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02/09/2019 12:04

Bacurau é Resistência!

Fotos: Divulgação

Bacurau é Resistência!

Texto: João Victor Wanderley

As divergências ideológicas do Brasil se intensificam desde que o conservadorismo se traduziu na eleição do candidato que o personifica. Disposta a sobrepor seus dogmas a tudo o que julga errado, essa onda conservadora se espalha por setores como cultura, arte e educação e os ressignifica sob o prisma tacanho do “se não está de acordo com o que penso, não presta”.

Nesse contexto, resistir tem sido necessário para preservar a voz ganha através da arte e a evolução cultural, reconhecendo nosso passado em busca de um futuro cada vez mais adequado. E resistência também se faz com cinema, “com uma câmera na mão e um punhado de ideias na cabeça”, como mostra o brilhante Bacurau (2019).

Num futuro próximo, a fictícia cidade que dá nome ao filme vive pacata no interior de Pernambuco. Após literalmente desaparecer dos mapas, e de uma série de assassinatos, Bacurau precisa se proteger sem saber exatamente do quê.

A simples existência da obra já representa resistência ao pensamento retrogrado do presidente Jair Bolsonaro, que demonstrou interesse em fechar a Ancine – Agência Nacional do Cinema –, seja pelas temáticas que não o agradam, por não ter controle sobre os conteúdos ou por não ser a favor de pôr dinheiro público nos projetos.

Acontece que o papel da Ancine não é bancar filme algum, apenas retribuir com incentivos fiscais aqueles que fomentam o setor. Da mesma forma que empresas internacionais beneficiadas por estarem aqui, o cinema local é capaz de movimentar o mercado, gerando emprego para diversos profissionais como eletricistas, figurinistas, marceneiros, motoristas, cozinheiros, etc.

Além disso, há o fortalecimento da nossa produção. Se contrapondo a cidade da narrativa, Bacurau recoloca o Brasil no mapa ao vencer o Grande Prêmio do Júri em Cannes, um dos festivais mais respeitados do mundo.

Escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, a obra representa um marco no audiovisual brasileiro ao fugir do padrão produzido aqui. Criando uma positiva loucura estilística, conduzida com invejável precisão, transita entre gêneros com fluidez e eficiência narrativa.

O Drama surge quando somos jogados no cotidiano do local e apresentados aos moradores. Compreendemos o estilo de vida, suas precariedades e o senso de comunidade. Passamos a nos importar com aquelas pessoas quando tudo isso sofre interferência dos novos acontecimentos.

O primeiro ato é destinado a nos ambientar, o que é feito com uma bem-vinda direção quase documental. Compreendemos a lógica para, depois, a vermos ser distorcida. Visando entregar a melhor experiência possível, Kleber e Juliano são felizes ao investir em atores não profissionais e em moradores das locações potiguares onde o filme foi rodado, como Parelhas. Isso traz uma realidade quase palpável.

 A passagem de tempo demarcada por cenas do Sertão, o nascer e o pôr-do-sol, os conflitos armados e a violência gráfica dão o tom de Western. Humor e Suspense também aparecem, com o primeiro recheado da típica presença de espírito nordestina e o segundo se aproveitando de momentos de tensão que remetem a Halloween (1978) quando a ameaça se põe à espreita – as crianças brincando com a lanterna à noite ilustram bem isso.

Por fim, a Ficção Científica se vê na tecnologia avançada e na trama se passada num futuro próxima e repleta de reflexões sobre a nossa atualidade. Esteticamente ainda temos influência da saga Star Wars, vista nos efeitos de transição, com as imagens deslizando para dentro da tela, e na abertura, quando a câmera foca o espaço e, num movimento de câmera, revela a Terra – curiosamente redonda...

Apesar de conter interessantes figuras complexas como Domingas (Sônia Braga), Lunga (Silvério Pereira) e Pacote (Thomas Aquino), o roteiro não personifica o protagonismo, entregando-o à Bacuaru. Ela move o enredo e é a partir de seu ponto de vista que montamos o quebra-cabeças do grande mistério em torno da cidade. Aliás, Kleber e Juliano se arriscam demais ao manter seus espectadores no escuro por tanto tempo.

