Plano Detalhe

19/07/2019 19:48

O Rei Leão (2019): “Eu vejo o futuro repetir o passado”

Fotos: Divulgação

O Rei Leão (2019): “Eu vejo o futuro repetir o passado”

Por João Victor Wanderley

Escrita por Cazuza e lançada em 1988, O Tempo Não Para traz a emblemática frase citada no título desse texto. Pode-se interpretar que “Eu vejo o futuro repetir o passado” refere-se à sociedade brasileira e à interrupção de sua evolução social, não faz sentido parecer moderno e propagar conceitos e costumes ultrapassados.

Obviamente não há relação entre a obra do poeta e o novo lançamento da Disney, mas me permito essa associação uma vez que a referida frase ecoou em minha cabeça após o término da sessão de O Rei Leão (The Lion King, 2019). Não que eu ache a mensagem ultrapassada, mas faltou um frescor que justificasse a existência do remake.

Após ser apresentado na Pedra do Reino como o futuro sucessor de seu pai, o rei Mufasa, Simba precisa aprender as responsabilidades reais, lidar com o amadurecimento e com seu ambicioso tio Scar, que almeja o trono.

Desde que começou a adaptar suas animações clássicas com atores reais, a Disney tem adotado mais sobriedade, maior proximidade com nossa realidade, e o diretor Jon Favreau transmite isso com sucesso aqui. Apesar de ainda ser uma animação, o nível de realismo da computação gráfica nos permite compreender como seria O Rei Leão caso filmado com bichos de verdade.

Logo, o grande mérito é o visual arrebatador. Os efeitos beiram à perfeição, salvo alguns poucos momentos que denunciam a virtualidade – como, eventualmente, a textura borrachuda de Zazu ou o tom de cinza do Pumba, que destoa do colorido encantador de onde vive. Antílopes, elefantes, suricatos e os próprios leões são completamente convincentes.

Sob o olhar de Caleb Deschanel, a fotografia equilibra bem a utilização da luz, seja no nascer do sol maravilhoso, na cor viva do ambiente ou em passagens menores, como na curta cena onde Rafiki é iluminado por vagalumes.

(Imagem: Capturas de Tela / Montagem: João Victor Wanderley)

Outra escolha que reforça a postura mais realista adotada aqui é o afastamento da atmosfera espetaculosa da obra original. Os animais não trazem as expressões humanas, agora se portam como bichos. Isso afeta, por exemplo, os números musicais, que se tornam mais acanhados. A sequência em que Scar canta para as hienas ilustra a sobriedade do projeto, sendo executada com mais objetividade e lógica dentro do universo proposto.

Porém, nada disso justifica a existência desse remake. Alimentar franquias e reviver filmes já estabelecidos é o caminho mais rápido para os estúdios lucrarem, principalmente quando resgatam obras consolidadas – a nostalgia dos fãs sempre será um atrativo mercadológico. Refilmagens noutra época não deveriam se sustentar apenas no imaginário coletivo e oferecer outros olhares.

É necessário ter acréscimo à história, complementar o material referenciado, algo realizado por Aladdin (2019) em sua nova abordagem de Jasmine, por exemplo. É preciso também encontrar a própria identidade e sair da sombra do material original, funcionar por si só. Isso não acontece, já que a atual versão é exatamente igual à anterior. São os mesmos discursos, os mesmos acontecimentos, na mesma ordem e da mesma forma, trazendo de novo apenas a tecnológica e o tom mais sério.

Analisando essa realidade pretendida, destaca-se um distanciamento emocional em relação ao potencial já conhecido da trama. Embora o número musical de Scar funcione bem dentro da proposta, os demais parecem engessados pelos limites autoimpostos. A liberdade artística no filme de 1994 permitia números imponentes, coloridos, envolventes; agora, mesmo sendo correta a abordagem, perde força e impacto, os números são apáticos.

As músicas ainda carregam acordes de grandiosidade que destoam das sequências nada inspiradas de “dança”, como quando Simba canta sobre ser rei: música demais para quase nada de coreografia. Talvez até fosse o caso de evitar fazer um novo musical, mas não entrarei nesse mérito. Não cabe a mim dizer o que um filme deveria ou poderia ser.

