Sérgio Trindade

31/08/2019 11:02

A culpa não é da imprensa

A culpa não é da imprensa

A relação do poder com a imprensa nunca foi, no Brasil, das mais amistosas.

Para não ir muito longe no tempo citarei, de forma sucinta, como se deu nos oito anos de Fernando Henrique, nos oito de Lula e nestes primeiros meses do governo Bolsonaro.

Logo que assumiu o governo, apesar do clima de consenso que predominou no início do primeiro mandato, o Presidente Fernando Henrique e sua equipe partiram do pressuposto de que a esquerda em geral e o PT em particular exerciam muita influência nas redações e que, por isso, a relação com repórteres não seria das mais fáceis.

Os atritos com a imprensa começaram cedo, como expõe FHC nos seus Diários da Presidência, ao reclamar do grupo Globo e principalmente das atitudes da Folha de São Paulo.

O ex-Presidente Lula teve, durante boa parte dos seus oito anos de poder, relação com a imprensa que ia de tensa à conturbada, passando por momentos de extremismo, o maior quando Lula, depois de acusado, em matéria publicada pelo jornalista Larry Rohter no The New Yoirk Times, de beber demais e, com isso, virar alvo de preocupação nacional, ameaçou expulsar o jornalista norte-americano.

O caso Lula-Rohter acabou sem a expulsão do jornalista mas com uma nódoa na biografia do então Presidente brasileiro.

Atualmente, o Presidente Bolsonaro acusa imprensa e oposição de atuarem de forma desleal e anti-patriótica.

A qualidade da democracia deve ser julgada pelo papel que nela desempenham oposição e imprensa. Tratarei do papel da oposição em outro momento. Fico, por ora, com o papel da mídia e sua relação tensa com o atual ocupante do Palácio do Planalto.

Uma frase atribuída a Millôr Fernandes retrata com precisão qual deve ser o papel de uma imprensa verdadeiramente livre. Diz Millôr: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.”

O jornalista Alberto Dines, falecido em maio de 2018, segue a toada de Millôr ao afirmar que o papel da imprensa “como instrumento da liberdade de expressão é ser o contrapoder”, pois é por meio dela que se antecipam e se mobilizam corações e mentes, de forma massiva, para denunciar e combater quaisquer manifestações de tirania, autoritarismo e hegemonia que ameacem as liberdades individuais.

Dizer o que digo acima não inocenta a imprensa brasileira, como bem diagnosticou Millôr Fernandes, em 1980. Para ele, a “imprensa brasileira sempre foi canalha”, pois conseguiu evoluir, e bem, do ponto de vista técnico, mas ainda patina “do ponto de vista ético, moral e social”.

Ser ruim porém não significa ser dispensável, pois não existe governo democrático sem imprensa livre.

A hostilidade à imprensa aproxima dois dos mais destacados líderes dos polos ideológicos opostos, o ex-Presidente Lula e o atual Presidente Bolsonaro. Ambos não escondem a animosidade contra os meios de comunicação de massa e, por tabela, os laivos autoritários que os dominam.

Estabelecer boa relação com a mídia é crucial para evitar tensões e crises facilmente evitáveis. Cometer erros bestas torna o governo vulnerável e há uma lei de ferro na política que não pode e não deve ser esquecida: que começa forte, poderoso e autoritário tem de se manter forte, poderoso e autoritário sempre. E para isso não pode errar, pois se o fizer denunciará posição de fragilidade e, assim, será bombardeado.

A culpa do bombardeio por vezes está em casa.  

25/08/2019 08:55

Farms here, forest there

Farms here, forest there

O texto foi escrito, há certo tempo, pelo jornalista José Roberto Guzzo, de Veja. Nestes tempos turbulentos, o arrtigo de Guzzo, um dos maiores articulistas da atualidade, lança luz sobre sobre a questão ambiental.

 

 

 

Nada é mais cômodo do que viver convencido de que certas coisas não podem ser discutidas, pois são a verdade em estado definitivo. É o que está acontecendo hoje com a questão ambiental pelo mundo afora — especialmente no Brasil.

