pessoal, escrito com a letra trêmula – mais um exemplo da personalidade imprecisa –, lê-se: “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”. Uma incrível síntese da dor sentida.

Aliás, graças a sua condição, uma de suas características marcantes ganha contornos doloridos. A famosa risada do palhaço do crime é resultado involuntário de seus momentos de excitação ou nervosismo, o que o obriga a andar com um cartão que explica o seu quadro. Sempre que sofre uma crise, fica difícil sentirmos algo que não seja incômodo e/ou pena, principalmente quando é imediatamente substituída por uma expressão de total desolação.

Mas Arthur, constantemente, demonstra enorme vontade de superação, além de buscar ser alguém melhor. Divide o apartamento com a mãe, Penny (Frances Conroy), uma mulher que depende do filho para tudo. Ele cuida dela com carinho e amor genuínos. Só que as tentativas de viver decentemente são soterradas pela realidade, fazendo-o abraçar a violência como mecanismo de defesa e como forma de projeção. Com ela, sente-se livre, e isso cria um conflito interessantíssimo no personagem.

Mesmo que o Coringa seja um dos maiores vilões da ficção, aqui ele está em processo de amadurecimento. Uma vítima do sistema, oprimida e desprezada, que ultrapassa o limite do suportável e se vê obrigada a reagir. E o roteiro tem o cuidado de jamais usar a saúde mental como motor, ele não se torna criminoso porquê é doente. A doença é uma janela para nós, tornando o declínio compreensível, e para ele, permitindo-o interpretar-se como porta-voz de outros cidadãos que se rebelam.

E quando digo “compreensível”, não considero os acontecimentos aceitáveis, que fique bem claro! Entender os motivos de alguém não significa concordar. É importante esclarecer, já que a obra tem dividido opiniões e gerado polêmica pela maneira como aborda seus temas.

(Coringa, de vítima a agente do caos / Imagem: Warner)

Muito se fala em apologia à violência, mas não vejo dessa forma. Coringa segue padrões estabelecidos pelo Nova Hollywood, movimento cinematográfico que abria mão do estilo clássico de contar história – com um herói superando obstáculos e tendo o tradicional final feliz –, em detrimento de mais realismo, mesmo que significasse maior pessimismo e bastante ambiguidade.

Existe muita semelhança entre o filme de Todd Phillips e Taxi Driver (1976), que pertence ao movimento. Ambos são liderados por homens desajustados que se apropriam da violência, se passam em cidades marginalizadas e que abrem espaço para a criminalidade. Obras que utilizam discursos como estes não estão, necessariamente, atestando sua validade, elas refletem uma realidade que muitos se recusam a observar.

Criticar Coringa por seu aparente niilismo me parece exagerado, basta olhar a nossa volta e compreendemos como a arte se alimenta do cotidiano. Vivemos em tempos que “bandido bom é bandido morto”, mulheres são agredidas, homossexuais assassinados, políticos corruptos seguem impunes, extremistas políticos atacam por validação de posicionamentos, e até presidente enaltece torturador... O problema não está na mensagem, mas na interpretação.

É comum que algumas produções nos façam ter empatia pelo moralmente questionável. O Poderoso Chefão (1972), O Silêncio dos Inocentes (1991), Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) e Breaking Bad (2008 - 2013) são exemplos disso. Além de sedutores personagens controversos, todas elas contam com atuações irretocáveis que auxiliam na empatia. Com Joaquin Phoenix não foi diferente.

O astro mergulha fundo na insanidade que lhe é proposta, dando credibilidade e carisma. A entrega foi tanta que ele perdeu 24 quilos. A aparência esquelética choca, tanto pela realidade miserável da personagem quanto pela maneira que é usada para incomodar, através de movimentos que acentuam seus ossos.

Suas nuances também não passam desapercebidas, rendendo alguns detalhes como a caligrafia trêmula; o olhar de baixo para cima, refletindo a posição que ocupa no mundo; as costas arqueadas por boa parte do longa; e sua correção postural ao, finalmente, se “encontrar” na criminalidade. Um trabalho digno de premiações.

(Existe proximiade entre as cores do cenário de Murray Franklin - esquerda - e o traje do Coringa - direita / Imagem: Warner)

É legal ver a proposta diferente da oferecida por Heath Ledger no já citado O Cavaleiro das Trevas, se distanciando da consciência dos movimentos calculados. O Coringa de 2008 é cirúrgico, frio, um estrategista que não tem apego a nada que não seja seus princípios; o atual é, literalmente, imprevisível, não tem o que perder. Vira o símbolo errado de uma causa justa.