(Cena da Debandada / Imagem: Captura de Tela)

A sobriedade interfere também na carga dramática. Se os protagonistas não se parecem com humanos, não reagem como tal. Isso não é um problema por si, mas afeta diretamente momentos marcantes como a icônica cena de Mufasa, que empalidece pelo comportamento animal ser mais distante do nosso. Uma coerência que põe a frieza da lógica acima do calor emocional.

Já a abertura ao som de Circle of Life e a debandada são prejudicadas por acontecerem com o máximo de fidelidade. Se antes marcaram pelo vigor e pela representatividade narrativa, hoje impressionam muito mais pela similaridade com o real.

Muitos fãs poderão ter uma experiência mais emotiva que a minha, o que – em palpite – atribuo à memória afetiva que boa parte do público traz para o novo filme. Isso me faz perceber como os maiores méritos desta versão vêm, na verdade, da primeira. Sejam as cenas que reaproveitam a magistral trilha de Hans Zimmer, a ideia de ciclo, a relação paternal forte ou a figura onipresente de Mufasa, as melhores coisas que estão aqui vieram diretamente de 1994, “um museu de grandes novidades”.

A construção das personagens é boa. Se o primeiro Simba sempre me pareceu irritante, sem saber separar pretensão de egoísmo, o segundo me é bem mais palatável. Sai a arrogância e fica o deslumbre de um príncipe afobado. Vi com a dublagem original e gosto bastante dos trabalhos de JD McCrary e Donald Glover, que vivem, respectivamente, o protagonista em suas fases infantil e adulta.

Mufasa repete a áurea imponente e edificante do rei justo, reforçada pelo retorno de James Earl Jones na dublagem e pelos enquadramentos onde trazem o leão quase sempre bem iluminado, conferindo um brilho enobrecedor. Scar é uma figura menos cínica e com o desrespeito mais evidente. A voz de Chiwetel Ejiofor parece não encaixar com a figura projetada na tela, mesmo com o ator desempenhando uma boa atuação.

Mas os melhores trabalhos vocais ficam a cargo de Billy Eichner e Seth Rogen como os hilários Timão e Pumba. A dupla tem ótimo timing cômico, mandando piadas com naturalidade, além de apresentarem boa química juntos. Disparados o ponto mais eficiente do projeto. Destaco ainda Alfre Woodard como Sarabi – deveria ter mais tempo de tela – e Beyoncé como Nala, que empresta uma voz doce e aconchegante.

O Rei Leão entretém, evoca a nostalgia e encanta visualmente, mas é um eco de sua própria referência. Enquanto a obra inspiradora segue imortal, a nova é efêmera, sobrevivendo até pouco depois dos créditos finais. Se coloca como escapismo passageiro por se limitar a replicar algo sem trazer nada diferente, mas, paradoxalmente, se beneficia por ser fiel a um material excelente, capaz de nos manter minimamente interessados. Se Cazuza cantou que o Tempo Não Para, a Disney mostrou como é possível parar no tempo.

Nota 7/10

18/07/2019 05:00

Adaptação de O Rei Leão chega à Natal; veja a programação!

Fotos: Divulgação/Montagem: João Victor Wanderley

Adaptação de O Rei Leão chega à Natal; veja a programação!

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 18 a 24 de julho:

O Rei Leão (The Lion King, 2019): Adaptação do clássico Disney de 1994, O Rei Leão retrata a jornada de Simba, filho do rei Mufasa e herdeiro da Pedra do Reino. Mas nem todos estão dispostos a aceitar tal sucessão, como Scar, irmão de Mufasa e ex-futuro rei. (10 anos, 118 minutos).

Amor à Segunda Vista (Mon Inconnue, 2019): Do dia para a noite, Raphael (François Civil) acorda em um universo paralelo onde nunca conheceu Olivia (Joséphine Japy), o amor da sua vida. Agora ele precisa reconquistar a sua esposa, mesmo sendo um completo estranho para ela. Enquanto Raphael tenta entender exatamente o que aconteceu, corre contra o tempo para não perdê-la. (12 anos, 117 minutos).

(Imagens: Divulgação/Montagem: João Victor Wanderley)

Continuam em cartaz:

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home, 2019): O amigão da vizinhança embarca com Ned, MJ e o resto da turma para curtir férias na Europa. No entanto, os planos de deixar os feitos heroicos para trás por algumas semanas são rapidamente frustrados quando ele, relutantemente, aceita ajudar Nick Fury a descobrir o mistério por trás de diversos ataques que espalharam o caos pelo velho continente. (10 anos, 130 minutos).