Ficou decidido pela opinião pública internacional e nacional que o Brasil destrói cada vez mais as suas florestas — por culpa da agropecuária, é claro. Terra que gera riqueza, renda e imposto é o inferno. Terra que não produz nada é o paraíso. Fim de conversa.

Os fatos mostram o contrário, mas e daí? Quanto menos fatos alguém tem a seu favor, mais fortes ficam as suas opiniões.

Ninguém imagina, pelo que se vê e lê todos os dias, que a área de matas preservadas no Brasil é mais do que o dobro da média mundial. Nenhum país do mundo tem tantas florestas quanto o Brasil — mais que a Rússia, que tem o dobro do seu tamanho, e mais que Canadá e Estados Unidos juntos. Só o Parque Estadual da Serra do Mar, em São Paulo, é duas vezes maior que a maior floresta primária da Europa, na Polônia.

Mais que tudo isso, a agricultura brasileira ocupa apenas 10%, se tanto, de todo o território nacional — e produz mais, hoje, do que produziu nos últimos 500 anos. Não cresce porque destrói a mata. Cresce por causa da tecnologia, da irrigação, do maquinário de ponta. Cresce pela competência de quem trabalha nela.

Como a agricultura poderia estar ameaçando as florestas se a área que cultiva cobre só 10% do país — ou tanto quanto as terras reservadas para os assentamentos da reforma agrária? Mais: os produtores conservam dentro de suas propriedades, sem nenhum subsídio do governo, áreas de vegetação nativa que equivalem a 20% da superfície total do Brasil. Não faz nenhum sentido.

Não se trata, aqui, de dados da “bancada ruralista” — foram levantados, computados e atualizados pela Embrapa, com base no Cadastro Ambiental Rural, durante o governo de Dilma . São mapas que resultam de fotos feitas por satélite. São também obrigatórios — os donos não podem vender suas terras se não estiverem com o mapeamento e o cadastro ambiental em ordem.

Do resto do território, cerca de 20% ficam com a pecuária, e o que sobra não pode ser tocado. Além das áreas de assentamentos, são parques e florestas sob controle do poder público, terras indígenas, áreas privadas onde é proibido desmatar etc. Resumo da ópera: mais de dois terços de toda a terra existente no Brasil são “áreas de preservação”.

O fato, provado por fotografias, é que poucos países do mundo conseguem tirar tanto da terra e interferir tão pouco na natureza ao redor dela quanto o Brasil. Utilizando apenas um décimo do território, a agricultura brasileira de hoje é provavelmente o maior sucesso jamais registrado na história econômica do país.

A última safra de grãos chegou a cerca de 240 milhões de toneladas — oito vezes mais que os 30 milhões colhidos 45 anos atrás. Cada safra dá para alimentar cinco vezes a população brasileira; nossa agricultura produz, em um ano só, o suficiente para 1 bilhão de pessoas.

O Brasil é hoje o maior exportador mundial de soja, açúcar, suco de laranja, carne, frango e café. É o segundo maior em milho e está nas cinco primeiras posições em diversos outros produtos.

O cálculo do índice de inflação teve de ser mudado para refletir a queda no custo da alimentação no orçamento familiar, resultado do aumento na produção. A produtividade da soja brasileira é equivalente à dos Estados Unidos; são as campeãs mundiais.

Mais de 60% dos cereais brasileiros, graças a máquinas modernas e a tecnologias de tratamento do solo, são cultivados atualmente pelo sistema de “plantio direto”, que reduz o uso de fertilizantes químicos, permite uma vasta economia no consumo de óleo diesel e resulta no contrário do que nos acusam dia e noite — diminui a emissão de carbono que causa tantas neuroses no Primeiro Mundo.

Tudo isso parece uma solução, mas no Brasil é um problema. Os países ricos defendem ferozmente seus agricultores. Mas acham, com o apoio das nossas classes artísticas, intelectuais, ambientais etc., que aqui eles são bandidos.

A consequência é que o brasileiro aprendeu a apanhar de graça. Veja-se o caso recente do presidente Michel Temer — submeteu-se à humilhação de ouvir um pito dado em público por uma primeira-ministra da Noruega, pela destruição das florestas no Brasil, e não foi capaz de citar os fatos mencionados acima para defender o país que preside. Não citou porque não sabia, como não sabem a primeira-ministra e a imensa maioria dos próprios brasileiros. Ninguém, aí, está interessado em informação.