O resto do elenco serve bem à trama. Diferente do que acontece com Ad Astra – Rumo às Estrelas (2019), não é um mero recurso narrativo para mover a história. Está dentro de contextos importantes e não são ferramentas que aparecem apenas para preencher lacunas.

Dialogando visualmente com a riqueza do material escrito, a direção de Phillips é precisa. O cineasta entrega o trabalho de sua carreira, cujo maior destaque era Se Beber, Não Case! (2009). Aqui, conduz tudo com paciência, dá tempo o suficiente para desenvolver satisfatoriamente a trama e jamais se torna cansativo.

Em parceria com as direções de fotografia e de arte, apostam em tons pasteis que criam uma identidade visual sem brilho. Isso é notado tanto nos figurinos quanto no próprio tratamento da imagem. Gotham é fotografada escura e apática. A cor só ganha vida quando o personagem principal se reinventa, como pode ser percebido no terno escolhido para ir ao programa de Murray Franklin (Robert De Niro) – vale notar que o terno em questão está em sintonia com o cenário do programa, mostrando que Arthur, agora, faz parte do meio.

A montagem é outro artifício adequado, que não deixa o ritmo cair e ainda exerce influência na história. Há uma ótima cena onde vemos o protagonista ensaiando para uma entrevista. Na TV, uma gravação do programa tocando. No sofá, ele vai passando as falas. O som da plateia parece reagir ao ensaio, demonstrando frustração nos erros e entusiasmo nos acertos. Uma bela maneira de nos colocar na mente do protagonista. O recurso ainda é utilizado em outro momento, quando algo mais forte é executado e sons de aplausos são perceptíveis.

A câmera também se mostra simbólica ao estabelecer valores narrativos em determinados mentos. Há um eficiente paralelo entre as sequências inicial e final, ambas situadas em becos. A opção pelo Plano Holandês – enquadramento inclinado para um dos lados – antecipa o perigo dos dois momentos e os une pela importância do que os sucede, pelo impacto no futuro dos envolvidos.

(O protagonista dividido entre Superego e Id / Imagem: Warner)

Outra rima visual que se destaca é a entre as janelas de um ônibus e de uma viatura. O mesmo posicionamento da câmera une duas realidades destoantes do mesmo personagem: a solidão melancólica e a satisfação da realização.

Mas a escolha que me deixa mais encantado é a maneira como a escadaria no caminho para casa de Arthur me parece associada à sua jornada pessoal. Sigmund Freud estabelece a mente humana compartimentada em Id, Ego e Superego: o primeiro representa nossos desejos e impulsos primitivos; o segundo, localizado entre os outros dois, está ligado à maneira como nos apresentamos e como interagimos; e o terceiro é atrelado às regras éticas e morais que aprendemos ao longo da vida.

Assim, vejo a escadaria como o esforço diário do protagonista em lidar com seus conflitos. Sempre ao fim do dia, cansado do trabalho e das injustiças, sobe, quase sem forças, os degraus que o levam ao lar, à mãe que precisa de seus cuidados. Esse ritual é mostrado ao menos duas vezes, à noite, sob pouca luz, como quem reflete o desgastante empenho de percorrer o caminho da retidão moral. Essa subida seria o Superego.

Em contrapartida, quando se assume o palhaço do crime e muda de postura, decide se entregar à sua natureza agressiva. Nesse momento, o vemos descer as escadas. E ele está leve, dançando, feliz – e está de dia, bem iluminado. Sua subida castigada é substituída pela descida fluida, enérgica e ritmada por, enfim, alimentar os próprios desejos, por se deixar conduzir pelo Id.

Coringa não é sobre um vilão – abraçar tal ideia seria sucumbir a um maniqueísmo tolo e antiquado –, tampouco é sobre a vitória a qualquer custo. Ele é sobre alguém, sobre tentar ser alguém. Sobre ser derrotado o suficiente e se reerguer, uma última vez, para revidar e estar disposto a qualquer coisa. É sobre se perder no fato de não ter mais nada a perder. Uma obra brilhantemente melancólica e terrivelmente catártica.

Nota 10/10


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