Créditos: Andrew Harrer/Bloomberg
O recuo dos Estados Unidos em medidas duras contra o Brasil — como tarifas comerciais e a inclusão de autoridades do Judiciário brasileiro na lista de sanções da Lei Magnitsky — teve menos relação com uma mudança estratégica em Washington ou com ganhos diplomáticos do governo Lula e mais com o perfil imprevisível de Donald Trump e sua ruptura política com Jair Bolsonaro. A avaliação é do ex-embaixador americano John Feeley, em entrevista à BBC News Brasil, segundo O Globo.
Para Feeley, Trump abandonou Bolsonaro assim que o ex-presidente brasileiro deixou de ser politicamente útil. “Trump não tolera perdedores”, afirmou, destacando que a aproximação entre os dois foi circunstancial e baseada em discursos conservadores explorados de forma oportunista. Com a derrota e condenação de Bolsonaro, o vínculo perdeu valor.
O ex-embaixador avalia ainda que Trump nunca demonstrou real interesse pelo Brasil e conduz a política externa de forma impulsiva, personalista e sem estratégia clara, o que torna negociações instáveis. Nesse contexto, o fim da crise recente entre os dois países teria sido mais fruto do acaso do que de habilidade diplomática. Feeley afirmou que Lula “teve sorte” e aconselhou líderes a manter distância da órbita de Trump.
As tensões se intensificaram em julho, quando os EUA anunciaram tarifas de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros e sancionaram o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa. As medidas ocorreram em meio a pressões ligadas ao julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe. Em novembro, porém, Trump suspendeu as tarifas e retirou Moraes da lista de sanções.
Segundo Feeley, a reação inicial de Washington foi influenciada pelo lobby do deputado Eduardo Bolsonaro nos EUA, já que Trump é suscetível à pressão de lobistas com acesso ao poder.
O diplomata também comentou a relação dos EUA com a Venezuela, avaliando que novas sanções ao setor petrolífero atingem mais diretamente o regime de Nicolás Maduro, embora com impactos à população. Ele considera improvável uma invasão terrestre americana, prevendo apenas ações pontuais, como ataques com mísseis, para evitar custos políticos e militares.
Por fim, Feeley afirmou que o Brasil pode exercer um papel indireto como exemplo institucional. Segundo ele, a resposta brasileira aos ataques à democracia, como os atos de 8 de janeiro, demonstra respeito aos limites constitucionais e poderia servir de referência aos Estados Unidos, especialmente diante dos desafios democráticos enfrentados por ambos os países.


