11/06/2019 21:02

Chernobyl e o terror da ignorância

Fotos: Capturas de Tela

Chernobyl e o terror da ignorância

Por João Victor Wanderley

Com os créditos iniciais numa tela preta, a cena é criada em nossas cabeças através do som. Alguém caminha até a geladeira, puxa uma garrafa de água, enche o copo e coloca uma fita para adiantar ou rebobinar. Ao dar o play, ouve-se:

Qual o preço da mentira?

Essa introdução simples evoca e destaca a pergunta que contamina algumas das personagens principais de Chernobyl (2019).

A minissérie em cinco capítulos da HBO acompanha todo o desastre na usina nuclear localizada em Kiev, na Ucrânia, desde o acidente e seus estragos até a descoberta do que motivou tamanha catástrofe.

A produção inicia completamente magnética, prendendo nossa atenção com a aflição de ver tantas personagens sem saber lidar com a situação. Quando a usina explode, estamos dentro da casa de Lyudmilla (Jessie Buckley) e Vasily (Adam Nagaitis). Em seguida, somos jogados à sala de controle, onde os engenheiros tentam entender o que ocorre.

Esse recurso é muito eficiente, pois nos ganha pelo mistério - nem os profissionais de lá compreendem -, pelo caos e pela empatia, ao vermos tantas pessoas em risco. A partir daí, a trama começa a ser montada como se fosse um quebra-cabeças, onde algumas peças importantes só aparecem posteriormente.

Os roteiros assinados pelo criador da série - Craig Mazin - são bem construídos, abrangendo o máximo de reações possíveis. Os efeitos colaterais nos contaminados, o medo dos soviéticos de que o mundo descubra sobre o desastre, o impacto no meio ambiente, a necessidade de evacuação da área, a manipulação política e a disputa de poder.

Produções desse tipo costumam verbalizar demais ao invés de mostrar. Isso acontece também pelo excesso de informações que precisam ser passadas. Porém, Chernobyl se esforça para não cair nesse erro. Reparem quando os mineradores, totalmente sujos, confrontam o limpíssimo Ministro do Carvão e como reagem a ele. A cena ainda reflete, visualmente, a diferença social entre as classes governante e operária.

Cenas de Chernobyl, HBO

Reparem também como o altruísmo de Ulana Khomyuk (Emily Watson) é apresentado. Ela abre mão de um remédio para ajudar uma secretária e desrespeita as normas de segurança ao limpar uma vítima contaminada por radiação.

Aliás, são os cientistas que demonstram empatia com a população, enquanto os líderes do governo apenas se preocupam em manter a imagem. Um bando de gestores ignorantes mais preocupados em não serem questionados e em não admitirem seus erros do que em salvar o máximo de pessoas possível.

A obra também acerta ao não ser impessoal quanto à abordagem da população. Ao construir a relação de Lyudmilla e Vasily, nos entrega uma ligação emocional maior com as grandes vítimas. É óbvio que ver um igual sofrer nos causa dor e comoção, mas quando o “conhecemos”, o impacto é mais forte. Cenas como a da vala, que encerra o terceiro episódio, ganham outro significado.

As atuações são muito importantes para dar peso a tudo o que vemos. Stellan Skarsgård apresenta Boris Shcherbina com arrogância, mas, aos poucos, se torna em compreensível. Jared Harris transforma Valery Legasov em alguém crível, dono de muito conhecimento e palpável insegurança. Emily Watson é contundente ao dar retidão moral à Ulana, além de ter carisma e ótima química com os outros dois.

Dirigindo todos os episódios, Johan Renck brinca com a linguagem cinematográfica de forma estonteante. Consegue dar um ar documental, ao apostar na câmera de mão - que também nos coloca dentro da confusão -, ao mesmo tempo em que cria uma atmosfera de guerra e terror. As personagens parecem ir em direção a uma batalha contra um inimigo intangível, bem como parecem atormentados pela tensão psicológica.

Explorando a dor e a tragédia de forma inteligente, Renck nos provoca sem jamais ser apelativo. Ao lado do competente diretor de fotografia Jakob Ihre, ainda é capaz de extrair beleza da tragédia quando mostra famílias observando o desastre, banhados da desconhecida fuligem radioativa, e quando duas pessoas num hospital conversam sobre o que uma delas vê através da janela.

As escolhas de enquadramentos são eficientes. Não só criam fotogramas esteticamente impecáveis como empregam valor narrativo. Reparem no primeiro episódio, quando a câmera desliza frontalmente e se contrapõe ao último, no tribunal, dois momentos de uma mesma personagem.

No primeiro, o movimento preciso reflete a decisão firme do que se segue pouco depois; no segundo, o enquadramento torto dialoga com a indecisão. Ainda têm as vacilantes câmeras de mão durante as tensas reuniões, representando o medo e as divergências.

Ainda destaco o frame onde uma pessoa é enquadrada por duas portas abertas e está diante de uma terceira, fechada. Aquele instante representa seu emocional, presa àquela situação e impedida de seguir em frente para contribuir...

Chernobyl é um relato forte e incômodo de uma tragédia dolorosa. Recria o caos do momento e mostra como arrogância e ignorância são perigosos. Um produto audiovisual de altíssima qualidade que nos faz indagar porquê a humanidade insiste em se sabotar, e que te deixa, ao fim, com a mesma pergunta ecoando por bastante tempo... Qual o preço da mentira?

Nota 10/10

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