O som do silêncio

31 de Outubro 2021 - 23h43
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Qualquer pessoa que relembra esporadicamente os fatos marcantes da infância e da adolescência procura assinalar como brincadeiras inesquecíveis as mais tradicionais: esconde-esconde, cabra-cega, polícia e ladrão, teco-teco, amarelinha… Além daqueles esportes muitíssimo sabidos e que não podem sumir da nossa prática do dia a dia, sendo o futebol o de maior fama.

Assim como toda criança, não fugi à regra: experimentei boa parte das atividades esportivas, mesmo não gostando intensamente delas. Porém, tive de cultivá-las na escola por questões de saúde e por obrigação, dado que educação física era (e ainda é) uma disciplina do currículo escolar e nunca será abandonada por atender também às necessidades médicas. É fato, não há como negar. Longe de mim sugerir o fim das atividades físicas. Querendo ou não, todo mundo, na infância, na juventude ou na velhice, acaba se exercitando para que o corpo não esqueça a sua principal função ― o movimento.

O corpo humano não foi feito para a quietude. É duro, agora que estou beirando os 40 anos, admitir isso, mas é verdade. Aliás, sempre foi. As consequências vão desde uma simples bursite no ombro esquerdo a uma condromalácia nos joelhos. Aí, não tem vez: ou se fazem exercícios, sejam de musculação, sejam de reabilitação, ou se espera a morte chegar.

Quanto a esses entretenimentos, é inevitável a sua presença no progresso infanto-juvenil. Outros, facultativos, vão preenchendo o tempo do indivíduo quase que por osmose, e ele nem se dá conta. Pois é. Eu não me dei conta que, salvo o esporte enquanto disciplina que garantia parte das notas bimestrais, a arte viria a dar significado à minha existência não muito bem compreendida até hoje. Não sei se isso é coisa de artista ou se acontece mesmo. O fato é que talvez parte da minha introspecção venha daí, e eu sinceramente, em algumas horas, até que me sentia bem sozinho comigo mesmo. Uma voz começou a brotar intimamente, o primeiro som. Não era uma voz comum, tinha o canto de uma sereia. Seduziu-me desde o início. Uma embriaguez! E eu tinha apenas 5 anos completos! Não perguntem como explicar tal feito porque há mais de 05 décadas que não tenho sequer uma resposta.

O primeiro som! Diferentemente de um ruído, o som nos transmite um significado e, por sua vez, é classificado como música. Essa dama que há milênios nos encanta com o seu dom de iludir, que há milênios nos emociona com sua capacidade de nos transformar, não sai de mim; aliás, nunca saiu. A prova disso é que cultivei todas as pérolas musicais em uma coleção de clássicos, doada por uma inquilina de papai quando eu somava aproximadamente 15 anos completos. Antes, ainda no período infantil, é claro, tive os meus tios, amantes da música erudita. Bons professores que eram iam instigando minha curiosidade, e eu, sem saber direito, ia exercitando em mim o gosto pela apreciação musical… Voltando à inquilina. Ela era, à época, uma senhora de seus 50 e poucos anos e havia adquirido a coleção pela Revista Caras, um encarte nacional que se ocupava de reportagens sobre a vida e obra de celebridades e havia lançado um suplemento cultural sobre a biografia de inúmeros compositores da música erudita. O apêndice era composto de um CD contendo músicas do compositor, interpretadas por músicos e filarmônicas do mundo todo, e de um caderno com informações sobre a trajetória do respectivo gênio. A cada edição da revista, um nova história sobre um talento musical se apresentava para quem desejasse conhecê-la. Enfim, tendo por mamãe uma enorme amizade e sabendo do meu interesse, essa gentil e solitária senhora não pensou duas vezes:

― Você quer todos esses CDs? ― perguntou-me percebendo os meus olhos brilhantes.

― Posso mesmo?! ― eu não me continha de tanto fascínio.

Peguei o material discografado em laser e corri para casa para ouvi-lo no aparelho que tinha em meu quarto, o meu retiro até a atualidade quando preciso meditar. Sentia um alívio na alma sempre que lia a história de vida de todos aqueles prodígios da música, sobretudo os que compunham para piano, o instrumento que conseguia sobre mim, com sua elegância e nobreza de estilo, hipnotizar-me cada vez que eu reconhecia sua timbre característica. Foi a partir daí que me aprofundei nos estudos histórico-musicais mesmo sem o saber teórico e prático que todo interessado em estudar tal arte carece ter se quer tornar-se pelo menos um aspirante a virtuose. Essa lacuna, deixada em parte pela falta de recursos financeiros, naquele tempo, para obter um piano clássico, terminou preenchida pelos quesitos análise e apreciação musical, que, muitos anos depois, eu descobriria se tratarem de disciplinas do currículo escolar dos cursos técnicos e de graduação na área nas diversas universidades do Brasil. E tudo se deu graças ao som que veio do silêncio! Sim, porque para desenvolvermos o gosto pela música, seja ela erudita e de origem europeia, seja ela popular (e aí depende de cada nação), é preciso ouvirmos o silêncio que há em nós. “Não haveria som/se não houvesse o silêncio…”, quiçá esses versos de Nelson Motta, musicados por Lulu Santos, exemplifiquem o meu escólio.

As ideias inatas e musicais estavam em estado de latência, isto é, não se perderam. Continuaram em mim adormecidas, esperando a alvorada. Os primeiros raios de sol as despertaram. Mas a manhã demorou a nascer, como todos nós que necessitamos de tempo; e este é de Deus, não nosso. As noites eram mais longas antigamente. Para sobreviver a escuridão, eu contava com a literatura, outro som, só que feito de palavras. Essa dama da noite vinha me fazer companhia ao chamado de papai quando contava histórias para mim antes do sono; uma prática que, nos dias de hoje, infelizmente, não existe mais. O tempo passou até que na juventude (lá pelos idos de 1996) eclodiu a primeira vitória com as letras ― um prêmio escolar pela escrita de um romance em prosa, informação já compartilhada, creio, em outro texto escrito. Sentia que ao escrever, especialmente um poema, era como se compusesse uma letra de música. Será que eu já fazia MPB?! Pelo visto, na noite fria, de vez em quando, apontava o Sol da meia noite. Porém, novamente o silêncio era ouvido, e a música que se fazia ouvir pelas palavras de cada verso e estrofe me mostrava que, mesmo em outro campo da arte, era possível ser notada. Ela também me demonstrava ser totalmente adaptável a outros terrenos, e isso era incrível ao meu olhar adolescente!

O sonho não acabou. Finalmente, a manhã que eu esperava nasceu. Pude respirá-la com todas as minhas forças, acolher suas melodias, seus acordes, seu ritmo em vários compassos regulares e irregulares. Todos eles com a ajuda do piano. Mágico! No entanto, a magia, no fim das contas, está no transmitir. Usa-se o cérebro para se compreender a música; em seguida, o coração para senti-la. Por último, todo o pensamento e todo o sentimento são repassados aos ouvintes a quem queremos tocar, transformar com a única intenção de praticar o bem. Sempre acreditei no poder da palavra, mas especialmente no poder do som. A música que eu queria tocar, compor, improvisar era para o bem dos outros. Era para levar alento aos ouvintes, à humanidade. Belíssimas canções eruditas ou populares integrariam o meu repertório e fariam um enorme bem ao Brasil. Os possíveis aplausos que eu receberia em cada apresentação pública me dariam a certeza da missão cumprida. Um brinde à boa música!

 

 

Por Paulo Caldas Neto