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16/09/2019 05:00

Euphoria - 1ª Temporada: a juventude precisa ser compreendida

Fotos: Divulgação / HBO

Euphoria - 1ª Temporada: a juventude precisa ser compreendida

Por João Victor Wanderley

Já no primeiro episódio, Rue (Zendaya) dispara aos mais velhos: “Sei que a sua geração mandava flores e pedia permissão aos pais, mas estamos em 2019. Se você não for Amish, nudes são a moeda do amor. Então, pare de nos criticar.”. A frase sintetiza as diferenças entre as gerações Y e Z, bem como a falta de compreensão entre ambas. Assim, Euphoria (2019) apresenta a juventude estadunidense e nos mergulha em seus dilemas.

Em sua temporada de estreia, a série acompanha um grupo de adolescentes no ano final do Ensino Médio. Através do cotidiano e do resgate da infância, constrói uma juventude repleta de inseguranças, julgamentos, conflitos e perigosas fugas da realidade.

O criador Sam Levinson aposta numa estrutura narrativa não linear. Cada episódio é centrado na vida de uma personagem, que é construída com flashbacks e acontecimentos no presente. Pautas como drogas, sexo, sexualidade e bullying, por exemplo, surgem com muita crueza e encontram representação nas histórias contadas.

A trama é costurada pela narração onisciente de Rue, que tem traços obsessivos e depressão. Ela retorna ao lar após sofrer uma overdose e passar pela reabilitação. A protagonista representa a fragilidade emocional que assola uma geração, sem critérios de abordagem.

Levinson faz questão de nos informar logo no início que a garota nasceu três dias após os atentados do 11 de setembro, utilizando o fato para ambientar sua ficção na realidade. A tragédia ainda traça um paralelo entre a fragilidade emocional do país. O ambiente em que se vive também interfere no crescimento de uma pessoa e uma nação atormentada forma pessoas atormentadas.

(Zendaya interpreta Rue, uma jovem viciada em drogas / Imagem: HBO)

Devido aos diagnósticos psicológicos, Rue encontra soluções nos remédios desde pequena. As drogas se tornaram o escape lógico, lhe proporcionando desligamento de tudo ao seu redor por um espaço efêmero de tempo, fazendo-a se sentir segura.

Jules (Hunter Schafer) é uma garota trans que acaba de se mudar com o pai. É interessante notar o contraste provocado pela sua expressão de gênero e pelos relacionamentos que mantém. De um lado, roupas e maquiagem trazem um ar infantil, como se ela compensasse a infância que não teve por jamais ter se aceitado como menino; do outro, as relações casuais demonstram sua sexualidade aflorada e sua transformação em mulher.

É curioso como esses encontros remetem à dificuldade de viver livremente a própria sexualidade. Assim como a frase lá em cima sobre nudes, há o choque de gerações entre a repressão emocional dos homens mais velhos e a liberdade de Jules ao se assumir como sempre quis.

Nesse ponto, o fato dela ser novata na cidade funciona como uma inteligente analogia sobre a transição de gênero – com a dificuldade de se adequar num “lugar novo” – e sobre a natureza sexual de cada um – quando o conservadorismo dos mais antigos esbarra no “elemento novo” que chega sem pedir desculpas por ser o que é.

Nate (Jacob Elordi) é um rapaz violento e obsessivo que espera das mulheres o que ele gosta de ver e não o que realmente são. Sente prazer ao imaginar a pureza em sua namorada Maddy (Alexa Demie) e ao controlar o que ela veste. O casal vive um relacionamento extremamente tóxico, onde ele a trata de forma abusiva diversas vezes e ela faz questão de o provocar e despertar sua fúria, principalmente por ter a liberdade de expor seu corpo como bem entende.

(Nate e Maddy vivem um relacionamento abusivo / Imagem: HBO)

Com momentos íntimos vazados na internet, Kat (Barbie Ferreira) e Cassie (Sydney Sweeney) são moldadas pela sociedade a partir desses acontecimentos. A primeira, que já sofria por ser gorda, se descobre desejável quando um vídeo seu transando é postado num site pornô. Isso lhe dá uma autoestima empoderada, embora às custas de sua exposição excessiva – e ela é menor de idade.

Já a segunda é reduzida a um objeto sexual, uma “transa fácil”. Mesmo que seu namorado McKay (Algee Smith) goste dela verdadeiramente, é incapaz de respeitá-la na frente dos outros e, constantemente, a faz se sentir mal. Além disso, o rapaz replica com ela o tratamento que aprende nos vídeos de pornografia, como um dominador agressivo.

A série ainda considera a participação dos pais no cotidiano dos filhos. Vemos como o excesso de autonomia e a falta de diálogos prejudicam muito o relacionamento entre jovens e adultos. O tema é abordado sob várias óticas: há o descaso da mãe alcoólatra; o pai ausente, por opção ou por ter morrido; e os pais que cobram exaustivamente seus filhos. Também tem os casos da boa unidade familiar – como nas casas de Kat e Rue – e, mesmo assim, falha a comunicação.

Embora traga louvável complexidade, o roteiro ainda tropeça. O arco de Kat parece não ser suficiente para se estender por toda a temporada. Ela sofre uma mudança abrupta de personalidade e, a partir daí, se torna repetitivo o acompanhamento de suas aventuras sexuais. Outras personagens sofrem com um desenvolvimento menos generoso, como Cassie e McKay. Ambas se limitam ao que representam.