Turma da Mônica - Laços (2019): Com o desaparecimento de seu cachorro Floquinho, Cebolinha desenvolve um plano infalível para resgatá-lo. Para isso, ele vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos: Mônica, Magali e Cascão. Juntos, irão enfrentar desafios e viver grandes aventuras. (Livre, 96 minutos).

Annabelle 3 - De Volta Para Casa (Annabelle Comes Home, 2019): Determinados a impedir que Annabelle crie ainda mais caos, os demonólogos Ed e Lorraine Warren trazem a boneca possuída à sala de artefatos que fica trancada em sua casa, isolada em um local “seguro”, protegida por um vidro sagrado e com a benção de um padre. Porém, uma noite de horror os aguarda à medida que Annabelle desperta espíritos malignos na sala, que se voltam a um novo alvo: a filha de 10 anos dos Warrens, Judy, e suas amigas. (14 anos, 116 minutos).

Pets - A Vida Secreta dos Bichos 2 (The Secret Life of Pets 2, 2019): Após conhecer o irmão Duke e viver aventuras com seus amigos Gigi, Bola de Neve e Chloe, o cãozinho Max terá de se acostumar com mais um novo integrante na família. (Livre, 86 minutos).Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

Toy Story 4 (2019): Decidido a lutar pela felicidade de Bonnie, Woody parte em nova aventura para recuperar o novo brinquedo favorito da garota. Na jornada, o xerife e sua trupe se reúnem a novos e velhos amigos. (Livre, 100 minutos).

Os horários podem ser verificados nos sites dos cinemas

16/07/2019 18:09

Confira os indicados ao Emmy Awards 2019

Fotos: Divulgação

Confira os indicados ao Emmy Awards 2019

Principal premiação da televisão americana, o Emmy anunciou nesta terça-feira (16/07) os candidatos ao prêmio da cerimônia esse ano. O anúncio foi realizado pelos atores Ken Jeong, da série Community (2009 – 2015), e D'Arcy Carden, de The Good Place.

A cerimônia acontecerá em 22 de setembro. Confira abaixo os indicados nas principais categorias.

 

Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Drama

  • Gwendoline Christie - Game of Thrones
  • Lena Headey - Game of Thrones
  • Fiona Shaw - Killing Eve
  • Maisie Williams - Game of Thrones
  • Sophie Turner - Game of Thrones
  • Julia Garner - Ozark

Melhor Ator Coadjuvante em Série de Drama

  • Alfie Allen - Game of Thrones
  • Peter Dinklage - Game of Thrones
  • Nikolaj Coster-Waldau - Game of Thrones
  • Jonathan Banks - Better Call Saul
  • Giancarlo Esposito - Better Call Saul
  • Michael Kelly - House of Cards
  • Chris Sullivan - This Is Us

Melhor Atriz em Série de Drama

  • Emilia Clarke - Game of thrones
  • Jodie Comer - Killing Eve
  • Viola Davis - How To Get Away With Murder
  • Laura Linney - Ozark
  • Mandy Moore - This is Us
  • Sandra Oh - Killing Eve
  • Robin Wright - House of Cards

Melhor Ator em Série de Drama

  • Jason Bateman - Ozark
  • Sterling K. Brown - This is Us
  • Kit Harington - Game of Thrones
  • Bob Odenkirk - Better Call Saul
  • Billy Porter - Pose
  • Milo Ventimiglia - This is Us

Melhor Série de Drama

  • Better Call Saul
  • Bodyguard
  • Game of Thrones
  • Killing Eve
  • Ozark
  • Pose
  • Succession
  • This is Us

(Imagem: Divulgação)

Melhor Ator Coadjuvante em Série de Comédia

  • Henry Winkler - Barry
  • Tony Shalhoub - The Marvelous Mrs. Maisel
  • Alan Arkin - O Método Kominsky
  • Tony Hale - Veep
  • Stephen Root - Barry
  • Anthony Carrigan - Barry

Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Comédia

  • Kate McKinnon - Saturday Night Live
  • Alex Borstein - The Marvelous Mrs. Maisel
  • Anna Chlumsky - Veep
  • Betty Gilpin - GLOW
  • Marin Hinkle - The Marvelous Mrs. Maisel
  • Sarah Goldberg - Barry
  • Olivia Colman - Fleabag
  • Sian Clifford – Fleabag