Em matéria de Amazônia, “sustentabilidade” e o mundo verde em geral, prefere-se acreditar em Gisele Bündchen ou alguma artista de novela que não saberia dizer a diferença entre o Rio Xingu e a Serra da Mantiqueira. É automático. “Estrangeiro bateu no Brasil, nesse negócio de ecologia? Só pode ter razão. ”

Nada explica melhor esse estado de desordem mental do que a organização “Farms Here, Forests There” (fazendas aqui, florestas lá)  atualmente um dos mais ativos e poderosos lobbies na defesa dos interesses da agricultura americana  Não tiveram nem a preocupação de adotar um nome menos agressivo — e não parecem preocupados em dar alguma coerência à sua missão de defender “fazendas aqui, florestas lá”.

Sustentam com dinheiro e influência política os Green¬peaces deste mundo, inclusive no Brasil. Seu objetivo é claro. A agropecuária  deve ser atividade privativa dos países ricos — ou então dos mais miseráveis, que jamais lhes farão concorrência e devem ser estimulados a manter uma agricultura “familiar” ou de subsistência, com dois pés de mandioca e uma bananeira, como querem os bispos da CNBB e os inimigos do “agronegócio”.

Fundões como o Brasil não têm direito a criar progresso na terra. Devem limitar-se a ter florestas, não disputar mercados e não perturbar a tranquilidade moral das nações civilizadas, ecológicas e sustentáveis. E os brasileiros — vão comer o quê? Talvez estejam nos aconselhando, como Maria Antonieta na lenda dos brioches: “Comam açaí

17/08/2019 10:50

A quem serviu a polarização política?

A quem serviu a polarização política?

Já escrevi aqui que a polarização política não era boa estratégia para o Partido dos Trabalhadores, que nela investiu e nela quer permanecer, como indica a escolha de Lula, que resolveu manter Gleisi Hofmann à frente dos destinos da agremiação.

A polarização na qual apostou o PT, desde o final dos anos 1990, opunha o partido de Lula ao PSDB, ambos representantes, com nuances, da social-democracia tupiniquim.

Foram oito anos de Fernando Henrique, que venceu Lula por duas vezes (1994 e 1998), e oito de Lula, que bateu José Serra e Geraldo Alckmin, em 2002 e 2006. Seguiram-se quatro anos de Dilma, que venceu José Serra, e seriam mais quatro anos da primeira presidente, após a vitória sobre Aécio Neves, quando sobreveio o impeachment, em 2016.

A aposta petista era que o confronto se dava entre Estado forte versus Estado neoliberal, uma farsa gigantesca, afinal os dois partidos tinham e têm mais convergências do que divergências, que quando existem são pontuais, cosméticas.

O PT apostou num discurso fraudulento, o da reinvenção do Brasil e que, para chegar ao sucesso que se avizinhava, o cidadão brasileiro não deveria permitir o retrocesso, como, por exemplo, a volta das privatizações, possivelmente a única diferença mais séria entre petistas e tucanos.

O PSDB caiu no conto do vigário e escondeu o ex-presidente Fernando Henrique, durante as campanhas de Serra (2002 e 2010) e de Alckmin (2006). Somente na campanha de Aécio, em 2014, o tucanato resolveu assumir a identidade parcialmente privatizante dos anos 1990.

O resultado para o partido que nasceu da costela do velho PMDB, na segunda metade da década de 1980, foi um discurso morno, em 2002, insosso em 2006, quando Alckmin conseguiu a proeza de ter menos votos no segundo turno do que tivera no primeiro, e a ciclotimia da campanha de Serra, em 2010, quando o partido tentou uma guinada muito à direita.

Ao assumirem a identidade em 2014, acatando a polarização proposta pelo PT, Aécio Neves chegou ao segundo turno com chances reais de bater Dilma.

E por quê?

