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Desde que a pandemia do novo coronavírus se abateu sobre o mundo, não é de se admirar que os nossos hábitos tenham mudado drasticamente. Assim como muitos, eu fui um dos que a sentiu logo no início de março de 2020, e a clausura, como estratégia de conter a disseminação do vírus, ganhou uma dimensão nunca antes vista em lugar algum.
Nos primeiros meses de chegada da enfermidade ao Brasil, ninguém sabia como lidar com ela. A única coisa de que se tinha ciência era a de que o isolamento social precisaria acontecer. Segundo as autoridades de saúde, em função do alto poder de contágio e da rápida propagação, qualquer pessoa estaria vulnerável; daí porque era urgente que se evitasse sair de casa, a não ser por motivo de força maior. Todos estavam reféns de um inimigo invisível, que não dava trégua e permanecia sempre à espreita, esperando um único passo em falso para atacar sem piedade.
Eu tinha acabado de me casar no final do ano anterior ao grande surto mundial. E minha esposa havia viajado para o município de Paulo Afonso (BA), onde era lotada como servidora pública federal, o que me deixou logo aflito por não saber como ela poderia se cuidar longe da família, caso o pior ocorresse. Felizmente, o tempo de afastamento foi encurtado, quando os órgãos públicos, com base em ordens superiores, optaram pela modalidade do trabalho remoto emergencial, isto é, o servidor ficaria trabalhando em casa; e isso graças à era digital que estamos atravessando, o que nos permitiu utilizar as ferramentas de comunicação mais sofisticadas e atuais: WhatsApp, Google Meets, Microsoft Teams, Zoom, Google Sala de Aula, dentre outras. Muitas delas, eu confesso que jamais havia manuseado. Aliás, nenhum de nós. E tivemos que aprender e modificar a nossa maneira de atuar em nossos respectivos ofícios. No meu caso, na minha profissão de professor.
Aos poucos, à medida que fomos nos adequando à nova conjuntura, pudemos ir retomando a normalidade com o exercício das seguintes medidas de segurança: uso de máscaras, cobrindo nariz e boca, higienização constante das mãos com álcool de teor acima de 70% e a distância de 02 metros uns dos outros. Esta última, nem sempre era respeitada.
O período em que passei isolado, ao mesmo tempo que aguçou minha criatividade para dar andamento a novos projetos, além do trabalho institucional, obrigou-me a repensar a rotina e a olhar-me interiormente, tendo em vista de que a clausura começava a afetar a minha saúde mental. Decidi caminhar em companhia da minha esposa.
O período vespertino era, às vezes, o escolhido. Como nossa nova moradia localizava-se no bairro de Lagoa Nova, em Natal, mais precisamente num ponto com acessibilidade a vários serviços (lojas de conveniência, quitandas, praças, hospitais, farmácias etc.), um pouco de atividade física era recomendado, contanto que, ao longo do trajeto, nos preservássemos do contato com outros pedestres, a fim de que aglomerações não se formassem. Foi numa dessas tardes pandêmicas que algo me chamou a atenção.
Enquanto tentávamos relaxar com uma leve caminhada, respirando o frescor da tarde, após bastante tempo enclausurados, observei idosos imprudentes, sem máscaras de proteção, ignorando o cenário epidemiológico em que nos encontrávamos, desfrutando uma boa conversa ao lado de outros em alguns dos bancos da Praça das Mangueiras, como era popularmente conhecido este espaço público. Uns seguravam as máscaras de qualquer jeito, sem qualquer tipo de zelo, podendo, inclusive, com tal gesto, contaminá-las e, em seguida, se contaminarem. Outros pareciam não se preocupar com a aproximação de crianças em idade de usar máscaras, mas sem a devida proteção naquele instante, muito menos com a mínima distância de adultos mais jovens; estes também sem o nariz e a boca escudados. Minutos depois, outros idosos foram chegando à Praça, com o intuito, talvez, de dialogarem e de fazerem atividade física, seguindo o mau exemplo. Os esportistas juvenis que já estavam no local resolveram acompanhar o pessoal da terceira idade, e, daí por diante, uma onda de total desleixo tomou conta do ambiente. Até aconselhei a minha esposa a procurarmos outro espaço para concluirmos o passeio a pé.
Não sei por que, no entanto, me ensinaram que a sabedoria começava pelos mais experientes. Estes, com suas ações, mostravam o que era certo e o que era errado. A questão é que o certo e o errado são duas ideias antagônicas muito relativas, cuja essência varia sempre de geração em geração. Tudo bem, faz sentido. Mas em se tratando da saúde humana, que, por sua vez, tem relação com a preservação da vida, o egoísmo e a falta de empatia, que tais conceitos podem esconder por trás de pequenos gestos, também variam de geração em geração? Em contextos tão críticos como o atual, é de se pensar melhor.
Tenho reparado que é justamente em contextos pandêmicos ou de guerra que o ser humano é posto à prova na hora de procurar alternativas, especialmente se forem para o seu bem ou para o da humanidade. E independentemente do que optar, sabe que as consequências serão registradas pela Ciência Histórica, e esta é para sempre. Além disso, é preciso salientar o peso que a má experiência pode deixar às gerações futuras: uma má conduta retroalimentada por interpretações tortas, ilógicas, produzindo meias verdades, com o aspecto de verdades coerentes, absolutas.
Não disfarço a minha indignação quanto ao modo de vida que se tem hoje, sem referências, valores… Que base a juventude terá quando se vir forçada a pôr em prática a definição de Responsabilidade Social? Nem sequer saberá mais o que é isso, porque simplesmente não teve quem a instruísse nessa direção. E tudo parte de nós, não somente daqueles que elegemos nossos representantes políticos, pois eles são o resultado do que somos, do que fazemos. Eu não sabia que as tardes no bairro de Lagoa Nova me fossem tão reveladoras!