Melhor Ator em Série de Comédia

  • Anthony Anderson - Black-ish
  • Don Cheadle - Black Monday
  • Ted Danson - The Good Place
  • Michael Douglas - O Método Kominsky
  • Bill Hader - Barry
  • Eugene Levy - Schitt's Creek

Melhor Atriz em Série de Comédia

  • Christina Applegate - Dead To Me
  • Rachel Brosnahan - The Marvelous Mrs. Maisel
  • Julia Louis-Dreyfus - Veep
  • Natasha Lyonne - Boneca Russa
  • Catherine Ohara - Schitt's Creek
  • Phoebe Waller-Bridge - Fleabag

Melhor Série de Comédia

  • Barry
  • Fleabag
  • The Good Place
  • The Marvelous Mrs. Maisel
  • Boneca Russa
  • Veep
  • Schitt's Creek

(Imagem: Divulgação)

Melhor Programa de Variedades

  • The Daily Show with Trevor Noah
  • Full Frontal with Samantha Bee
  • Jimmy Kimmel Live!
  • Last Week Tonight with John Oliver
  • The Late Late Show with James Corden
  • The Late Show with Stephen Colbert

Melhor Reality Show de Competição

  • The Amazing Race
  • Ninja Warrior
  • Nailed It!
  • RuPaul's Drag Race
  • Top Chef
  • The Voice

Melhor Filme Para TV

  • Bandersnatch - Black Mirror
  • Brexit
  • DeadWood
  • Rei Lear
  • My Dinner with Hervé

Melhor Atriz em Série Limitada ou Filme Para TV

  • Amy Adams - Objetos Cortantes
  • Patricia Arquette - Escape at Dannemora
  • Aunjanue Ellis - Olhos que Condenam
  • Joey King - The Act
  • Niecy Nash - Olhos que Condenam
  • Michelle Williams - Fosse/Verdon

Melhor ator em série limitada ou filme para TV

  • Mahershala Ali - True Detective
  • Benicio del Toro - Escape at Dannemora
  • Hugh Grant - A Very English Scandal
  • Jared Harris - Chernobyl
  • Jharrel Jerome - Olhos que Condenam
  • Sam Rockwell - Fosse/Verdon

Melhor Minissérie

  • Chernobyl
  • Escape at Dannemora
  • Fosse/Verdon
  • Objetos Cortantes
  • Olhos que Condenam

(Imagem: Divulgação)

15/07/2019 05:00

Septo – 2ª Temporada: websérie potiguar retorna mais madura

Septo – 2ª Temporada: websérie potiguar retorna mais madura

Por João Victor Wanderley

Três anos separam as duas temporadas de Septo (2016 – 2019), websérie potiguar que, apesar de uma estreia um tanto apática, ganhou prêmios e se firmou como um marco na produção audiovisual norte-rio-grandense. De lá para cá, o projeto teve tempo o suficiente para amadurecer e corrigir tropeços, resultando numa continuação mais sólida.

Em seu segundo ano, Septo segue acompanhando Jéssica (Alice Carvalho), uma jovem triatleta que teme a morte – após diagnóstico de câncer – ao passo que assume o controle da própria vida quando se entrega à paixão por Lua (Priscilla Vilela).

Logo de cara vemos Jéssica optar por um tratamento alternativo, evitando o procedimento cirúrgico sugerido pela médica. A necessidade de lidar com essa condição a fez se afastar de Lua, embora sinta falta dela. A saudade que ambas sentem uma da outra é evidenciada já no primeiro episódio, através da paixão e do desejo presentes no belo reencontro.

É verdade que nós, espectadores, não conseguimos sentir o peso desse afastamento, já que a obra não promove a separação das duas por um tempo significativo. Porém, é importante compreendermos que seis capítulos de dez minutos cada precisam ser bem aproveitados e sacrifícios são necessários. 

Um dos acertos do roteiro é encontrar mais espaço para o pai de Jéssica, Borges (Pedro Queiroga). Praticamente decorativo na temporada anterior, ele agora é mais presente e tem um arco próprio melhor desenvolvido. A dinâmica entre os dois é eficiente, seja quando ele tenta controlar a vida da filha – e é bacana a forma como o tema é revisitado, resgatando a problemática do passado sem se prender a ela –, ou quando demonstra ternura, como na linda cena no sofá em que a garota faz uma revelação e o pai tem uma postura amável – como deveria ser em situações desse tipo.