Por uma questão, primeiro, relativamente simples: o partido subiu a rampa do Planalto à bordo do Plano Real e o manteve nos dois mandatos de FHC. E parte do sucesso de Lula, nunca é demais reforçar, deve-se à estabilidade econômica conquistada às duras penas por meio do Plano Real.

Segundo, mesmo as privatizações, a despeito de erros que tenham sido cometidos, mudaram significativamente as condições econômicas do país, evitaram a quebra da Embratel, tornaram a Vale uma das maiores do mundo no setor e garantiram à Embraer condições para competir em igualdade de condições com gigantes do setor.

Aécio mostrou as duas coisas: o Plano Real e as privatizações foram uma construção e marca do tucanato e trouxeram benefícios para o país.

Muito do que Lula colheu foi plantado por seus antecessores, Itamar e Fernando Henrique – e mesmo por José Sarney, o donatário do Maranhão. Ou seja, a colheita do “nós”, como os petistas se referem a si mesmos, foi plantada por “eles”, como são designados os adversários do petismo pelos petistas mais estreitos e caolhos.

Terceiro, apostar na polarização e desmerecer os valores de adversários legítimos abriu a brecha por onde entraram grupos políticos, organizados e desorganizados, que não têm nenhuma vergonha de se assumirem como adversários, e até inimigos, do petismo, vereda que permitiu a Jair Bolsonaro abrir caminho em direção ao Palácio do Planalto.

A luta que hoje poderia se dar em torno de ideias passou para o terreno da agressão e segue, célere, rumo ao silenciamento do outro, a saber, de todos aqueles que discordam de propostas extremistas.

A civilização, por ora, só pode ser vislumbrada pelo retrovisor.

09/08/2019 18:22

Há futuro no Future-se?

Há futuro no Future-se?

Li um sem-número de análises sobre o programa Future-se – lançado pelo governo Bolsonaro, distante ideologicamente até do centro político –, quase todas feitas com o fígado. Também ouço manifestações em série, contra ou a favor, de quem não leu a proposta.

Talvez seja mesmo difícil, neste momento conturbado e até meio irracional, analisá-lo com base em evidências factuais e minimamente racionais

Dirigentes de instituições federais de ensino (IFES), professores e alunos dizem que o Future-se é uma volta ao passado, pois impedirá “o acesso dos pobres ao ensino superior”. Já há quem o apelide de Fature-se, pois seria a entrega das IFES à sanha do mercado financeiro, de banqueiros sagazes e sequiosos por encher as burras com o dinheiro do sofrido povo brasileiro.

Não sou especialista em quase nada. Mas, curioso, gosto de mexer e remexer em textos sobre variados assuntos, para me inteirar deles e evito discutir com quem fala ou escreve com desconhecimento mínimo do assunto sobre o qual se propõe a falar ou escrever. Quem desconhece um assunto e resolve debatê-lo faz críticas genéricas demais ou parte para a negação pura e simples do que leu. Mais, quem desconhece um tema e insiste e resolve discuti-lo é, no mínimo, intelectualmente desonesto.

O Ministério da Educação apresentou o Future-se oficialmente para a mídia no dia 17 de julho último, sem que houvesse participação das IFES na sua elaboração. Esta foi, possivelmente, a crítica mais repetida. 

Existem alguns vícios de origem, um já citado acima: o alijamento das IFES do processo de discussão e de construção da proposta.

No momento, o MEC propõe um período rápido de consulta pública, pressa que termina por ser outro problema, dado que um plano complexo como o apresentado exige prazo dilatado para discussão detalhada. Ademais, o momento escolhido para lançamento da proposta não foi o mais propícia (ou foi?) – com as IFES em situação de colapso orçamentário, advindo do bloqueio de 30% da verba de custeio e de capital.

Uma leitura preliminar, mesmo aligeirada, suscita dúvidas primárias. Identificar os problemas, porém, não é e nem deve ser impedimento para o diálogo que visa ao aprimoramento da projeto.

Se as IFES querem sair da situação de xeque em que estão, os seus dirigentes devem apontar os erros da proposta e levantar sugestões para ajustá-la, sem deixar de reconhecer que ela pode carregar pontos positivos. Negá-los por pirraça, birra ou vinculação ideológica denota imaturidade, até insanidade.

