23/06/2019 10:00

Democracia em Vertigem: cinema que encanta, realidade que apavora

Fotos: Capturas de Tela

Democracia em Vertigem: cinema que encanta, realidade que apavora

É impossível dizer que, sem a atual ruptura ideológica de nossa sociedade, o recente lançamento original Netflix teria a repercussão que está tendo. Num país apaixonado por entretenimento escapista, que pouco faz para reconhecer o cinema nacional e é machista, é difícil acreditar que um documentário brasileiro dirigido por uma mulher, ganharia tanta voz.

Felizmente – ou não –, a disputa travada em terras tupiniquins acabou deixando uma parcela representativa da população mais interessada em política, o que permitiu maior visibilidade a obras desse tipo.

Dirigido pela sensível Petra Costa, Democracia em Vertigem (2019) é um recorte histórico assustador e dolorido do atual momento vivido pelo Brasil.

Acompanhando a ascensão e declínio do governo “petista”, o filme costura registros que vão desde a eleição de Lula, em 2003, até à vitória de Jair Bolsonaro nas urnas. A diretora não faz questão de esconder sua filosofia de esquerda, pelo contrário. Sua ideologia é apontada algumas vezes no decorrer da obra e funciona como um filtro para a abordagem séria que é proposta aqui. Por exemplo, quando comenta a participação do ex-presidente Lula nos depoimentos à Lava Jato, a própria Petra deixa claro jamais ter se convencido das acusações, mas também não toma o acusado por inocente em momento algum.

Essa é uma estratégia que permite aos espectadores sensatos diferenciarem opiniões – como os relatos da mãe da diretora sobre as conquistas do PT – e fatos – como a motivação frágil para concretizar o Impeachment de Dilma e o envolvimento de Michel Temer nos bastidores.

Por outro lado, quando opta por dar espaço ao forte discurso feito por Lula antes de se apresentar à prisão e mostrá-lo nos braços do povo, permite que opositores mais fervorosos ignorem que aquelas imagens refletem a popularidade do político e as tomem como publicidade partidária.

Imagem histórica da popularidade de Luiz Inácio "Lula" da Silva

De qualquer forma, o filme não está preocupado em melhorar a imagem da esquerda ou manchar a da direita, mas em questionar alguns movimentos políticos sob a luz da democracia. Tanto que não omite as repercussões contrárias ao ex-governo. Na mesma medida que mostra a tristeza de um dos lados, mostra as comemorações efusivas do outro.

Democracia em Vertigem também tenta compreender, através de alguns depoimentos, o que fez o PT se enfraquecer tanto perante o poder político e, principalmente, à população, colocando alguns dedos em feridas ainda não cicatrizadas.

Dona de uma capacidade singular de contar histórias, Petra tem o dom de universalizar momentos íntimos e pessoais, quem teve a oportunidade de assistir o tocante Elena (2012) compreende bem o que estou falando.

Aqui, a diretora constrói uma história em duas escalas distintas. A mesma ruptura que divide o país também separa sua família. Do lado que apoia as recentes mudanças do Poder, os avós que enriqueceram por serem sócios de uma importante empreiteira; do que se opõe, os pais militantes da esquerda que foram presos durante a Ditadura Militar.

Mesmo com uma voz amena, a cineasta consegue provocar incômodos através do texto forte e reflexivo, seja pela leitura corporal que faz de Michel Temer no dia da posse de Dilma – remetendo a um aparente desconforto dele, desapercebido pela população – ou pelas palavras colocadas ao fim do documentário, que causam uma angustia apavorante:

Como lidar com a vertigem de ser lançado em um futuro que parece tão sombrio quanto nosso passado mais obscuro? O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que se revela é uma imagem ainda mais assustadora de nós mesmos?

Simbologia: a dificuldade de preservar o lema de um país que sucumbe aos interesses particulares dos governantes.

A seleção de imagens consegue causar arrepios através de atrocidades como Jair Bolsonaro, num ato completamente desumano, provocar Dilma ao enaltecer seu torturador, Carlos Brilhante Ustra; ou mostrando entusiasmado as fotos dos presidentes do período de Ditadura, pendurados em seu gabinete.

Também conseguem ser simbólicas ao executar enquadramentos de efeito, como os planos do Congresso Nacional que dão imponência às torres, quando quer mostrar a força dos políticos, ou que as diminuem, refletindo a corrupção que oprime.

Dois momentos específicos foram particularmente significativos para mim. No primeiro, um funcionário limpando, com a mão, a bandeira brasileira no carpete do Senado e, em seguida, usando um objeto para reforçar a visibilidade das palavras “Ordem e Progresso”. No segundo, uma das responsáveis pela limpeza do Palácio do Planalto lamentando não poder limpar a sujeira do país com um pano, além de demonstrar uma profunda – e honesta – confusão sobre a existência da democracia.

Democracia em Vertigem é um soco no estômago. Mostra a inversão de valores perigosa que atinge a nação e que busca justificar o injustificável através do eco ignorante de quem berra mais alto. É cinema da mais alta qualidade, mostrando com beleza e sofisticação o reflexo torpe de uma nação coberta pela poeira da corrupção.

 

Nota 10/10

PUBLICIDADE

MAIS ACESSADAS

ÚLTIMAS NOTÍCIAS