Na necessidade de chegar aonde deseja, Euphoria controla demais os rumos da história e isso soa artificial algumas vezes. Me espanta que Kat passe por uma mudança tão radical, em tão pouco tempo, e isso não renda sequer um questionamento de sua mãe – que não tem nem curiosidade sobre como a filha compra tantas roupas novas.

(Barbie Ferreira vive Kat, personagem que sofre uma das transições mais interessantes da série / Imagens: HBO)

Espanta também que a briga intensa entre Nate e seu pai, dentro de casa, não chame a atenção de nenhum outro integrante da família. Na tentativa de mostrar o afastamento familiar, Sam Levinson erra a mão e exagera na mensagem.

Por fim, senti falta de personagens mais empáticas. A maioria delas é complexa e bem construída – e até as que são menos aprofundadas servem ao propósito –, mas tive dificuldades de me importar. Seja com os que têm carisma, mas não ganham espaço – como Fezco (Angus Cloud) –; ou as que protagonizam, mas demonstram alguma arrogância – como Maddy –, faltou conexão entre o que vi e o que senti.

Isso não é, necessariamente, um problema das atuações. O elenco é bom e se esforça bastante para entregar exatamente o que a produção espera. Possivelmente está mais atrelado a minha capacidade de identificação com algumas dessas figuras.

Por outro lado, é importante frisar as excelentes Barbie Ferreira, Hunter Schafer e, principalmente, Zendaya. A primeira transita entre a garota discreta e a completamente emancipada, sem perder totalmente suas inseguranças; a segunda entrega alma e personalidade, administrando os contrastes entre ingenuidade e amadurecimento; e a terceira faz um trabalho minimalista, preocupado na composição de detalhes como a maneira de agarrar as próprias pernas quando insegura, ou os olhares perdidos quando ansiosa. Zendaya entrega muito sem recorrer a exageros.

Dona de uma estética singular, a série aposta numa fotografia inventiva, capaz de traduzir o que é sentido em cena. Investe em cores vivas e muito bem definidas, trabalhando bem o vermelho e o azul, assim como faz ótima utilização das sombras.

(A fotografia é inventiva no uso da câmera e eficiente no jogo de luz e sombras / Imagens: HBO)

As câmeras agem com vigor, como no primeiro episódio quando a protagonista, após uma dose forte, circula por um corredor que rodopia – efeito que lembra a cena do hotel em A Origem (2010). No decorrer da série, vemos a utilização de planos-sequência, giros no próprio eixo e movimentos circulares que unem diversas cenas num ângulo de 360°.

A montagem é incrível, tanto pela forma não linear de apresentar a história quanto pelo efeito estético proporcionado. O clipe que une as ações de Jules e Nate, por exemplo, no terceiro capítulo (Made You Look), é belíssimo e ainda traz valor narrativo.

Outro elemento a ser destacado é a utilização dinâmica de diferentes linguagens sempre que “invadimos” a mente de Rue. A série se permite adotar um didatismo professoral quando ela se propõe a interpretar os nudes masculinos – e quebra a quarta parede –; se assume como um filme Noir quando ela e Lexi (Maude Apatow) tentam descobrir algo – com direito a estética de película envelhecida e as duas agindo como detetives –; e até um intenso número musical no final da temporada.

Ao se portar como um espelho da atualidade, a produção confronta alguns tabus e assume escolhas polêmicas, embora com responsabilidade. Cada episódio abre com um alerta sobre o conteúdo e sua possibilidade de perturbação; o final traz um contato que oferece ajuda para pessoas com problemas similares aos apontados pela obra.

Na mesma medida em que mostra maneiras de burlar a análise de uso de drogas, pontua os efeitos colaterais e os danos causados por essas alternativas. Não existe a intensão de romantizar ou tornar descolado o que é mostrado, o que diferencia demais Euphoria da terrível e dispensável 13 Reasons Why (2017 - 2019).

A primeira temporada de Euphoria é um baque. Não se priva de mostrar abusos, sexo e consumo de droga, mas não faz isso gratuitamente. É um grito de alerta para que olhemos com mais atenção para os jovens de hoje, cada vez mais desamparados e em conflito. Precisamos compreender melhor esse universo para sabermos como dialogar, e a produção é uma bem-vinda luz sobre o assunto.

Nota 8,5/10

12/09/2019 05:00

Biografia do médium Divaldo Franco chega aos cinemas; veja a programação

Fotos: Divulgação

Biografia do médium Divaldo Franco chega aos cinemas; veja a programação

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 12 a 18 de setembro:

Divaldo - O Mensageiro da Paz (2019): O filme conta a história do líder humanitário brasileiro Divaldo Franco, desde sua infância no interior da Bahia até se consagrar como filantropo, se tornar fundador da Mansão do Caminho e orador em prol da divulgação da doutrina espírita no Brasil e no mundo. (12 anos, 118 minutos).

Adeus à Noite (L´adieu à La Nuit, 2019): Muriel está emocionada ao ver Alex, seu neto que veio passar alguns dias na casa dela antes de ir morar no Canadá. Intrigada com o comportamento do rapaz, Muriel logo descobre que ele está mentindo para ela. A verdade é que Alex está se preparando para uma outra vida. Desesperada, ela terá de agir muito rapidamente. (12 anos, 103 minutos).