Há algumas constatações positivas quanto ao mérito do Future-se: o MEC, que já tratou as IFES como locais de balbúrdia, reconhece que elas fazem um trabalho meritório para o futuro do país; muitas das atividades desenvolvidas nas IFES foram agrupadas em um documento único, compilando boas práticas com propostas, positivas ou não, para o futuro do financiamento delas (IFES) e o plano tenta solucionar um problema concreto, a saber, o desestímulo para a captação de recursos próprios, decorrente de uma legislação que exclui os recursos captados do orçamento das IFES.

O Future-se é – e não poderia ser muito diferente – uma proposta cheia de brechas e algumas zonas turvas, mas chama a atenção para um problema concreto do sistema de ensino superior, técnico e tecnológico brasileiro, a saber, como financiar instituições educacionais que precisam, por uma questão de sobrevivência, estar presentes numa disputa globalizada.

Um dos graves problemas de nossas IFES é que funcionam como departamentos públicos nos quais a confusão entre público e estatal é corriqueiro, onde buscar recursos privados é anátema, apontou um experiente professor universitário.

Parte das discussões e debates que tenho assistido sobre o Future-se tem sido uma sucessão de chavões e jargões expostos por pessoas que se vestem de intelectuais e falam como sindicalistas. Que sindicalistas assim ajam e se comportem, não faço reparos. Afinal, se assim não fizerem serão apodados como pelegos e “vendilhões da classe trabalhadora”. Agora, professores e intelectuais vestirem o modelito sindical como se acadêmico fosse demonstra a pobreza da discussão e põe no mesmo vagão os interesses das corporações sindicais como se interesses das IFES fossem, e nem sempre – ou quase nunca – são.

O Future-se, conforme estabelece a proposta, funcionará a partir de adesão. As IFES que aderirem estarão aceitando as regras de gestão. As que tiverem dificuldades para captar recursos serão auxiliadas pelo Ministério da Educação, que assume o compromisso de aportá-los. Quem não aderir à proposta, fica como está.

O projeto toca em questões cruciais e, por isso mesmo, implicará em alterações em vários marcos legais, deixando mais flexível a gestão das IFES, retirando-as do tacão asfixiante da gestão da administração pública, por meio da contratação de uma Organização Social (OS).

As OS podem se beneficiar da cessão de servidores da instituição contratada, mas terão de agilizar compras e contratação de serviços sem as costumeiras dificuldades da execução orçamentária que amarra o setor estatal, cuja consequência será, em tese, a queda do custo de contratação de uma pesquisa ou de um serviço.

Há pontos mal explicados e algumas inconsistências. A atuação da OS se insere no primeiro; a expectativa de formar um fundo de R$ 100 bilhões com o ativo imobiliário das IFES insere-se no segundo.

Ouvi a fala de um professor dizendo que o programa trará hierarquização das IFES, como se isso já não existisse hoje. Ora, como a sociedade e mesmo a academia vê a UFRJ, UFMG, etc. Ou mesmo as estaduais USP e UNICAMP? Há quem diga que a hierarquização de hoje vai se aprofundar, com algumas IFES se fortalecendo ainda mais, como centros de ensino e de pesquisa, e outras restringindo-se “apenas” ao ensino. No entanto, nem toda instituição de ensino superior, para ser importante, precisa ser instituição de nomeada. Talvez até cumpra melhor o seu papel se fizer aquilo que faz melhor. Se se destaca como instituição eminentemente de ensino, que assim seja; caso consiga ser muito boa em ensino e extensão, que faça ambas as coisas; se mantiver de pé, e bem, o tripé ensino, pesquisa e extensão, que siga a trilha.

O caminho a ser percorrido é longo e árduo. O Future-se é apenas uma proposta. Inicial, ressalte-se, em fase de consulta pública, que seguirá ao Congresso Nacional, será bombardeada e submetida a negociação, antes de se tornar lei (ou não).

Discuti-la de forma madura e racional deveria ser a tarefa nas IFES. No entanto, mal dado o pontapé inicial, os jogadores, que reclamaram de não terem sido ouvidos antes, sentam-se em cima da bola e se recusam a jogar. Não parece ser uma atitude inteligente e perspicaz, pois podem perder o mando de campo, que sabe-se lá quando vem de novo.

