Sérgio Trindade

03/08/2019 12:55

Nós e eles, eles e nós

Nós e eles, eles e nós

O jogo começou, parece não ter hora para terminar e segue, em marcha batida, o roteiro traçado pelos petistas e satélites e bolsonaristas e satélites rumo a uma infindável polarização.

Quem inventou o “nós contra eles” foi o PT; o pessoal de Bolsonaro agarrou o discurso petista e mudou o sinal.

Os tucanos, envergonhados, aceitaram o binarismo tolo e/ou abjeto, sem, contudo, embarcar no “vale tudo”.

O PSDB não defendia o legado de Fernando Henrique Cardoso, não defendia a privatização de estatais ineficientes ou cabides de empregos ou ainda cofre de aliados políticos de ocasião, tampouco defendia o Plano Real, o único, desde o PAEG, a pôr o país no rumo da racionalidade econômica.

De 2014 em diante, a polarização aumentou em volume e em intensidade, com grande parte  do tucanato enveredando pela senda extremista, que resultou no impeachment de Dilma. E dali em diante, as eleições de 2016 e principalmente de 2018 demonstraram, que os grupos políticos que se contrapunham ao PT se beneficiaram muito mais dela do que o partido da estrela vermelha, a espoleta que tudo deflagrou.

O pleito de 2018 demonstrou cabalmente que qualquer liderança política que pusesse em cena um discurso racional e moderado seria tragada pela maré montante do radicalismo político, de esquerda ou de direita.

Restaram, no segundo turno, os polos mais intransigentes e um enorme deserto no centro moderado.

A polarização, aposta do PT em 2010 e 2014, engoliu o seu principal líder, moeu as suas principais lideranças e entregou, na bandeja, a chefia do poder executivo ao “eles”, que, há quatro anos, não se envergonham de dizer o que são.

Agora gritam os mais ferrenhos adversários do partido de Lula: “São eles contra nós”.

28/07/2019 09:56

Do liberalismo econômico clássico aos neoliberais

Do liberalismo econômico clássico aos neoliberais

A teoria econômica é complexa e, como toda a área de ciências humanas e sociais, carrega uma gama de autores com os mais variados perfis: liberais clássicos, liberais neoclássicos, marxistas, keynesianos, estruturalistas, monetaristas, etc.  

Duas correntes teóricas tão atacadas quanto desconhecidas são a liberal (clássica e neoclássica) e a marxista. A crítica quase sempre é genérica, típica de quem não tem leitura mínima sobre o assunto ou de quem o desconhece totalmente.

Há um monte de gente por aí escrevendo sobre história e teoria econômica sem nunca ter lido, a sério, um livro de teoria econômica. Por isso mesmo, do alto da ignorância, apontam, desonestamente, teóricos consagrados da área como superficiais.

No programa “Roda Viva”, da TV Cultura, Roberto de Oliveira Campos disse não conhecer o neoliberalismo, mas sabia existirem neoliberais. Segundo ele, o neoliberalismo é apenas o produto do liberalismo econômico neoclássico, que, por sua vez, é uma redefinição do liberalismo clássico. Logo não há uma escola neoliberal e sim uma escola liberal. 

Há anos demonizado por quem nunca o leu, o escocês Adam Smith foi o criador de uma obra monumental e dos alicerces do pensamento econômico e um dos principais pensadores do século XVIII. Professor inicialmente de Lógica e depois de Filosofia Moral, escreveu uma obra importante, Teoria dos Sentimentos Morais, que o alçou à condição de estrela de primeira grandeza no mundo intelectual. Ressalte-se que Filosofia Moral era uma disciplina de concepção extremamente abrangente naquele tempo, pois englobava Teologia Natural, a nascente Economia Política, Ética e Jurisprudência.

Na década de 1760 passou uma temporada na França, onde começou a trabalhar no esboço de um tratado de economia política, assunto de suas aulas na Escócia e discutido à exaustão com David Hume. A obra, A Riqueza das Nações, concebida como um libelo contra as políticas comerciais britânicas que, segundo ele, enfraqueciam as colônias, desviavam a energia da nação e afundavam em rivalidade os países da Europa, revolucionou o pensamento econômico.

 A Riqueza das Nações foi também pensada como uma espécie de contraponto às obras de François Quesnay, principal expoente da fisiocracia e outro monstro do pensamento econômico, a quem Smith dedicara o livro.