Border (Gräns, 2018): Tina é uma policial que trabalha no aeroporto fiscalizando bagagens. Apesar da aparência prejudicar sua vida afetiva, a policial possui um senso de odor extremamente refinado, podendo cheirar não apenas álcool e droga nas malas, mas também culpa, raiva e ressentimento dos passageiros, até o dia em que conhece Vore e não consegue decifrá-lo. (16 anos, 108 minutos).

Vai Que Cola – O Começo (2019): Antes de Dona Jô ter uma pensão. Antes de Jéssica conhecer Máicol. Assim que Ferdinando desembarcou no Rio e quando Terezinha ainda vivia com Tiziu... O novo longa da franquia que nasceu como série no Multishow e ganhou as telas dos cinemas reúne toda a turma do Méier para contar como tudo começou. Uma feijoada no Morro do Cerol põe juntos pela primeira vez os personagens que conquistaram o público na TV e no cinema. (12 anos, 87 minutos).

Maré (2019): Valdo é um alcoólico que ainda não se percebeu assim. Um homem cheio de possibilidades que se encerram no quase: talentoso, quase consegue ser um bom profissional; apaixonado, quase consegue ser um bom companheiro. Quase chega a ser um bom pai. Branco, cis, herdeiro, fotógrafo e militante, Valdo se vê desafiado a encarar seu alcoolismo para não perder a guarda da filha. (16 anos, 84 minutos).

A Mulher do Meu Marido (2019): Joana sabe que o seu marido, o ginecologista Pedro, tem um relacionamento com outra mulher. Mas para Joana isso não tem importância, pois ela percebeu que ele agora é um homem muito mais interessante. A argentina Pilar, guia de turismo, é casada com o barman Martin, e mantém um relacionamento extraconjugal com Pedro. Ao sair com sua amiga Carla, Joana conhece o argentino Martin em um restaurante, com quem começa uma relação sem saber que ele é casado com Pilar. (14 anos, 95 minutos).

Abigail e a Cidade Proibida (Abigail, 2019): Uma cidade teve suas fronteiras fechadas após uma epidemia tomar conta de grande parte do local. Lá, vive uma jovem chamada Abigail, que, ainda criança, teve seu pai levado por ter sido afetado por essa doença misteriosa. Mais velha, decide quebrar as regras e passar por cima das autoridades da região para ir à procura de seu pai. Nessa jornada, ela descobre que ela e a cidade têm poderes mágicos. (12 anos, 10 minutos).

Continuam em cartaz:

IT - Capítulo 2 (IT - Chapter Two, 2019): Vinte e sete anos após os eventos que chocaram o Clube dos Perdedores, os amigos realizam uma reunião. No entanto, o reencontro se torna uma verdadeira e sangrenta batalha quando Pennywise, o palhaço, retorna. (16 Anos, 169 minutos).

Corgi - Top Dog (The Queen´s Corgi, 2019): A Rainha Elizabeth é apaixonada por cães da raça Corgi e, dentre os que vivem no Palácio, Rex é o seu queridinho. Acostumado com as mordomias da realeza, tudo muda quando ele cai na armadilha de um outro cachorro que quer tomar o seu lugar. Preso no canil da cidade, ele agora vai precisar de toda a ajuda que conseguir para voltar ao Palácio e retomar seu lugar como o favorito da Rainha. (Livre, 92 minutos).

Bacurau (2019): Num futuro recente, um povoado do sertão de Pernambuco chamado Bacurau some misteriosamente do mapa. Quando uma série de assassinatos inexplicáveis começam a acontecer, os moradores da cidade tentam reagir. Mas como se defender de um inimigo desconhecido e implacável? (16 Anos, 131 minutos).

Yesterday (2019): Após sofrer um acidente, um cantor-compositor acorda numa estranha realidade onde é a única pessoa que lembra dos Beatles. Com as músicas de seus ídolos, o protagonista se torna um sucesso gigante, mas a fama tem seu preço. (12 Anos, 116 minutos).

O Amor Dá Trabalho (2019): Malandro e aproveitador, Ancelmo (Leandro Hassum) morre e acaba ficando preso no limbo. Para garantir seu lugar no céu, ele precisa praticar uma boa ação e bancar o cupido, pois recebe a missão de unir um homem (Bruno Garcia) e uma mulher (Flávia Alessandra) com personalidades muito divergentes. (12 Anos, 100 minutos).

O Rei Leão (The Lion King, 2019): Adaptação do clássico Disney de 1994, O Rei Leão retrata a jornada de Simba, filho do rei Mufasa e herdeiro da Pedra do Reino. Mas nem todos estão dispostos a aceitar tal sucessão, como Scar, irmão de Mufasa e ex-futuro rei. (10 anos, 118 minutos).

Os horários podem ser verificados nos sites dos cinemas

09/09/2019 21:35

IT - Capítulo Dois: continuação pouco inspirada

Fotos: Warner Bros.

IT - Capítulo Dois: continuação pouco inspirada

Por João Victor Wanderley

Uma das obras mais aclamadas de Stephen King, o extenso IT ganhou, em 2017, uma adaptação cinematográfica que levou às telas parte da história do Clube dos Perdedores. Dirigida por Andy Muschietti, arrecadou mais de 700 milhões de dólares. Com tamanho sucesso, seria impensável que a Warner não investisse numa continuação.