03/08/2019 12:55

Nós e eles, eles e nós

Nós e eles, eles e nós

O jogo começou, parece não ter hora para terminar e segue, em marcha batida, o roteiro traçado pelos petistas e satélites e bolsonaristas e satélites rumo a uma infindável polarização.

Quem inventou o “nós contra eles” foi o PT; o pessoal de Bolsonaro agarrou o discurso petista e mudou o sinal.

Os tucanos, envergonhados, aceitaram o binarismo tolo e/ou abjeto, sem, contudo, embarcar no “vale tudo”.

O PSDB não defendia o legado de Fernando Henrique Cardoso, não defendia a privatização de estatais ineficientes ou cabides de empregos ou ainda cofre de aliados políticos de ocasião, tampouco defendia o Plano Real, o único, desde o PAEG, a pôr o país no rumo da racionalidade econômica.

De 2014 em diante, a polarização aumentou em volume e em intensidade, com grande parte  do tucanato enveredando pela senda extremista, que resultou no impeachment de Dilma. E dali em diante, as eleições de 2016 e principalmente de 2018 demonstraram, que os grupos políticos que se contrapunham ao PT se beneficiaram muito mais dela do que o partido da estrela vermelha, a espoleta que tudo deflagrou.

O pleito de 2018 demonstrou cabalmente que qualquer liderança política que pusesse em cena um discurso racional e moderado seria tragada pela maré montante do radicalismo político, de esquerda ou de direita.

Restaram, no segundo turno, os polos mais intransigentes e um enorme deserto no centro moderado.

A polarização, aposta do PT em 2010 e 2014, engoliu o seu principal líder, moeu as suas principais lideranças e entregou, na bandeja, a chefia do poder executivo ao “eles”, que, há quatro anos, não se envergonham de dizer o que são.

Agora gritam os mais ferrenhos adversários do partido de Lula: “São eles contra nós”.

28/07/2019 09:56

Do liberalismo econômico clássico aos neoliberais

Do liberalismo econômico clássico aos neoliberais

A teoria econômica é complexa e, como toda a área de ciências humanas e sociais, carrega uma gama de autores com os mais variados perfis: liberais clássicos, liberais neoclássicos, marxistas, keynesianos, estruturalistas, monetaristas, etc.  

Duas correntes teóricas tão atacadas quanto desconhecidas são a liberal (clássica e neoclássica) e a marxista. A crítica quase sempre é genérica, típica de quem não tem leitura mínima sobre o assunto ou de quem o desconhece totalmente.

Há um monte de gente por aí escrevendo sobre história e teoria econômica sem nunca ter lido, a sério, um livro de teoria econômica. Por isso mesmo, do alto da ignorância, apontam, desonestamente, teóricos consagrados da área como superficiais.

No programa “Roda Viva”, da TV Cultura, Roberto de Oliveira Campos disse não conhecer o neoliberalismo, mas sabia existirem neoliberais. Segundo ele, o neoliberalismo é apenas o produto do liberalismo econômico neoclássico, que, por sua vez, é uma redefinição do liberalismo clássico. Logo não há uma escola neoliberal e sim uma escola liberal. 

Há anos demonizado por quem nunca o leu, o escocês Adam Smith foi o criador de uma obra monumental e dos alicerces do pensamento econômico e um dos principais pensadores do século XVIII. Professor inicialmente de Lógica e depois de Filosofia Moral, escreveu uma obra importante, Teoria dos Sentimentos Morais, que o alçou à condição de estrela de primeira grandeza no mundo intelectual. Ressalte-se que Filosofia Moral era uma disciplina de concepção extremamente abrangente naquele tempo, pois englobava Teologia Natural, a nascente Economia Política, Ética e Jurisprudência.

Na década de 1760 passou uma temporada na França, onde começou a trabalhar no esboço de um tratado de economia política, assunto de suas aulas na Escócia e discutido à exaustão com David Hume. A obra, A Riqueza das Nações, concebida como um libelo contra as políticas comerciais britânicas que, segundo ele, enfraqueciam as colônias, desviavam a energia da nação e afundavam em rivalidade os países da Europa, revolucionou o pensamento econômico.