Septo traz beleza nos pequenos gestos (Imagem: Captura de Tela)

Além de momentos singelos, a série traz passagens dramáticas mais fortes, como a tocante carta escrita pela protagonista no final. Também acerta ao finalizar com um gancho interessante. Entretanto, não sai imune de algumas escolhas questionáveis. A chegada de Ana Paula (Carol Alves), por exemplo, sugere uma problemática que não se concretiza. A própria reação inicial de Jéssica é totalmente destoante das seguintes, como se a compreensão dela aparecesse do nada.

Outra escolha questionável é o mistério levantado no início e resolvido apenas no último episódio. De cara, cria-se uma expectativa por algo que facilmente desconfiamos não ser. O problema não está em causar um choque inicial, mas em sustentar um mistério que sucumbe à previsibilidade.

Por fim, a falta de química que anteriormente julguei existir entre o casal protagonista, na verdade, é reflexo de como Lua é construída. A postura serena e sábia composta por Vilela não é acompanhada com a mesma eficiência pelo texto, que oferece algumas frases de efeito nada convincentes. É destoante a relação entre a interpretação e as falas específicas que deveriam corroborar a essência da personagem.

Com uma direção diferente para cada capítulo, a série apresenta fluidez e identidade visual bem consolidada. Mesmo se permitindo uma distorção de lente num momento ou uma subjetividade maior noutro, todos os episódios parecem pertencer ao mesmo lugar, o que é importante para o todo.

A direção não tenta chamar atenção e nem arrisca movimentos ousados, se mantendo apenas funcional. Mas isso não é ruim, já que o texto e as atuações são os destaques. A fotografia de Júlio Castro entrega mais cor que na temporada passada, mas sem abrir mão do visual dessaturado. A escolha dialoga perfeitamente com a situação de Jéssica, que tem uma vida mais colorida, embora o brilho seja ofuscado pela doença.

Mais cor, pouco contraste. Septo usa sua estética para refletir sua trama (Imagem: Captura de Tela)

Já o áudio sofre com a inconstância na qualidade da captura e do tratamento. Existe um ruído que persiste a série quase toda. Inicialmente acreditei ser proposital – embora irritante –, como se viesse a representar alguma característica da protagonista, mas não. Mostrou-se alguma falha na captação. Ora aparece, ora não. Além disso, alguns diálogos parecem dublados, evidenciando uma sobreposição desarmônica com o ambiente.

Carregando a responsabilidade de protagonizar a trama, Alice Carvalho oferece mais uma atuação precisa. A atriz mostra firmeza quando necessário, mas é a vulnerabilidade que encanta.

Sua insegurança no relacionamento com uma mulher mais madura e completamente detentora de si é construída com sensibilidade, uma introspecção que transforma seu silêncio tão poderoso e esclarecedor quanto suas palavras. Também é importante destacar a cena com Queiroga, quando desabafa após tirar o pai de um bar. Forte principalmente pelo talento da atriz.

Priscilla Vilela coloca Lua mais próxima de Jéssica, quebrando a imagem fria e com certo distanciamento que se formou – para mim – na temporada anterior. Finalmente senti que o relacionamento não era unilateral. Aliás, as duas brilham após uma festa de aniversário, numa cena repleta de pesar e necessidade de atenção. A força do registro vem das atuações – que jamais recorrem ao exagero – e da escolha do diretor Victor Ciriaco, que grava tudo numa única tomada.

Septo ainda pode melhorar, seja na execução técnica ou na administração de sua história. Mas é inegável a evolução do projeto, que cresce mesmo diante da dificuldade que é produzir material de qualidade em terras potiguares.

 

Nota 7,5/10

OBS: Os seis episódios podem ser assistidos aqui.

12/07/2019 15:42

Atentado ao Hotel Taj Mahal é devastador

Atentado ao Hotel Taj Mahal é devastador

Por João Victor Wanderley

Em 26 de novembro de 2008, uma série de atentados terroristas sincronizados assolaram Mumbai, cidade de grande importância financeira para a Índia. Dentre os alvos estava o Taj Mahal Palace, hotel luxuoso que foi palco de uma chacina. É esta chacina que o diretor Anthony Maras retrata em seu potente filme de estreia.