Vemos uma sucessão de estranhezas aparecendo cautelosamente, sem qualquer ligação visível. Embora a compreensão do todo seja satisfatória, até lá, existe a chance dos menos pacientes se perderem num “aparente enredo sem sentido”. Assim, é gratificante perceber a confiança que os cineastas têm no material e como este prende nossa atenção sem parecer cansativo.

Mas o ápice do roteiro está nas alegorias que dão tantas camadas à obra, ficando difícil não retornarmos a esta – mesmo mentalmente – dias após a termos assistido. Como o mistério é importante na construção da narrativa e preciso comentar sobre algumas dessas alegorias, sugiro a quem ainda não viu o filme evitar os spoilers. Basta pular diretamente para o último parágrafo.


O roteiro constrói sátiras eficientes de diversos setores. Mesmo potencializadas, todas as críticas partem de algo muito real, como o descaso dos políticos com a sociedade. A figura do prefeito Tony Jr (Thardelly Lima) reflete isso muito bem. Interessado apenas na reeleição, Tony transforma em grande gesto a doação de livros antigos e descuidados, caixões, e comidas e remédios vencidos.

É interessante reparar que os livros doados são levados na caçamba de um caminhão e despejados no chão, como se fossem lixo. Um reflexo da maneira como se trata a educação por aqui

Sua participação no turismo de extermínio demonstra as motivações egoístas que movem nossos representantes, bem como está de acordo com a abertura para que estrangeiros explorem aquilo que é genuinamente nosso. Chega a ser irônico que os caixões entregues pelo prefeito, na verdade, simbolizem as mortes resultantes da falta de atitude do poder público.

Sobre os turistas, é curioso ver como se relacionam com as rupturas raciais e econômicas do Brasil. Os motoqueiros interpretados por Karine Teles e Antônio Saboia tentam se aproximar do grupo de estrangeiros alegando serem do sul do país, região mais rica e etnicamente próxima da Europa, mas logo são descartados por não serem “realmente brancos”, vide que ambos têm traços de miscigenação. Esse arco mostra o quão patético é o preconceito num país com tamanha diversidade, bem como a banalização da cultura da violência que vem se massificando.

Em determinado diálogo, quando uma pessoa pergunta:

- Quem nasce em Bacurau é o quê?

Uma criança prontamente responde:

- Gente.

Embora a cena tenha um cunho humorístico evidente, ela sintetiza algo muito mais agravante: a súplica pela vida! É como se a criança compreendesse o que se passava ali e gritasse: não façam isso conosco, somos humanos!

As ações fracassadas da polícia e a truculência das milícias têm vitimado cada vez mais inocentes e banalizado suas mortes, como se algumas vidas valessem menos. Logo, não é de espantar que a TV que surge ligada em determinado momento anuncie execuções coletivas em São Paulo.

Porém, diante de todas essas dificuldades, é o conhecimento que preserva Bacurau dos ataques sofridos. Se as duas escolas sucateadas reforçam o estado da educação, o professor Plínio (Wilson Rabelo) se mostra um dos pilares da cidade ao fazer o possível para preservar o conhecimento, seja ao manter uma biblioteca em casa ou se esforçar para ensinar com o que tem.

Outro ponto essencial é o museu, que serve, literalmente, de munição à população. Ele ainda nos mostra que lutar faz parte daquela cidade, como sugerem os registros da época do cangaço e também a vitrine com vestimentas e comunicador similares aos usados pelos turistas, evidenciando ataques anteriores. É extremamente simbólico que a sobrevivência da comunidade passe diretamente pelo museu, com o passado munindo o presente, e pela escola, que abriga e preserva o futuro da cidade.


Bacurau não é espetacular “apenas” por ser original ou cinema de altíssima qualidade, mas por ser a súplica necessária em tempos questionáveis e moralmente ambíguos. É fôlego, respiro durante um extremismo sufocante. É reflexão sobre o que pode dar errado se continuarmos seguindo essa estrada esburacada pelo conservadorismo agressivo, cego e preconceituoso. É cinema com estética comercial, técnica artística e alma de guerrilha. É resistência até sua última gota de sangue!

Nota 10/10