 A Riqueza das Nações foi também pensada como uma espécie de contraponto às obras de François Quesnay, principal expoente da fisiocracia e outro monstro do pensamento econômico, a quem Smith dedicara o livro.

Quesnay, médico de Mme. Pompadour e doutor da corte de Luís XV, era o maior pensador econômico francês e responsável pela elaboração de um esquema de explicação para o funcionamento da economia denominado tableau éconimique, proposta que se opunha à ideia de que a riqueza de um país estava associada ao acúmulo de ouro e prata. Para o pensador francês, a riqueza econômica originava-se da produção e difundia-se pelo país.

As ideias de Quesnay, segundo Smith, beiravam à perfeição, mas traziam consigo um entrave para o correto entendimento acerca dos motivos pelos quais um país enriquece: a ideia de que apenas o trabalhador agrícola produz a verdadeira riqueza e que os trabalhadores da indústria e do comércio alteravam de forma estéril a sua forma.

Precursor dos princípios liberais econômicos, Quesnay falhou enormemente ao descrever o setor industrial como desempenhando apenas uma manipulação estéril da natureza.

Não considerar que o trabalho em qualquer setor poderia produzir riqueza foi o erro que lançou Quesnay à vala comum dos que dão contribuição para o desenvolvimento da ciência, mas que não adquirem o status de ícones do pensamento científico. Perceber o erro do mestre e corrigi-lo foi o diferencial de Smith, o ato que o alçou à condição de fundador de uma ciência, a Economia.  

A divisão do trabalho ocupa um lugar de destaque na doutrina liberal clássica. O pressuposto está centrado no princípio de que o egoísmo é inato ao homem e na ideia de que os homens devem ser livres para dar asas às suas pulsões egoístas.

A pressuposição de que os homens são egoístas foi levantada por Thomas Hobbes. Para ele, se não houvessem mecanismos coercitivos, os homens se lançariam uns sobre os outros num estado guerra que a todos exterminaria. Por isso, a vida do homem seria “solitária, pobre, torpe, bestial e curta”. Havia uma forma de a isso escapar: a instauração de um poder absoluto ao qual todo homem deveria obediência em troca de proteção contra a ameaça representada por outros homens.

Adam Smith resolveu com maestria o enigma hobbesiano. Sem negar a existência da competição e da rivalidade geradas pelo egoísmo inato e irrestrito dos homens, Smith advogava que as relações de competição eram benéficas para os indivíduos e para a sociedade, pois os indivíduos esforçam-se “continuamente para encontrar o emprego mais vantajoso para o capital, seja ele qual for (...)”. Todo indivíduo que não tiver capital, buscará uma ocupação remunerada que lhe traga o maior retorno monetário possível. Se capitalistas e trabalhadores ficassem entregues às leis que regulam o funcionamento do mercado, o interesse de cada um levá-los-ia a empregar seu capital ou seu trabalho onde fosse mais produtivo e mais rendoso. Por isso, Adam Smith era contrário a qualquer forma de intervenção que estabelecesse o que deveria ser produzido.

Os produtores das mais diversas e variadas mercadorias devem, ensinava Smith, concorrer no mercado e disputar a preferência e o dinheiro dos consumidores. Aquele que oferecer o melhor produto pelo preço mais baixo atrairá os consumidores. “Não é da benevolência”, afirmou com o criador da Ciência Econômica, “do açougueiro, do cervejeiro, do padeiro que esperamos nosso jantar, mas de sua preocupação com o seu próprio interesse”. O interesse próprio, fruto do egoísmo, levará cada capitalista a aprimorar a qualidade de suas mercadorias. Vender o melhor pelo menor preço possível significará o aumento das vendas e, consequentemente, o aumento dos lucros.