Atentado ao Hotel Taj Mahal (Hotel Mumbai, 2018) acompanha as horas impiedosas proporcionadas por fundamentalistas religiosos dispostos a destruir tudo aquilo que consideram responsável pelo declínio dos costumes locais.

Apesar da estreia, Maras demonstra sobriedade técnica muito grande. Criar uma obra sem protagonista definido, guiada pela tensão e pavor da situação retratada, requer domínio da cinematografia. A construção da atmosfera asfixiante é o resultado da competente parceria entre direção, montagem, fotografia e som.

A montagem de Peter McNulty e do próprio Maras apresenta focos narrativos paralelamente, recurso que instiga a curiosidade do espectador. Ora vemos os terroristas executando o plano; ora acompanhamos os funcionários tentando salvar o máximo possível de pessoas – em destaque o garçom Arjun (Dev Patel) e o chefe de cozinha Oberoi (Anupam Kher) –; e ora temos a ótica das vítimas, representadas por mais tempo pelo casal Zahra (Nazanin Boniadi) e David (Armie Hammer).

A fotografia de Nick Remy Matthews utiliza planos fechados que transmitem a sensação sufocante das personagens encurraladas. Já os planos abertos ilustram o isolamento dos sobreviventes, como quando um deles é mostrado no hall de entrada aparentemente vazio e, num dos cantos da tela, vemos um criminoso à espreita.

Nick Remy Matthews acerta nos enquadramentos significativos

Por fim, o som funciona como um agravante de suspense. O filme sabe utilizar a imponência dos tiros no ambiente fechado, mas usa melhor ainda o silêncio para construir expectativa. A trilha sonora de Volker Bertelmann é provocativa e instigante.

Brutal e impactante, a violência adotada choca sem ser sensacionalista. A câmera jamais segura um enquadramento o suficiente para banalizar a tragédia, pelo contrário. Ao mostrar um mínimo necessário e cortar para quem atira, toda a parte mais gráfica se forma em nossas cabeças. Ficamos angustiados pela união precisa entre o visto e o oculto, como se a direção fosse até o limite entre relatar o horror e cultuar o sádico.

A frieza dos criminosos é extremamente importante para dar peso às atrocidades. A tranquilidade transparece o controle da situação, além de acrescentar uma camada de crueldade assustadora.

Se a primeira metade é atordoante, a segunda traz um respiro necessário, tanto para a plateia quanto para a própria narrativa. É muito complicado manter um nível tão alto de incômodo e tensão durante tanto tempo, o que torna compreensível a escolha por segurar um pouco o ritmo. Porém, isso esfria a experiência.

Com os próximos momentos de apreensão mais distantes, as cenas que preenchem os espaços empalidecem, mesmo que tragam informações úteis como onde e quantas vítimas estão se mantendo a salvo.

Os funcionários do hotel salvram muitas vítimas em 2008, na Índia

Além disso, a produção acaba se tornando repetitiva ao adotar o mesmo esquema de ação e reação para diferentes personagens: alguns decidem sair de onde estão, encontram um obstáculo e acabam encurralados, presos ou mortos. Isso ocorre mais que o necessário e até rende situações idênticas com as mesmas pessoas. Atentado ao Hotel Taj Mahal seria beneficiado se fosse mais curto, cortando os excessos.

Um ponto interessante no roteiro escrito por John Collee, em parceria com Anthony Maras, é a maneira como retrata os criminosos. Apesar da firmeza nos atos destes, existe um resquício de humanidade vista no deslumbre pelo luxo e no contato com uma comida mais elaborada. Fica claro que os jovens sonham com uma vida mais confortável e, até por isso, sucumbem à manipulação religiosa.

Mas também não há tentativas de transformá-los em figuras empáticas, apenas se dispõe a mostrar que, por trás do horror praticado em nome de um ideal, há dúvida ou mesmo uma intensão enviesada de nobreza, como na cena em que Imran (Amandeep Singh) faz uma ligação telefônica de um dos quartos do hotel.

Por outro lado, para poder criar dramaticidade e impacto emocional, o roteiro faz algumas personagens tomarem atitudes estúpidas como sair de um local que já está seguro para procurar alguém, que não se tem ideia de onde esteja, ou sair pelos corredores com a tranquilidade de quem passeia num shopping seguro.

