08/07/2019 21:36

Stranger Things 3: evolução, referências e muita qualidade

Fotos: Netflix

Stranger Things 3: evolução, referências e muita qualidade

Por João Victor Wanderley

Se firmar como um sucesso já em sua estreia é difícil para uma série, qualquer passo seguinte será recebido com mais expectativas e maior exigência. Permanecer no topo é ainda mais complicado, já que manter o padrão de qualidade é um desafio para todo criador. É preciso tirar o chapéu para a Netflix e, principalmente, para os irmãos Matt e Ross Duffer, responsáveis por fazerem Stranger Things (2016 – 2019) ser o que é.

Nesse terceiro ano, uma brecha entre o nosso mundo e o Mundo Invertido é aberta, trazendo uma ameaça já conhecida e que procura por vingança. Novamente, a responsabilidade de salvar a humanidade está nas mãos dos moradores de Hawkins, liderados pela poderosa Eleven (Millie Bobby Brown) e seus amigos adolescentes.

A história retorna seis meses após os acontecimentos da temporada anterior e se inicia apresentando a nova dinâmica entre os protagonistas. Com o namoro quase obsessivo de Eleven e Mike (Finn Wolfhard), as idas e vindas de Lucas (Caleb McLaughlin) e Max (Sadie Sink) e Dustin (Gaten Matarazzo) num acampamento de férias, o grupo tem uma crise de proximidade que se reflete em Will (Noah Schnapp), deslocado e sentindo o afastamento dos parceiros.

O desgaste provoca novas rupturas, que são muito bem aproveitadas pelos roteiros para dividir a trama em núcleos. Dessa maneira, conseguem utilizar bem o elenco principal, desenvolver suas personagens e entregar informações importantes em cada episódio, mostrando que a história está sempre andando para frente e que não perde tempo “cumprindo tabela”.

Assim, vemos Eleven e Max investigando o comportamento estranho de uma personagem; Dustin, Steve (Joe Keery) e Robin (Maya Hawke) tentando compreender uma mensagem criptografada; Joyce (Winona Ryder) e Jim Hopper (David Harbour) sondando uma pista sobre interferência magnética; Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) apurando uma notícia atípica; e Mike, Lucas e Will percebendo a ameaça que se aproxima. A estrutura narrativa se mostra dinâmica e eficiente ao administrar tantos arcos e ganha ainda mais peso quando todas essas linhas se cruzam.

Dustin, Steve e Robin lideram um dos núcleos de Stranger Things 3

Mas o que eu mais gosto nessa terceira temporada é a maneira de pontuar algumas temáticas relevantes. Numa camada histórica, o avanço do capitalismo com a chegada do shopping Starcourt sepulta o comércio local. Lojas fechadas ou mesmo vazias apesar de promoções agressivas, encontram eco nos protestos de insatisfação dos moradores.

Na camada pessoal, vemos mudanças em figuras já estabelecidas. Jim, longe das obrigações paternas há bastante tempo, encontra dificuldades ao lidar com o crescimento de Eleven. O xerife consegue se impor como figura de autoridade na cidade, mas se mostra totalmente sem jeito diante da garota. Mesmo assim, a relação dos dois é muito significativa, sendo bem construída desde o início, com ele tentando impor limites ao namoro da filha, e tendo seu ápice já no fim, num dos momentos mais lindos da série.

Mike e Lucas também passam por uma evolução sensível graças aos seus relacionamentos. Enquanto vê os amigos preocupados em sustentarem seus romances, Will sofre por ser o resquício final da infância no grupo, ainda com os dois pés na ingenuidade - a cena em que confronta Mike por querer apenas brincar é emblemática. Mas também é muito bacana perceber como esse amadurecimento é bem inicial, como mostrado na cena em que os garotos reagem apavorados diante de uma loja de lingerie.

Por fim, numa camada mais social, estão questões sobre o posicionamento da mulher na sociedade. Seja quando Max aconselha Eleven a respeitar às próprias vontades e não ver o mundo apenas pelos olhos dos homens – na curta cena em que começam a ler uma HQ da Mulher-Maravilha –, na lindíssima conversa entre Nancy e a mãe sobre as dificuldades de ser adulta numa sociedade machista ou no tocante diálogo entre Steve e Robin no banheiro do shopping, Stranger Things 3 mostra que, apesar de referenciar demais o passado, não esquece de olhar para os dilemas atuais.

Mulheres em destaque numa das séries mais populares da atualidade 

Quanto ao desenvolvimento da trama, o roteiro brinca até mesmo com os estereótipos dos filmes oitentistas ao resgatar um tipo de vilão que permeou os cinemas de aventura. Embora esse seja um ponto questionável, já que é um recurso genérico e mal explorado, sua recepção depende muito da forma como o espectador o vê. Eu, por exemplo, entendo que na intenção de referenciar, a equipe de escritores foi fiel até mesmo aos pontos fracos. O que vemos de genérico aqui é proposital, a série não tenta apenas homenagear, mas parecer um produto da década de 1980.

É preciso citar também a coragem da equipe em abrir mão de sua zona de conforto ao fazer escolhas audaciosas, que modificam a dinâmica no futuro. Resta saber se essa coragem irá se estender ou se esse passo será desfeito – e se, caso aconteça, será convincente.

A direção é muito competente ao brincar com diversos estilos. Consegue transitar da ingenuidade à violência – com cenas bem nojentas; quando envereda pelo o humor, é muito eficiente – e impressiona a capacidade de jogar piadas em momentos sérios e, ainda assim, conseguir manter a tensão –; constrói um suspense atmosférico, que se beneficia da trama apresentada em “peças de quebra-cabeças”; e ainda funciona bem como terror de ficção científica.

Os efeitos especiais estão melhores, misturando computação gráfica com efeitos práticos. Porém, em alguns momentos, o recurso virtual parece artificial, principalmente nas criaturas horrendas. Já a direção de arte e a fotografia são irretocáveis ao recriarem o verão dos anos 1980. Cores quentes e vibrantes vão desde o trato da imagem aos figurinos e objetos de cena.

Fotografia, figurino e direção de arte reconstruindo época

Quanto às referências, umas das coisas mais chamativas aqui, continuam sendo excelentes, seja no papel de ambientação através das músicas ou sessões de cinema – que exibem Dia dos Mortos (1985) e De Volta Para o Futuro (1985) –; inseridas como apoio narrativo – como O Exterminador do Futuro (1984) –, ou citação estética de obras mais recentes, como Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros (1993).

O elenco segue excelente, como sempre. Todas as crianças são muito talentosas e mandam bem nas cenas mais intensas. Obviamente, a competência cênica de Millie Bobby Brown e o carisma gritante de Gaten Matarazzo são pontos adoráveis em Eleven e Dustin, mas é preciso destacar a pequena Priah Ferguson, que dá vida à hilária Erica.

Entre os adultos, o destaque é a química potente entre o Jim de David Harbour e a Joyce de Winona Ryder. Não sou muito fã do trabalho dela aqui, quase sempre acima do tom, mas é inegável como funciona ao lado do xerife. Vale citar também o Billy de Dacre Montgomery, que protagoniza uma cena emocionante no episódio final.

Stranger Things 3 é hilária, tocante, relevante, ameaçadora e ótima representação de um recorte histórico. Não se sustenta apenas do que cultua, mas de seus próprios e inegáveis talentos. Minha temporada preferida da série até agora.

 

Nota 10/10

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