Em IT - Capítulo 2 (It Chapter Two, 2019), 27 anos se passaram desde os acontecimentos do filme anterior. Quando novas crianças desaparecem em Derry, os Perdedores fazem valer o juramento de retornarem à cidade caso Pennywise (Bill Skarsgård) voltasse a assombrar.

O roteiro de Gary Dauberman se responsabiliza por trazer o restante da obra literária que não entrou na primeira parte. Acompanhamos os protagonistas em suas vidas particulares até que são convocados por Mike (Isaiah Mustafa), o único que permaneceu em Derry.

A experiência vivida pelos adolescentes foi tão marcante que eles se tornaram adultos traumatizados. É curioso perceber que todos que se distanciaram do local perderam suas memórias. Quanto mais longe da cidade, menos se lembram. Tal efeito sintetiza bem a ferida deixada por Pennywise, que, de tão profunda, mantém o grupo refém dos mesmos medos.

Beverly (Jessica Chastain) casou com um homem tão abusivo quanto seu pai; Bill (James McAvoy) virou um escritor de sucesso, mas que não finaliza suas histórias de forma satisfatória – reflexo da culpa que carrega pela morte de seu irmão; Richie (Bill Hader) é um comediante inseguro que “não tem voz própria” e é alcoólatra; Ben (Jay Ryan) virou um homem solitário; Eddie (James Ransone) é neurótico, trabalha com riscos de acidentes e é casado com uma mulher idêntica à sua mãe – não por acaso, ambas interpretadas pela mesma Molly Atkinson; e Stanley (Andy Bean) se mostra o mais incapaz de rememorar o passado. Apenas Mike mantém as lembranças intactas e uma aparente segurança, o único capaz de permanecer em Derry e “enfrentar seus medos”.

(O Clube dos Perdedores retorna à Derry / Imagem: Warner)

Entretanto, com um material tão interessante, Dauberman demonstra inabilidade e entrega protagonistas unidimensionais. A perda de memória logo é contornada, sem render obstáculos narrativos relevantes. Além disso, há uma preocupação tão grande em associar essa continuação ao capítulo anterior que o filme se torna repetitivo e cansativo.

O apelo constante aos flashbacks, embora resgate o carismático elenco original, enfraquece o desenvolvimento das personagens – que dividem a atenção da narrativa entre suas versões infantis e adultas – e da trama – que estanca no meio do caminho, inflada por situações redundantes. Cada um ganha seu “momento de pavor”, constituído de uma ida a um lugar especial, uma lembrança onde foram atacados e um ataque no presente.

Considerando os dois capítulos, dá pra dizer que ambos falam as mesmas coisas e da mesma maneira, mas o mais recente não busca a profundidade do primeiro. Enquanto em 2017 os medos, à sua maneira, dialogavam com a temida transição da adolescência para a vida adulta, aqui temos apenas pessoas crescidas enfrentando obstáculos do passado: Beverly e o banheiro ensanguentado, Eddie e os zumbis, Bill e o fantasma do irmão, Richie e o pavor de palhaço... Nem a impactante sequência inicial, que sugere uma reflexão social pertinente e cabível, resulta em algo concreto. Falta ao roteiro mais substância.

Retornando à função de diretor, Andy Muschietti investe nos Jump Scares – sustos provocados através de inserções abruptas, tanto de imagem como de som. A técnica até funciona e rende alguns saltos na cadeira, mas é insuficiente por ser previsível. Mesmo que a direção brinque ao adiantar ou atrasar os momentos exatos, é muito fácil antecipar os sustos. A quebra dessa surpresa enfraquece a proposta da obra, que não é capaz de provocar medo.

Porém, é preciso dizer que há habilidade na construção da tensão. Os momentos que antecedem os Jump Scares, principalmente os que são esticados, dão aflição tanto pela preparação quanto pela boa utilização do fundo de cena, onde algumas ações desfocadas chamam atenção. A sequência dos espelhos e a visita de Beverly à sua antiga casa exemplificam bem.

(Pennywise encurrala suas presas através do medo / Imagem: Warner)

As criaturas também são questionáveis. Da expectativa de que algo vai aparecer até a aparição, o filme constrói uma atmosfera eficiente de tensão. O problema está quando tais criaturas ficam expostas por mais tempo. Elas não são realmente assustadoras, diminuindo o mérito conquistado ainda há pouco.

A computação gráfica é outro ponto irregular. Ora surge convincente, como durante o clímax, ora é muito artificial, como a criatura cabeluda que persegue uma das personagens. De qualquer forma, os efeitos interferem na experiência, seja por não serem refinados ou por aparecerem em excesso.

O elenco faz o máximo possível com o pouco material recebido. Dentro das limitações, a química dos atores e suas figuras são suficientes para nos prender. Existe boa dinâmica entre todos, mas os destaques são Bill Hader, que funciona como um bom alívio, e Bill Skarsgård, que segue ameaçador e asqueroso – sua imposição vocal e sua baba irrefreável são traços excelentes de sua composição.