Apesar de ser um grande livro, A Riqueza das Nações não é propriamente uma obra original, visto que toma emprestada uma visão de mundo de uma longa lista de pensadores: Petty, Locke, Turgot, Quesnay, Hume, etc. Mas onde todos estes lançaram impressões esparsas sobre temáticas econômicas, Smith refletiu amplamente, lançando luzes sobre todo o cenário econômico – descrevendo da especialização do trabalho numa fábrica de alfinetes aos últimos distúrbios nas colônias americanas, inclusive sobre o papel que as treze colônias iriam desempenhar (uma nação formidável “que, sem dúvida, prometia se transformar na maior e mais formidável do mundo”).

O livro é a um só tempo denso e revolucionário. Denso porque escrito para expor uma doutrina eficiente para dirigir um império – e não simplesmente para fomentar discussões acadêmicas. Revolucionário porque em pleno processo inicial de consolidação e expansão do capitalismo, não se mostra como um apologista do burguês empreendedor mas como um admirador do seu trabalho, embora desconfiado de seus motivos, sendo a sua preocupação maior promover a riqueza pela nação inteira; só possível com a produção das mercadorias que todas as pessoas da sociedade consomem. De certa forma a necessidade de produzir mercadorias em grande número e de boa qualidade inibirá as forças centrífugas da sociedade; é do egoísmo que nascerá a coesão social, pois é do interesse individual que são atendidos os interesses do grupo, sem necessidade de qualquer autoridade política.

Para o pensador escocês haveria uma mão invisível responsável por orientar as paixões e as vontades individuais na direção de algo benéfico “para o interesse da sociedade inteira”. É dessa proposição que ele formula os pressupostos das leis do mercado, parte integrante de leis maiores que causam a prosperidade ou a queda da sociedade. São elas que nos apontam que a influência de algum costume numa dada estrutura social traz resultados previsíveis. O egoísmo individual em um ambiente tomado por indivíduos motivados leva à competição – o que significa a produção das mercadorias que a sociedade quer, nas quantidades que exige e nos preços que está apta a pagar.

O interesse e o egoísmo dos indivíduos agem como um poder orientador para dirigir os homens a qualquer trabalho que a sociedade esteja disposta a recompensar e a competição entre os indivíduos egoístas agem como um fator regulador, pois amainaria os efeitos nocivos, para a sociedade, do egoísmo individual. Como cada indivíduo quer tirar vantagem de seu companheiro de cobiça, aquele que perder o interesse próprio logo descobrirá que outros competidores ocuparam o lugar dele. O que a primeira vista poderia significar o caos renderia um quadro de harmonia social. Desobedecer a esses imperativos significa, conforme Smith, a ruína econômica.

No período em que Adam Smith escreveu A Riqueza das Nações, o mundo social e econômico funcionava dessa forma, porque o ambiente econômico era de grande competição, com vários pequenos produtores se enfrentando num mercado extremamente atomizado, um mundo bem diferente do de hoje. Mas ainda assim, as ideias de Smith, escritas para explicar o mundo do século XVIII, ainda podem ser aplicadas no mundo atual.     

Como dissemos, citando Roberto Campos, o neoliberalismo é apenas um produto do liberalismo econômico neoclássico, uma redefinição do liberalismo clássico

A origem do termo neoliberalismo deve ser remetida à Escola Austríaca, mais precisamente aos economistas Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek, que formularam o pensamento econômico a partir da Lei de Say e da teoria marginalista, contestadas pelo britânico John Keynes, contemporâneo de ambos.

O pensamento de Lorde Acton, de Adam Smith e de Jean B. Say foram fundamentais na construção e no desenvolvimento do pensamento de Hayek, pois enfatizava a importância central da moralidade no desenvolvimento de uma civilização avançada. Para Hayek, uma economia próspera e o desenvolvimento da lei como um processo evolucionário requerem uma sólida ordem moral. Sem isso não haverá uma sociedade saudável, próspera e livre.

A economia mundial experimentou praticamente duas décadas de crescimento contínuo. O lastro de tal crescimento está nos princípios liberais esboçados por Smith, Ricardo, Say, os neoclássicos (Cournot, Marshall, etc), Hayek, Mises, Friedman, etc. O modelo, é verdade, tem suas limitações, mas garantiu crescimento econômico, superou uma sucessão de crises e legou à parte da periferia do capitalismo um lugar de destaque no cenário mundial.

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