É compreensível que se pretenda manipular o drama em prol da narrativa, mas o sacrifício da lógica é questionável. De qualquer forma, é preciso dizer que os sacrifícios rendem grandes cenas.

Dev Patel em cena significativa sobre preconceito

Num determinado diálogo, uma rica mulher branca demonstra medo de Ajurn. No meio da pressão psicológica, ela expõe seu preconceito com o homem que acabara de salvar diversas vítimas. Em sua humildade, o garçom chega até a mulher e explica a importância cultural que carrega em sua vestimenta. É um momento que se distancia do pavor gráfico do atentado, mas que dialoga com a essência extremista.

Sem ter o conhecimento necessário, a mulher reduz um homem bom a um estereótipo que, posteriormente, se dissolve através da conversa. Essa generalização preconceituosa rima com a motivação dos terroristas, que culpam a cultura ocidental pela morte de seus valores culturais.

A cena me fez refletir sobre os rumos que a intolerância instalada no Brasil pode levar nossa sociedade polarizada. Seja por posicionamentos poíticos, religião ou individualidades, os brasileiros se alimentam de ódio irracional. A cada dia, estamos mais individualistas e fundamentalistas – seja na política, na religião ou em nossas ideologias –, o que é um absurdo numa sociedade democrática, num Estado laico.

Não existe ideia, crença ou verdade particular que deva se sobrepor ao bem-estar de uma comunidade. A vida e a liberdade de todos também são obrigações nossas. Trilhamos um caminho perigoso e algo precisa ser feito urgentemente.

Precisamos evitar que as rupturas sociais se traduzam em violência, um rumo sem volta. Isso se faz com diálogos, ouvindo mais, explicando melhor e respeitando – assim como na cena que me despertou tal reflexão. Toda reação exagerada nasce de alguma ação, seja ela igualmente exagerada ou não. Que nossas ideias conflitantes não se transformem numa imposição armada, truculenta e desumana...

Atentado ao Hotel Taj Mahal é difícil, dolorido e pesado, mas também encanta pela qualidade de seu cinema. Brutal e chocante, desperta a empatia a partir do pior que a humanidade pode oferecer: sua irracionalidade.

 

Nota 8,5/10

11/07/2019 14:00

Sessão Review #1

Fotos: Divulgação

Seja por falta de tempo, demora a ter acesso ou mesmo por escolha sobre o que escrever, muitas das produções que assisto não recebem uma crítica aqui no Plano Detalhe. Escrever criteriosamente demanda tempo e esforço, não é algo simples.

Para oferecer, ao menos, um olhar superficial sobre o que foi visto e revisto, a Sessão Review traz comentários mais objetivos sobre as obras que ficaram de fora do blog.

Breaking Bad – 1ª Temporada (2008)

A criação de Vince Gilligan é um minucioso estudo de personagem. Através da narrativa calma, a série encontra tempo hábil para construir uma história sólida. O que vemos é um homem sério, honesto e muito familiar sentir o peso de um diagnóstico de câncer e que, indignado com a ideia de deixar a família endividada, se perde no espaço cinzento entre o certo e o errado ao dedicar seus conhecimentos químicos na produção de Metanfetamina.

O roteiro preciso, a atuação brilhante de Bryan Cranston e a direção que domina a semiótica cinematográfica são elementos fundamentais para dar início a uma das desconstruções mais complexas de uma personagem.

A primeira temporada de Breaking Bad alimenta um dilema moral eficiente através da intensa transformação pessoal. Um primeiro passo bem mais coeso do que eu me lembrava. Nota 9/10

Capitão América – Guerra Civil (Captain America: Civil War, 2016)

De uma maneira geral, a maior parte dos filmes da Marvel são genéricos, seguindo fielmente a fórmula de sucesso do estúdio. Assim, quando surge um Guerra Civil, mesmo não fugindo muito à regra, vale a pena destacar pela proposta de desconstrução oferecida.

O filme não é apenas uma reunião de heróis trocando porrada, tem um envolvimento pessoal ao desencavar o passado de algumas das personagens. Traz a dualidade curiosa entre Steve Rogers e Tony Stark. Diante da proposta do Governo de monitorar os heróis, o Capitão se opõe ao Estado enquanto o Homem de Ferro baixa a cabeça – por peso na consciência. Essa inversão de papéis é bem-vinda, mesmo que tratada com superficialidade.