IT - Capítulo Dois consegue criar uma ideia de nostalgia, tem boa interação do elenco e efetua alguns bons sustos, mas é muito pouco quando vemos o que foi entregue antes e como agora repete tudo com inferioridade. Uma continuação frustrante.

Nota 6,5/10

06/09/2019 21:12

Yesterday: cinema também é deleite

Fotos: Divulgação

Yesterday: cinema também é deleite

Por João Victor Wanderley

O cinema é versátil, capaz de usar seus recursos tanto para bater quanto para afagar. Se no início da semana falei sobre Bacurau (2019) e sua habilidade em fazer refletir – nos mostrando o que é viver em comunidade –, hoje trago minhas impressões sobre Yesterday (2019), bem-vinda dose da positividade necessária para nossa individualidade.

Durante um inexplicável apagão que atingiu todo o mundo, o músico fracassado Jack Malik (Himesh Patel) sofre um acidente e perde a consciência. Ao acordar, descobre que Os Beatles nunca existiram e que apenas ele sabe as músicas da banda. Após o choque inicial, Jack usa seu conhecimento e se torna “o maior compositor de todos os tempos”.

Escrito por Richard Curtis, a partir de uma história sua e de Jack Barth, o roteiro carrega duas intenções narrativas muito claras, e a primeira é a de construir uma jornada de superação. Jack divide seu tempo entre o emprego no comércio e a frustrada careira de cantor e compositor, empresariada pela amiga de infância – e visivelmente apaixonada – Ellie (Lily James).

A jornada é permeada por clichês como o orgulho ferido, a vontade de desistir, a chegada do sucesso, e a ascensão. Todo os passos da trama são facilmente telegrafados, o que tira qualquer surpresa em relação às reviravoltas propostas e o rumo escolhido. Porém, o que torna tudo tão interessante aqui é o talento de Curtis para extrair humor cotidiano até em situações atípicas, como mostram suas obras Um Lugar Chamado Notting Hill (1999) e Questão de Tempo (2013).

(Jack emociona ao "compor" Yesterday / Imagem: Divulgação)

Só o fato de uma das maiores bandas ter sumido gera situações hilárias como as reações de quem ouve os nomes John, Paul, George e Ringo; o descaso com algumas das músicas mais icônicas – a cena de Let It Be é ótima –; a interferência artística dos que tentam “melhorar as letras”; e, principalmente, as pesquisas feitas por Jack sempre que descobre algo que deixou de existir – sim, não foram só Os Beatles!

Um acerto da produção está na a versão que Ed Sheeran interpreta dele mesmo. A escolha ancora a trama numa realidade mais crível, com um artista da atualidade encantado pelas “novas canções”, e cria comicidade nas interações no cotidiano dos anônimos. Outro ponto que precisa ser citado é como o filme aborda o incômodo sentido pelo protagonista.

Embora alcance o sucesso desejado, a ciência de ser através do trabalho de terceiros o perturba, como visto em suas reações ao ser chamado de gênio, como se incomoda com as palmas exageradas em determinada reunião e quando canta Help! como se suplicasse ajuda.

A segunda intenção narrativa é a de prestar homenagem aos Beatles. O filme não tenta usar as músicas como fez Across The Universe (2007), mas reverenciá-las através nos pequenos trechos tocados, na trilha sonora instrumental e nos nomes de personagens.

(A idolatria aos Beatles é preservada graças ao esforço de Jack / Imagem: Divulgação)

Há a preocupação em mostrar o impacto das letras, suas repercussões e aceitações pelo público. É como se a produção cinematográfica fizesse questão de reforçar a importância da banda, para que ela não “se apague” em tempos de cultura tão descartável, cujas obras trazem curtos prazos de validade.

Não à toa, o esforço do protagonista em manter as letras vivas é significativo. O cantor faz o que pode para lembrar de diversas músicas e eternizá-las – o que gera boas piadas com ele “finalizando” as canções incompletas. Nessa onda de homenagens, há uma cena belíssima entre Jack e outra personagem. O momento deve gerar um calorzinho especial no coração dos fãs.

A relação entre Jack e Ellie é adorável. Muito se deve à excelente química entre Himesh Patel e Lily James, que trazem carisma absurdo para a tela. Ele é completamente natural, tem ótimo timing cômico e canta muito bem. Ela exala simpatia e carinho tão grandes que é impossível não se encantar.

Aliás, a interação de ambos representa a importância das pequenas conquistas da vida, que as vezes se perdem ao sonharmos alto. E Ellie é a perfeita encarnação daquelas pessoas que entram em nossas vidas e acreditam na gente mais que nós mesmos – talvez por ter alguém assim do meu lado, eu tenha me encantado tanto com a personagem! O resto do elenco está afiado, mesmo que em participações menores. Destaque para Sanjeev Bhaskar, o pai de Jack, e Joel Fry, que transforma Rocky num ótimo coadjuvante.

(Lilly James e Himesh Patel / Imagem: Divulgação)

Comandando tudo, o sempre bom diretor Danny Boyle consegue arrancar o máximo possível de uma história tão leve. Sua câmera investe em movimentos circulares, para dar dinamismo a certos diálogos, e é entusiasmante nos shows, elevando a atmosfera ao nos contagiar com a energia do momento.