Quesnay, médico de Mme. Pompadour e doutor da corte de Luís XV, era o maior pensador econômico francês e responsável pela elaboração de um esquema de explicação para o funcionamento da economia denominado tableau éconimique, proposta que se opunha à ideia de que a riqueza de um país estava associada ao acúmulo de ouro e prata. Para o pensador francês, a riqueza econômica originava-se da produção e difundia-se pelo país.

As ideias de Quesnay, segundo Smith, beiravam à perfeição, mas traziam consigo um entrave para o correto entendimento acerca dos motivos pelos quais um país enriquece: a ideia de que apenas o trabalhador agrícola produz a verdadeira riqueza e que os trabalhadores da indústria e do comércio alteravam de forma estéril a sua forma.

Precursor dos princípios liberais econômicos, Quesnay falhou enormemente ao descrever o setor industrial como desempenhando apenas uma manipulação estéril da natureza.

Não considerar que o trabalho em qualquer setor poderia produzir riqueza foi o erro que lançou Quesnay à vala comum dos que dão contribuição para o desenvolvimento da ciência, mas que não adquirem o status de ícones do pensamento científico. Perceber o erro do mestre e corrigi-lo foi o diferencial de Smith, o ato que o alçou à condição de fundador de uma ciência, a Economia.  

A divisão do trabalho ocupa um lugar de destaque na doutrina liberal clássica. O pressuposto está centrado no princípio de que o egoísmo é inato ao homem e na ideia de que os homens devem ser livres para dar asas às suas pulsões egoístas.

A pressuposição de que os homens são egoístas foi levantada por Thomas Hobbes. Para ele, se não houvessem mecanismos coercitivos, os homens se lançariam uns sobre os outros num estado guerra que a todos exterminaria. Por isso, a vida do homem seria “solitária, pobre, torpe, bestial e curta”. Havia uma forma de a isso escapar: a instauração de um poder absoluto ao qual todo homem deveria obediência em troca de proteção contra a ameaça representada por outros homens.

Adam Smith resolveu com maestria o enigma hobbesiano. Sem negar a existência da competição e da rivalidade geradas pelo egoísmo inato e irrestrito dos homens, Smith advogava que as relações de competição eram benéficas para os indivíduos e para a sociedade, pois os indivíduos esforçam-se “continuamente para encontrar o emprego mais vantajoso para o capital, seja ele qual for (...)”. Todo indivíduo que não tiver capital, buscará uma ocupação remunerada que lhe traga o maior retorno monetário possível. Se capitalistas e trabalhadores ficassem entregues às leis que regulam o funcionamento do mercado, o interesse de cada um levá-los-ia a empregar seu capital ou seu trabalho onde fosse mais produtivo e mais rendoso. Por isso, Adam Smith era contrário a qualquer forma de intervenção que estabelecesse o que deveria ser produzido.

Os produtores das mais diversas e variadas mercadorias devem, ensinava Smith, concorrer no mercado e disputar a preferência e o dinheiro dos consumidores. Aquele que oferecer o melhor produto pelo preço mais baixo atrairá os consumidores. “Não é da benevolência”, afirmou com o criador da Ciência Econômica, “do açougueiro, do cervejeiro, do padeiro que esperamos nosso jantar, mas de sua preocupação com o seu próprio interesse”. O interesse próprio, fruto do egoísmo, levará cada capitalista a aprimorar a qualidade de suas mercadorias. Vender o melhor pelo menor preço possível significará o aumento das vendas e, consequentemente, o aumento dos lucros.

Apesar de ser um grande livro, A Riqueza das Nações não é propriamente uma obra original, visto que toma emprestada uma visão de mundo de uma longa lista de pensadores: Petty, Locke, Turgot, Quesnay, Hume, etc. Mas onde todos estes lançaram impressões esparsas sobre temáticas econômicas, Smith refletiu amplamente, lançando luzes sobre todo o cenário econômico – descrevendo da especialização do trabalho numa fábrica de alfinetes aos últimos distúrbios nas colônias americanas, inclusive sobre o papel que as treze colônias iriam desempenhar (uma nação formidável “que, sem dúvida, prometia se transformar na maior e mais formidável do mundo”).