Os irmãos Russo dirigem com vigor. Câmeras de mão dão veracidade em muitos momentos, a utilização de cortes secos cria o caos das cenas de luta, que ainda contam com coreografias bem ensaiadas e com ótimos efeitos especiais. Capitão América – Guerra Civil traz motivações concretas e embates plausíveis, oferecendo uma pitada boa de substância. Nota 9/10

O Mecanismo – 2ª Temporada (2019)

Depois de uma primeira temporada visivelmente desequilibrada, onde um lado parecia ser mais vilanesco que o outro, O Mecanismo retorna com outra postura. Abrindo com o posicionamento de Ruffo (Selton Mello) sobre esquerda e direita se cegarem por suas ideologias, a produção equilibra o jogo. Agora, de fato, temos um mecanismo funcionando para promover toda a sujeira que banha nossa política.

A produção melhora a qualidade de seu som, corrigindo falhas que prejudicaram a compreensão de diálogos no ano anterior. As atuações também estão mais firmes, embora apenas o Ibrahim de Enrique Diaz brilhe. Diaz é carismático mesmo sendo completamente asqueroso.

Quanto à condução da trama, o roteiro gasta tempo demais na rivalidade de Ruffo e Ibrahim, se tornando algo mais policial. Enquanto isso, o esquema de corrupção envolvendo políticos e empreiteiros fica de lado, ressurgindo com vigor apenas quando remonta o processo de Impeachment de Janete, já ao fim.

A segunda temporada de O Mecanismo é melhor em relação à anterior, mas ainda tropeça na execução e nas prioridades narrativas que se impõe. Começa e termina bem, mas boa parte do meio cansa e desinteressa. Nota 7/10

Roman J. Israel (Roman J. Israel, Esq., 2017)

Com um início promissor, o filme escrito e dirigido por Dan Gilroy nos apresenta a um advogado brilhante no trato da lei, mas terrível no trato com gente. Acostumado a lidar com a papelada dos processos, Roman (Denzel Washington) decide assumir os negócios quando seu sócio – e rosto da empresa – enfrenta problemas de saúde.

A parceria é destinada a ajudar pessoas sem condições de uma boa defesa, mas está falida. A única maneira que Roman encontra de se sustentar e viabilizar uma ação coletiva que mudará os rumos da justiça é trabalhar numa grande empresa que enriqueceu e praticar uma advocacia que condena.

É nesse ponto que o filme se perde. Ao se ver tentado pelo lado financeiro, o protagonista simplesmente se distancia de sua moral e princípios e isos não é mostrado com coerência narrativa.

Mesmo com uma montagem ágil e bem executada, uma brilhante atuação de Denzel Washington e uma premissa instigante, Roman J. Israel perde fôlego, foco e coerência. Nota 6,5/10

Mistério no Mediterrâneo (Murder Mystery, 2019)

Costumo gostar dos projetos de Adam Sandler, de verdade. Sempre tive uma inclinação a me divertir com o tosco e ele é um ator que abraça a ideia. Só que seu último trabalho para a Netflix não condiz com isso.

O filme é chato, sem graça e muito cansativo, tudo isso porque se leva a sério demais. Além disso, Sandler está realmente tentando atuar – e até consegue se manter na personagem, só que ela não funciona. Ele se sustenta no filme quase todo com uma frustração quase papável.

Parece também não haver química entre ele e Jennifer Aniston, o que é estranho já que “funcionaram” em Esposa de Mentirinha (2011). Mistério no Mediterrâneo não faz rir, não intriga com o mistério do assassinato e nem tem o descompromisso que tanto gosto. Se sustenta apenas em poucas locações europeias bem fotografadas, cenas de ação razoáveis e na esperança que Sandler “estrague” algum momento para, enfim, salvar o filme. Mas isso não acontece... Nota 3/10

O Universo de Stranger Things (Beyond Stranger Things, 2017)

Lançado após o termino da segunda temporada de Stranger Things, essa série de sete episódios traz conversas com o elenco e os diretores de uma das produções mais aclamadas da atualidade. São reveladas algumas curiosidades das gravações, projeções sobre as personagens e informações do processo criativo, tudo conduzido com humor. Para quem se interessa por conversas de bastidores, é uma boa pedida. Sem Nota

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