A montagem de Jon Harris é eficiente na criação do ritmo, na estética e ao elaborar elipses temporais. A divisão de tela proposta no show em Moscou liga a apresentação diretamente à repercussão nas redes sociais de forma simples e elegante. Harris é particularmente feliz ao montar as cenas em que o protagonista faz pesquisas na internet, dando vigor à piada recorrente, e ao representar a dificuldade de Jack ao lembrar das letras – a sequência de Eleanor Rigby é legal demais.

Já a fotografia de Christopher Ross aposta em cores quentes para dar tom agradável à estética. Além disso, traz enquadramentos belíssimos como quando toca a canção-título do filme. Outro grande momento é quando a dupla central é enquadrada pela luz emitida pela TV do quarto.

Unicamente destinado a reverenciar uma das maiores bandas da história, e de oferecer uma experiência adorável, Yesterday é um filme extremamente leve e faz com que nos sintamos felizes. É previsível enquanto obra cinematográfica, mas acerta nossos corações em cheio com suas intenções. Um trabalho de fãs para fãs, e para todos que procuram cinema para a alma.

Nota 8/10

05/09/2019 05:00

O palhaço Pennywise volta a assombrar os cinemas, veja a programação

Fotos: Divulgação

O palhaço Pennywise volta a assombrar os cinemas, veja a programação

Confira as estreias e os filmes que permanecem em cartaz nos cinemas de Natal no período de 5 a 11 de setembro:

IT - Capítulo 2 (IT - Chapter Two, 2019): Vinte e sete anos após os eventos que chocaram o Clube dos Perdedores, os amigos realizam uma reunião. No entanto, o reencontro se torna uma verdadeira e sangrenta batalha quando Pennywise, o palhaço, retorna. (16 Anos, 169 minutos).

O Corpo é Nosso! (2019): Documentário sobre a trajetória da liberação do corpo da mulher brasileira, ressaltando as diferenças desta trajetória entre as mulheres brancas e negras. O filme apresenta entrevistas, imagens de arquivo que ilustram alguns dos fatores que contribuíram para esta liberação no Brasil - como a música, a dança, a moda e a pílula anticoncepcional - e propõe uma discussão sobre o feminismo através da desconstrução do masculino. (14 anos, 85 minutos).

Corgi - Top Dog (The Queen´s Corgi, 2019): A Rainha Elizabeth é apaixonada por cães da raça Corgi e, dentre os que vivem no Palácio, Rex é o seu queridinho. Acostumado com as mordomias da realeza, tudo muda quando ele cai na armadilha de um outro cachorro que quer tomar o seu lugar. Preso no canil da cidade, ele agora vai precisar de toda a ajuda que conseguir para voltar ao Palácio e retomar seu lugar como o favorito da Rainha. (Livre, 92 minutos).

K-12 (2019): Palco Cinemark apresenta K-12, um filme dirigido e roteirizado por Melanie Martinez com as músicas de seu mais novo álbum. (14 anos, 90 minutos).

Continuam em cartaz:

Bacurau (2019): Num futuro recente, um povoado do sertão de Pernambuco chamado Bacurau some misteriosamente do mapa. Quando uma série de assassinatos inexplicáveis começam a acontecer, os moradores da cidade tentam reagir. Mas como se defender de um inimigo desconhecido e implacável? (16 Anos, 131 minutos).

Yesterday (2019): Após sofrer um acidente, um cantor-compositor acorda numa estranha realidade onde é a única pessoa que lembra dos Beatles. Com as músicas de seus ídolos, o protagonista se torna um sucesso gigante, mas a fama tem seu preço. (12 Anos, 116 minutos).

Anna – O Perigo Tem Nome (Anna, 2019): Por trás da beleza marcante de Anna Poliatova, há um segredo que irá expor sua indestrutível força e habilidade para se tornar uma das assassinas mais temidas do mundo. Uma eletrizante viagem repleta de energia, reviravoltas surpreendentes e ação de tirar o fôlego. (16 Anos, 119 minutos).

Retrato do Amor (Photograph, 2019): Pressionado por sua família a se casar o mais rápido possível, um determinado fotógrafo de Mumbai convence uma tímida estranha a fingir ser a sua mulher durante algum tempo. Apesar da relutância, ela aceita a proposta e os dois desenvolvem um laço totalmente inesperado que os muda de maneiras antes inimagináveis. (12 Anos, 110 minutos).

O Amor Dá Trabalho (2019): Malandro e aproveitador, Ancelmo (Leandro Hassum) morre e acaba ficando preso no limbo. Para garantir seu lugar no céu, ele precisa praticar uma boa ação e bancar o cupido, pois recebe a missão de unir um homem (Bruno Garcia) e uma mulher (Flávia Alessandra) com personalidades muito divergentes. (12 Anos, 100 minutos).

O Filho do Homem (2019): Maria recebe a visita do Anjo Gabriel, que anuncia que ela dará à luz um filho que se chamará Jesus. Jesus completa 33 anos e inicia sua pregação por toda Judéia e arredores, anunciando o reino dos céus e se auto declarando o Filho de Deus. (14 Anos, 119 minutos).

Brinquedo Assassino (Child´s Play, 2019): No dia do seu aniversário, Andy (Gabriel Bateman) ganha de presente de sua mãe, Karen (Audrey Plaza), o boneco mais aguardado dos últimos tempos. Altamente tecnológico, ele pode se conectar a qualquer dispositivo inteligente da Kaslan, empresa responsável por sua fabricação. No entanto, quando crimes estranhos começam a acontecer, eles passam a suspeitar que o brinquedo pode não ser tão inofensivo quanto parece. (16 anos, 90 minutos).

