Nado sem pensar na correnteza

17 de Janeiro 2023 - 19h46
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Millôr Fernandes tinha uma frase precisa para indicar o papel que a imprensa, numa democracia, deve ter: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.” 

Dito de outra forma: o jornalismo existe para dizer aquilo que o poder não quer ouvir, para, entre outras coisas, exercer o papel de fiscalizar o poder, mantendo as instituições sob vigilância. Oposição, no sentido de fiscalizar jornalisticamente, é a atitude recomendada em relação a todos os poderes, não somente a parte deles; é dever do jornalista estar vigilante a todos os lados e não somente a um. Caso escolha um lado para fiscalizar e seja dócil a outro, deixa de ser jornalista e se torna publicitário ou assessor de imprensa.

Desde o dia 8 de janeiro, quando uma malta de alucinados invadiu, em Brasília, a sede dos três poderes, grande parte da mídia tupiniquim assumiu o papel de assessoria de comunicação do governo Lula.

Cabe às instituições e a todo cidadão brasileiro defender o regime democrático, pois o fim dele sepulta os direitos individuais. A defesa da democracia, porém, não significa escancarar as portas, de forma acrítica, para os projetos políticos de grupos específicos.

Gosto de nadar contra a correnteza e, por isso, abandono – de certa forma, sem abandonar por completo – o furor presumidamente democrático e volto os olhos para o plano terreno e para questões comezinhas, como a estratégia que Lula e o PT punham em prática, até que veio o furacão do último dia 8, de demonizar os opositores e de reivindicar o monopólio absoluto da verdade, como foi possível constatar na posse do ministro-chefe da Advocacia Geral da União (AGU), Jorge Rodrigo Messias, ao anunciar a criação de uma Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia, com competência para representar a União “em demandas e procedimentos para resposta e enfrentamento à desinformação sobre políticas públicas”.

A formulação é melindrosa e esconde uma armadilha, porquanto nada haver para tolher o governo de classificar uma opinião como desinformação; algum “iluminado”, visando impedir presumidas mentiras que possam prejudicar o funcionamento do regime democrático e do Estado, pode criar constrangimento a críticos do governo.

O próprio advogado-geral da União reconheceu que não há lei que defina o que é desinformação, mas ainda assim pensou em criar tal órgão e, pior, apontou que a AGU poderia definir o que seria desinformação.

Na mesma frente de batalha, Paulo Pimenta, secretário de Comunicação Social da Presidência, anunciou a criação da Secretaria de Políticas Digitais, estrutura que funcionaria no Palácio do Planalto para “combater a desinformação e o discurso do ódio nas redes sociais”.

Numa democracia, não cabe ao governo determinar o que é desinformação, tampouco montar estrutura devotada a combater discurso de ódio, expressão genérica utilizada por grande parte da esquerda para qualificar as críticas de opositores.

Achou pouco?

O ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Sílvio Almeida, anunciou nada mais, nada menos, a criação da Assessoria Especial de Defesa da Democracia, Memória e Verdade. Coisa do Grande Irmão.

Pode não haver razão alguma para duvidar das boas intenções de Sílvio Almeida, jurista conceituado e com histórico de defesa dos direitos humanos, mas não cabe ao governo estabelecer o que é e o que não é verdade ou ser guardião da memória de um país. Os regimes autoritários começam assim e quando se consolidam já são donos da informação, da memória e da verdade.

***

Alguém precisa alertar à imprensa brasileira que quando a militância entra por uma porta, o jornalismo sai por outra. Ou como dizia o grande George Orwell: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade.”

 

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