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20/06/2019 13:06

Um tal de Rubens

Fotos: Mastrangelo Reino/Folhapress

Um tal de Rubens

A primeira opinião sobre cinema que me importou na vida – e importará sempre – é a do meu pai. Ele nunca foi um crítico especializado e jamais teve pretensões para tal, mas sempre foi um consumidor apaixonado. Uma pessoa que não se impõe limites para o que deve assistir, capaz de começar o dia chorando de rir com as tolices de Adam Sandler e terminar completamente emocionado com a sensibilidade de Giuseppe Tornatore. Foi meu pai que me apresentou a magia que é o cinema, o prazer de ver uma história ser contada enquanto é representada bem na nossa frente.

Quando comecei a buscar mais sobre o cinema, meu pai também me abriu essa porta ao, por exemplo, fazer assinatura da revista brasileira SET e, de vez em quando, ao trazer textos que ele mesmo imprimia no trabalho para que eu pudesse ler em casa. Muitos deles assinados por um tal de Rubens...

O avanço da tecnologia permite hoje uma troca de informações com muito mais rapidez, encurtando a enorme distância territorial do país. Graças a essa tecnologia, eu, do conforto de minha casa, consigo ter acesso à adequação linguística do portal cearense Cinema com Rapadura, às críticas muito bem fundamentadas do belo-horizontino Pablo Villaça, os vídeos eficientes do brasiliense Tiago Belotti e a sensibilidade analítica de Sihan Felix, que reside aqui em Natal.

Mas nem sempre foi assim. Até pouco tempo mesmo, informações sobre cinema eram conseguidas através de leitura ou quando a TV abria espaço para o tema. Num país onde se lê pouco, conseguir inserir um olhar crítico sobre um assunto que, para muitos, não passa de um entretenimento escapista é um feito incrível.

E foi assim que eu compreendi o alcance do tal Rubens. Rubens Ewald Filho foi um pioneiro, um desbravador. Um homem com um conhecimento enciclopédico da sétima arte, que tocou muitas gerações e nutriu ainda mais a sede por conhecimento. Nos mostrou que compreender um filme é muito mais que conhecer o currículo de seus envolvidos, que existe diversos “porquês” em cada enquadramento, cor ou som escolhido numa cena.

Ele também foi muito importante ao mostrar que ser crítico não tem nada a ver com arrogância e nem com estar certo ou errado, mas ter capacidade de identificar a objetividade lógica por trás de obras que dialogam com nossa subjetividade, de ver a razão que constrói nossa emoção, de ler o audiovisual.

Rubens nos deixou ontem, aos 74 anos de idade. Ele é mais lembrado como o “cara do Oscar”, o comentarista da transmissão da TNT, mas é muito mais que isso... É o profissional que sempre respeitou os filmes que despertavam sentimentos honestos – mesmo tecnicamente problemáticos – e que, de certa maneira, deixou algo na sensibilidade de Sihan, na eficiência de Tiago, no fundamento de Pablo, na adequação do Cinema com Rapadura e na paixão do meu pai. Uma referência que carrego comigo e que alcança muitos críticos hoje, saibam eles ou não.

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