O livro é a um só tempo denso e revolucionário. Denso porque escrito para expor uma doutrina eficiente para dirigir um império – e não simplesmente para fomentar discussões acadêmicas. Revolucionário porque em pleno processo inicial de consolidação e expansão do capitalismo, não se mostra como um apologista do burguês empreendedor mas como um admirador do seu trabalho, embora desconfiado de seus motivos, sendo a sua preocupação maior promover a riqueza pela nação inteira; só possível com a produção das mercadorias que todas as pessoas da sociedade consomem. De certa forma a necessidade de produzir mercadorias em grande número e de boa qualidade inibirá as forças centrífugas da sociedade; é do egoísmo que nascerá a coesão social, pois é do interesse individual que são atendidos os interesses do grupo, sem necessidade de qualquer autoridade política.

Para o pensador escocês haveria uma mão invisível responsável por orientar as paixões e as vontades individuais na direção de algo benéfico “para o interesse da sociedade inteira”. É dessa proposição que ele formula os pressupostos das leis do mercado, parte integrante de leis maiores que causam a prosperidade ou a queda da sociedade. São elas que nos apontam que a influência de algum costume numa dada estrutura social traz resultados previsíveis. O egoísmo individual em um ambiente tomado por indivíduos motivados leva à competição – o que significa a produção das mercadorias que a sociedade quer, nas quantidades que exige e nos preços que está apta a pagar.

O interesse e o egoísmo dos indivíduos agem como um poder orientador para dirigir os homens a qualquer trabalho que a sociedade esteja disposta a recompensar e a competição entre os indivíduos egoístas agem como um fator regulador, pois amainaria os efeitos nocivos, para a sociedade, do egoísmo individual. Como cada indivíduo quer tirar vantagem de seu companheiro de cobiça, aquele que perder o interesse próprio logo descobrirá que outros competidores ocuparam o lugar dele. O que a primeira vista poderia significar o caos renderia um quadro de harmonia social. Desobedecer a esses imperativos significa, conforme Smith, a ruína econômica.

No período em que Adam Smith escreveu A Riqueza das Nações, o mundo social e econômico funcionava dessa forma, porque o ambiente econômico era de grande competição, com vários pequenos produtores se enfrentando num mercado extremamente atomizado, um mundo bem diferente do de hoje. Mas ainda assim, as ideias de Smith, escritas para explicar o mundo do século XVIII, ainda podem ser aplicadas no mundo atual.     

Como dissemos, citando Roberto Campos, o neoliberalismo é apenas um produto do liberalismo econômico neoclássico, uma redefinição do liberalismo clássico

A origem do termo neoliberalismo deve ser remetida à Escola Austríaca, mais precisamente aos economistas Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek, que formularam o pensamento econômico a partir da Lei de Say e da teoria marginalista, contestadas pelo britânico John Keynes, contemporâneo de ambos.

O pensamento de Lorde Acton, de Adam Smith e de Jean B. Say foram fundamentais na construção e no desenvolvimento do pensamento de Hayek, pois enfatizava a importância central da moralidade no desenvolvimento de uma civilização avançada. Para Hayek, uma economia próspera e o desenvolvimento da lei como um processo evolucionário requerem uma sólida ordem moral. Sem isso não haverá uma sociedade saudável, próspera e livre.

A economia mundial experimentou praticamente duas décadas de crescimento contínuo. O lastro de tal crescimento está nos princípios liberais esboçados por Smith, Ricardo, Say, os neoclássicos (Cournot, Marshall, etc), Hayek, Mises, Friedman, etc. O modelo, é verdade, tem suas limitações, mas garantiu crescimento econômico, superou uma sucessão de crises e legou à parte da periferia do capitalismo um lugar de destaque no cenário mundial.

24/07/2019 07:06

Sonhos ditatoriais

Sonhos ditatoriais

Fui diretor acadêmico, por cinco anos e meio, entre 2008 e 2014, do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), campus Santa Cruz. No período, não vou entrar em detalhes, senti na pele como é difícil ser gestor no Brasil.

Certa feita, depois de uma reunião tumultuada, ao final da manhã, fomos aliviar o stress, à noite, na Praça Tequinha Farias, e um colega elogiou minha postura democrática na condução da tertúlia matutina, mesmo eu tendo sido afrontado por alguns colegas. Respondi-lhe que o meu sonho não era ser um democrata, mas um ditador.

A experiência no Trairi reforçou minhas impressões. Ser ditador é o caminho. E permaneci acalentando o sonho. Mas não um ditadorzinho qualquer, com dúvidas e incertezas na hora de mandar e com poderes cerceados por algumas forças encobertas ou dissimuladas. Assim não quero. Quero ser O Ditador, no estilo cesarista, ou um déspota esclarecido, capaz de penetrar nas profundezas da sociedade e impor meus desejos e minhas pretensões. Segue abaixo o meu decálogo:

1) Toda autoridade pública, principalmente da área educacional, seria obrigada a matricular os seus filhos em escolas públicas.