Era Uma Vez... Em Hollywood (Once Upon a Time... In Hollywood, 2019): O filme revisita a Los Angeles de 1969, que estava em transformação, através da história do astro Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt), que traçam um caminho em meio à indústria que eles nem mesmo reconhecem mais. O nono trabalho de Quentin Tarantino é um tributo aos momentos finais da era de ouro de Hollywood. (16 anos, 161 minutos).

Nada a Perder – Parte 2 (2019): Esse é o segundo e último filme baseado na série de livros escrita pelo jornalista Douglas Tavolaro sobre a vida de Edir Macedo. Enquanto o primeiro mostrava a busca espiritual de Macedo, desde a infância até o surgimento da Igreja Universal do Reino de Deus, essa continuação foca no crescimento da Universal pelo mundo e principalmente, nos casos mais polêmicos envolvendo denúncias e ataques ao bispo e à igreja que ele ajudou a fundar. (12 anos, 120 minutos).

Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw (Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw, 2019): O policial Hobbs (Dwayne Johnson) e o ex-agente Shaw (Jason Statham), adversários na franquia Velozes & Furiosos, precisam unir forças para combater o anarquista Brixton (Idris Elba), um homem geneticamente aprimorado e em controle de uma arma biológica perigosa que pode alterar a humanidade para sempre. (14 anos, 135 minutos).

O Rei Leão (The Lion King, 2019): Adaptação do clássico Disney de 1994, O Rei Leão retrata a jornada de Simba, filho do rei Mufasa e herdeiro da Pedra do Reino. Mas nem todos estão dispostos a aceitar tal sucessão, como Scar, irmão de Mufasa e ex-futuro rei. (10 anos, 118 minutos).

Turma da Mônica - Laços (2019): Com o desaparecimento de seu cachorro Floquinho, Cebolinha desenvolve um plano infalível para resgatá-lo. Para isso, ele vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos: Mônica, Magali e Cascão. Juntos, irão enfrentar desafios e viver grandes aventuras. (Livre, 96 minutos).

Os horários podem ser verificados nos sites dos cinemas

02/09/2019 12:04

Bacurau é Resistência!

Fotos: Divulgação

Bacurau é Resistência!

Texto: João Victor Wanderley

As divergências ideológicas do Brasil se intensificam desde que o conservadorismo se traduziu na eleição do candidato que o personifica. Disposta a sobrepor seus dogmas a tudo o que julga errado, essa onda conservadora se espalha por setores como cultura, arte e educação e os ressignifica sob o prisma tacanho do “se não está de acordo com o que penso, não presta”.

Nesse contexto, resistir tem sido necessário para preservar a voz ganha através da arte e a evolução cultural, reconhecendo nosso passado em busca de um futuro cada vez mais adequado. E resistência também se faz com cinema, “com uma câmera na mão e um punhado de ideias na cabeça”, como mostra o brilhante Bacurau (2019).

Num futuro próximo, a fictícia cidade que dá nome ao filme vive pacata no interior de Pernambuco. Após literalmente desaparecer dos mapas, e de uma série de assassinatos, Bacurau precisa se proteger sem saber exatamente do quê.

A simples existência da obra já representa resistência ao pensamento retrogrado do presidente Jair Bolsonaro, que demonstrou interesse em fechar a Ancine – Agência Nacional do Cinema –, seja pelas temáticas que não o agradam, por não ter controle sobre os conteúdos ou por não ser a favor de pôr dinheiro público nos projetos.

Acontece que o papel da Ancine não é bancar filme algum, apenas retribuir com incentivos fiscais aqueles que fomentam o setor. Da mesma forma que empresas internacionais beneficiadas por estarem aqui, o cinema local é capaz de movimentar o mercado, gerando emprego para diversos profissionais como eletricistas, figurinistas, marceneiros, motoristas, cozinheiros, etc.

Além disso, há o fortalecimento da nossa produção. Se contrapondo a cidade da narrativa, Bacurau recoloca o Brasil no mapa ao vencer o Grande Prêmio do Júri em Cannes, um dos festivais mais respeitados do mundo.

Escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, a obra representa um marco no audiovisual brasileiro ao fugir do padrão produzido aqui. Criando uma positiva loucura estilística, conduzida com invejável precisão, transita entre gêneros com fluidez e eficiência narrativa.

O Drama surge quando somos jogados no cotidiano do local e apresentados aos moradores. Compreendemos o estilo de vida, suas precariedades e o senso de comunidade. Passamos a nos importar com aquelas pessoas quando tudo isso sofre interferência dos novos acontecimentos.

O primeiro ato é destinado a nos ambientar, o que é feito com uma bem-vinda direção quase documental. Compreendemos a lógica para, depois, a vermos ser distorcida. Visando entregar a melhor experiência possível, Kleber e Juliano são felizes ao investir em atores não profissionais e em moradores das locações potiguares onde o filme foi rodado, como Parelhas. Isso traz uma realidade quase palpável.

