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21/06/2019 19:41

Toy Story 4 fala com a alma

Fotos: Divulgação

Toy Story 4 fala com a alma

“Mas o que faz o Woody especial é que ele nunca desiste de você!”

Estamos em 2019 e eu já passo dos 30, mas toda vez que ouço essa frase dita por Andy no final da então trilogia Toy Story (1995 – 2010), é como se eu voltasse instantaneamente à minha infância. Cresci “ao lado” de Andy e, assim como ele, tinha o cowboy mais corajoso do mundo e toda sua trupe como meus melhores amigos.

Era impensável, então, aceitar que algo mais pudesse sair dessa lembrança tão especial. Eis que, mais uma vez, a Pixar ensina a olhar sob nova ótica, mostra que o fim para uns pode ser um começo para outros.

Em Toy Story 4 (2019), a pequena Bonnie é responsável por toda a turma de Woody, que já não ocupa mais a posição de preferido. Quando a garota cria o Garfinho e desenvolve uma forte relação emocional com ele, o xerife se impõe o dever de proteger o novo brinquedo para fazer a menina feliz. Porém, durante uma viagem, valores consolidados começam a ser questionados.

Uma das grandes dificuldades da produção era encontrar uma história. Com o desfecho do capítulo anterior, pouco se tinha a acrescentar à franquia. Nesse sentido, o eficiente roteiro de Andrew Stanton e Stephany Folsom é feliz ao trabalhar em cima do que representa o último gesto de Andy, passar os brinquedos à frente e contemplar outras crianças.

A abordagem escolhida não só reforça toda a essência de devoção dos protagonistas como dialoga com a sensação de pertencimento deles. Reparem como a inversão de valores aqui é significativa: não são as crianças que têm brinquedos, mas os brinquedos que têm crianças. Essa ideia reforça a ligação dos bonecos a partir de suas funções existenciais, eles precisam servir aos humanos e compreendem isso perfeitamente.

Assim, quando vemos Woody superar sua autoestima ferida após ser deixado de lado, entendemos como é importante pra ele, acima de qualquer coisa, manter Bonnie feliz, mesmo sabendo que ela vai crescer e, eventualmente, perder o interesse pela brincadeira. Mas até lá, é sua obrigação servir à imaginação da garota.

Woody explica a Garfinho o quanto Bonnie o ama

Isso fortalece ainda mais a jornada interior do protagonista, que, pela primeira vez, questiona o próprio propósito. Vemos como o xerife está perdido e deslocado, a falta que sente de Andy faz dele uma figura incompleta. Perder a relevância rapidamente é muito doloroso para quem sempre foi leal e jamais abriu mão de um único parceiro.

O conflito ganha força quando sua amiga Betty reaparece completamente independente. É lindo ver duas filosofias tão fortes em cheque. De um lado, total devoção a uma única pessoa; do outro, a ciência de poder fazer a diferença para muitos outros. Nesse ponto, é genial que o filme dê à Betty algumas marcas físicas. Enquanto os curativos escondem traumas sofridos, também representam a abdicação da vontade própria e o impulso de buscar novas relações.

É reflexivo que parte da história se desenvolva dentro de um antiquário, criando um diálogo muito forte com Toy Story 2. No filme de 1999, Woody era restaurado para virar peça de colecinador. Se lá existia algum valor emocional, mesmo que a intensão fosse guardá-lo numa vitrine ou mostruário, aqui apenas resta o esquecimento, ideia que fere o ego dos que ainda sonham ser úteis.

Nesse contexto, a ambiguidade de Gabby Gabby se torna compreensível e tocante. Apesar de ser conceitualmente similar ao Minerador e a Lotso, antagonistas anteriores, seu arco dramático é capaz de dobrar o mais frio coração adulto na plateia. Em determinado diálogo, nos emociona perceber o quão importante é a sensação de pertencimento – como evidenciado na cena do parque já próxima ao fim.

Uma das novas atrações, Garfinho traz uma importante mensagem de incentivo à criatividade. Em sua inocente ignorância dos valores impostos pela sociedade, as crianças brincam e ressignificam coisas corriqueiras na vida de um adulto, como uma caixa de papelão ou um controle remoto.

Assim, se o novato é, para muitos, apenas um garfo descartável destinado ao lixo, Bonnie o enxerga com muito mais apreço, transformando-o no que for necessário à sua imaginação. Um cowboy será sempre cowboy, assim como um astronauta será sempre um astronauta. Mas o Garfinho será o que ela quiser que ele seja! É quase uma metalinguagem se considerarmos que a Pixar faz o mesmo com seus protagonistas. Brinquedos que, para os espectadores, assumem os papéis indicados por suas interpretações.

Bonnie e seu mais novo brinquedo

O filme ainda traz um visual arrebatador, onde é perceptível a textura da computação gráfica. Ao bater o olho rapidamente, é fácil distinguir a pele humana das superfícies de plástico, pelúcia e porcelana, por exemplo. O humor funciona bem demais, muito graças às novas personagens.

Os bonecos de ventríloquo são genais ao não trazerem firmeza em suas juntas e ao não terem voz própria. Além disso, funcionam demais quando a produção insiste em dar pitadas de terror. Também preciso destacar a dupla Patinho e Coelhinho, dois brinquedos completamente insanos; a hilária Isa Risadinha; e o intenso Duke Caboom – impressionante como a série consegue criar esses idiotas adoráveis!

Entrei na sessão com a certeza de que não havia necessidade de outra aventura, mas percebi que estava sendo tão egoísta quanto o fundo de uma caixa esquecida ou uma prateleira empoeirada de um antiquário. Enquanto um certo xerife tiver coisas positivas à dizer, sempre haverá gerações dispostas a ouvir. E eu estarei lá, mesmo que seja para ver estranhos se divertirem com meus amigos de longa data.

Toy Story 4 é forte o suficiente para abraçar nossa alma e sussurrar palavras de carinho aos nossos corações. É capaz de me fazer chorar já nos minutos iniciais e de me tirar da sala com uma felicidade revigorante; de piscar o olho para os Andys e Bonnies da minha geração enquanto se preocupa em criar novos vínculos afetivos; capaz de, pra nos manter sorrindo, percorrer pelo infinito e além!

 

Nota 10/10

Eu, claramente eufórico com minha criança interior!

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