Diego Campelo/Grande Ponto

“Estou me arrumando para ir pra guilhotina, ou seja, para o trabalho”. Foi esse o desabafo feito pelo gari efetivo da Prefeitura do Natal João Batista Xavier em um vídeo divulgado nas redes sociais. Ele está assustado com as recentes mortes de colegas de trabalho vítimas da Covid-19. Só no mês de março foram cinco óbitos de funcionários, entre efetivos e terceirizados da Urbana, de acordo com o Sindicato dos Trabalhadores em Asseio, Conservação, Higienização e Limpeza Urbana do RN (Sindlimp).

O sindicato reivindica a vacinação em massa desses profissionais e, para isso, acionou a Justiça estadual, já que as solicitações feitas às secretarias de Saúde de Natal (SMS) e do RN (Sesap) sequer foram respondidas, de acordo com o Sindlipm.

A Urbana não tem um levantamento que abarque dados de todos os trabalhadores, entre efetivos e terceirizados, que vieram a óbito por Covid-19 durante toda a pandemia, o que acaba dificultando se fazer um raio-x mais exato da situação. De acordo com o Sindlimp, que também não possui essa compilação, cinco trabalhadores morreram de covid-19 só em março de 2021.

Em contato com a Urbana, a reportagem do portal Grande Ponto apurou que, dos trabalhadores efetivos da empresa, três garis e um técnico de nível médio que trabalhava no setor médico morreram de Covid-19 durante a pandemia. Ainda segundo a empresa, atualmente há 88 trabalhadores – entre garis e profissionais de outras áreas - afastados da Urbana devido a comorbidades.

A empresa municipal explica que, quando uma turma de garis apresenta um caso suspeito, todos os demais da turma são afastados por precaução, até que se confirme ou não a ocorrência da doença.

Os cuidados, no entanto, não tranquilizam João Batista Xavier. Ele diz que nunca teve tanto medo de trabalhar como está tendo agora. O profissional conta que vai ao trabalho a pé para não pegar ônibus, onde ele sabe que há aglomeração de pessoas diariamente; durante o expediente, procura ficar distante dos colegas de trabalho e na hora de se alimentar só vai ao refeitório quando há poucas pessoas no local.

“Mas será que isso vai resolver meu problema? Estou vendo meus amigos morrendo e as autoridades da Urbana parece que estão satisfeitas. Eu nunca tive tanto medo de ir trabalhar como estou tendo agora”, disse o funcionário da Urbana, que considera ser “uma questão de vida ou morte ir para o serviço”.

Genildo Anderson, que também é gari efetivo do município de Natal, defende que a categoria precisa ser vacinada, pois está diariamente em contato com a população. Ele conta um pouco sobre a angústia de ver muitos colegas de trabalho sendo contaminados pela Covid-19, alguns ficando em estado grave e outros morrendo vítimas da doença. Genildo foi contaminado no início da pandemia, mas teve apenas sintomas leves.

“Com certeza a gente tem medo, porque tem colegas de trabalho que faleceram decorrente da covid e tem muitos colegas de trabalho já que foram intubados e saíram, que se contaminaram, mas que, graças a Deus, por terem imunidade boa, não vieram a óbito. Mas a gente não sabe, essa doença ainda é nova, essa doença tem algumas mutações que a ciência não conhece e a gente tem medo” disse o trabalhador.

VACINAÇÃO

O Sindicato dos Trabalhadores em Asseio, Conservação, Higienização e Limpeza Urbana do RN (Sindlimp) protocolou, no dia 26 de fevereiro, pedidos à Secretaria de Saúde de Natal (SMS) e à secretaria estadual (Sesap) para incluir os trabalhadores da Urbana como prioridades na vacinação contra a Covid-19. De acordo com o presidente do sindicato, o ex-vereador de Natal Fernando Lucena, até hoje as solicitações não foram sequer respondidas.

Diante da falta de respostas, o sindicato acionou a Justiça para que o pedido seja atendido. “Os garis estão morrendo, eles são linha de frente. Os serventes de limpeza dos hospitais foram todos vacinados, como é que os garis, que estão levando o lixo do hospital, não vão ser vacinados? Já que o prefeito de Natal e os secretários de saúde querem que o gari morra, vamos entrar na Justiça pra garantir a vacina”, disse o presidente do Sindlimp.

A ação, que tramita na Primeira Vara da Fazenda Pública de Natal, visa obrigar a Prefeitura de Natal, por meio da secretaria municipal de saúde, a incluir os garis no Plano Municipal de Imunização (PNI).

Além dos funcionários efetivos da Urbana, a cidade também conta com trabalhadores terceirizados de duas empresas: a Zelo e a Marquise. De acordo com o presidente sindical, há cerca de 25 trabalhadores dessas empresas que estão afastados de suas funções atualmente por testarem positivo para a Covid-19.

Por meio de nota, a Marquise informou que “todos os colaboradores contam com equipamentos de segurança e estão trabalhando seguindo rígidos protocolos sanitários para preservar a saúde de todos”. Questionada sobre quantos trabalhadores da empresa perderam a vida para a Covid-19, a empresa se limitou a dizer que não fornece dados relacionados à saúde dos funcionários. A reportagem não conseguiu contato com a empresa Zelo.

SECRETARIAS

A Secretaria de Estado da Saúde do RN (Sesap) disse que não recebeu solicitação do sindicato para inclusão dos trabalhadores da Urbana como prioridade na vacinação, por isso não irá se posicionar. Já a secretaria de saúde de Natal (SMS) não respondeu aos contatos feitos pela reportagem.