 A passagem de tempo demarcada por cenas do Sertão, o nascer e o pôr-do-sol, os conflitos armados e a violência gráfica dão o tom de Western. Humor e Suspense também aparecem, com o primeiro recheado da típica presença de espírito nordestina e o segundo se aproveitando de momentos de tensão que remetem a Halloween (1978) quando a ameaça se põe à espreita – as crianças brincando com a lanterna à noite ilustram bem isso.

Por fim, a Ficção Científica se vê na tecnologia avançada e na trama se passada num futuro próxima e repleta de reflexões sobre a nossa atualidade. Esteticamente ainda temos influência da saga Star Wars, vista nos efeitos de transição, com as imagens deslizando para dentro da tela, e na abertura, quando a câmera foca o espaço e, num movimento de câmera, revela a Terra – curiosamente redonda...

Apesar de conter interessantes figuras complexas como Domingas (Sônia Braga), Lunga (Silvério Pereira) e Pacote (Thomas Aquino), o roteiro não personifica o protagonismo, entregando-o à Bacuaru. Ela move o enredo e é a partir de seu ponto de vista que montamos o quebra-cabeças do grande mistério em torno da cidade. Aliás, Kleber e Juliano se arriscam demais ao manter seus espectadores no escuro por tanto tempo.

Vemos uma sucessão de estranhezas aparecendo cautelosamente, sem qualquer ligação visível. Embora a compreensão do todo seja satisfatória, até lá, existe a chance dos menos pacientes se perderem num “aparente enredo sem sentido”. Assim, é gratificante perceber a confiança que os cineastas têm no material e como este prende nossa atenção sem parecer cansativo.

Mas o ápice do roteiro está nas alegorias que dão tantas camadas à obra, ficando difícil não retornarmos a esta – mesmo mentalmente – dias após a termos assistido. Como o mistério é importante na construção da narrativa e preciso comentar sobre algumas dessas alegorias, sugiro a quem ainda não viu o filme evitar os spoilers. Basta pular diretamente para o último parágrafo.


O roteiro constrói sátiras eficientes de diversos setores. Mesmo potencializadas, todas as críticas partem de algo muito real, como o descaso dos políticos com a sociedade. A figura do prefeito Tony Jr (Thardelly Lima) reflete isso muito bem. Interessado apenas na reeleição, Tony transforma em grande gesto a doação de livros antigos e descuidados, caixões, e comidas e remédios vencidos.

É interessante reparar que os livros doados são levados na caçamba de um caminhão e despejados no chão, como se fossem lixo. Um reflexo da maneira como se trata a educação por aqui

Sua participação no turismo de extermínio demonstra as motivações egoístas que movem nossos representantes, bem como está de acordo com a abertura para que estrangeiros explorem aquilo que é genuinamente nosso. Chega a ser irônico que os caixões entregues pelo prefeito, na verdade, simbolizem as mortes resultantes da falta de atitude do poder público.

Sobre os turistas, é curioso ver como se relacionam com as rupturas raciais e econômicas do Brasil. Os motoqueiros interpretados por Karine Teles e Antônio Saboia tentam se aproximar do grupo de estrangeiros alegando serem do sul do país, região mais rica e etnicamente próxima da Europa, mas logo são descartados por não serem “realmente brancos”, vide que ambos têm traços de miscigenação. Esse arco mostra o quão patético é o preconceito num país com tamanha diversidade, bem como a banalização da cultura da violência que vem se massificando.

Em determinado diálogo, quando uma pessoa pergunta:

- Quem nasce em Bacurau é o quê?

Uma criança prontamente responde:

- Gente.

Embora a cena tenha um cunho humorístico evidente, ela sintetiza algo muito mais agravante: a súplica pela vida! É como se a criança compreendesse o que se passava ali e gritasse: não façam isso conosco, somos humanos!

As ações fracassadas da polícia e a truculência das milícias têm vitimado cada vez mais inocentes e banalizado suas mortes, como se algumas vidas valessem menos. Logo, não é de espantar que a TV que surge ligada em determinado momento anuncie execuções coletivas em São Paulo.

Porém, diante de todas essas dificuldades, é o conhecimento que preserva Bacurau dos ataques sofridos. Se as duas escolas sucateadas reforçam o estado da educação, o professor Plínio (Wilson Rabelo) se mostra um dos pilares da cidade ao fazer o possível para preservar o conhecimento, seja ao manter uma biblioteca em casa ou se esforçar para ensinar com o que tem.

Outro ponto essencial é o museu, que serve, literalmente, de munição à população. Ele ainda nos mostra que lutar faz parte daquela cidade, como sugerem os registros da época do cangaço e também a vitrine com vestimentas e comunicador similares aos usados pelos turistas, evidenciando ataques anteriores. É extremamente simbólico que a sobrevivência da comunidade passe diretamente pelo museu, com o passado munindo o presente, e pela escola, que abriga e preserva o futuro da cidade.


Bacurau não é espetacular “apenas” por ser original ou cinema de altíssima qualidade, mas por ser a súplica necessária em tempos questionáveis e moralmente ambíguos. É fôlego, respiro durante um extremismo sufocante. É reflexão sobre o que pode dar errado se continuarmos seguindo essa estrada esburacada pelo conservadorismo agressivo, cego e preconceituoso. É cinema com estética comercial, técnica artística e alma de guerrilha. É resistência até sua última gota de sangue!

Nota 10/10

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