2) Todos os diretores de escola, reitores, pro-reitores de ensino, secretários de educação municipais e estaduais, diretores do ministério da educação e ministro da educação teriam de se submeter aos exames nacionais de ensino, e os resultados seriam publicizados.

3) Todo servidor público comissionado e todos os servidores da saúde teriam de tratar em postos de saúde e hospitais públicos.

4) Os setores que embaraçassem ou retardassem as ações sob sua responsabilidade seriam denunciados como inoperantes e, em caso de reincidência, os funcionários teriam os salários descontados.

5) As autoridades policiais seriam remuneradas de acordo com o índice de resolução de crimes, promotores pela eficiência e eficácia na condução de processos e juízes pela capacidade de despachar processos e condenar os criminosos.

6) Médicos e dentistas teriam debitadas do valor da consulta o tempo de espera a que submetessem os pacientes; o mesmo valeria para todos os profissionais liberais.

7) Advogados pegos em conluio para encobrir ou facilitar crimes teriam o registro profissional cassado sumariamente.

8) Apenados seriam separados pela gravidade do crime e seriam responsáveis pelo asseio das cadeias e penitenciárias, além de serem obrigados a trabalhar durante o período da pena, para garantir o sustento.

9) Os industriais teriam de consumir as mercadorias que produzem, o mesmo ocorrendo com fazendeiros e congêneres, donos de restaurantes, de lanchonetes, etc.

10) Qualquer contestação às propostas seria tratada como crime de lesa pátria.

O meu código seria afim do Código de Hamurábi. Enquanto o código mesopotâmico foi alicerçado no princípio de Talião (“olho por olho, dente por dente”), o Código Trindade sustenta-se no “estorve e serás estorvado”.  

Tudo o que expus sustenta-se na ideia de que a economia e a sociedade funcionam bem se os agentes forem premiados e remunerados por aquilo que fizerem. Para os liberais, o mercado, a tal mão invisível, resolveria tudo. Como ela, a mão invisível, aqui nos trópicos ficou tão invisível que sumiu literalmente, um César daria o tom.  Por supuoesto, diria o Bolívar que eu carrego, o Código Trindade é uma zombaria. Mas é uma zombaria séria, dado que por aqui a eficiência e a eficácia, e com ela a democracia, foram sufocadas pela burocracia.

O regime no qual vivemos não é a democracia é o da burocracia. E os burocratas estão encastelados na máquina pública e, também, na iniciativa privada, criando embaraços para, com ele, vislumbrarem a oportunidade de fazer negócios.

Vou ser candidato a ditador em 2022. Minha plataforma já está lançada.

Votem em mim!  

22/07/2019 20:59

Paralelos

Paralelos

FHC está para Lula, como Castelo Branco está para Médici.

Marx, ao se referir ao golpe de Estado de Luís Napoleão, afirmou que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Não sei se sua assertiva é verdadeira. É fato, no entanto, que existem semelhanças entre processos históricos distantes no tempo.

As duas grandes fases brasileiras de crescimento econômico acentuado nos últimos cinquenta anos têm semelhanças significativas. O milagre de Médici e o milagre de Lula têm dois santos a serem reconhecidos.  

Durante quase todo o segundo mandato de Lula cansei de ouvir comentários acerca do carisma inabalável do torneiro mecânico que, pelo seu esforço, chegou à Presidência da República. Lembrei-me quase sempre de duas personagens significativas da história recente do Brasil – Ernesto Garrastazu Médici e Getúlio Dorneles Vargas.

Lula chegou a ser apontado como um novo Vargas. Mas não é necessariamente com Vargas que Lula se parece. O figurino econômico de seu governo, talvez o maior responsável pela sua popularidade recorde, está mais próximo do governo Médici. Há paralelos incontestáveis entre ambos.

                Médici e Lula assumiram a Presidência da República em sequência quase imediata a um doloroso mas necessário período de estabilização econômica. Médici logo após o governo de Costa e Silva e um curto interregno no qual os três ministros militares escantearam o vice-presidente Pedro Aleixo e empalmaram o poder. Costa e Silva iniciou a fase do milagre brasileiro. Médici o finalizou. Lula chegou à Brasília para assumir um país que, após anos de inflação descontrolada, estava nos trilhos, embora não gozasse de plena saúde econômica e financeira. Ambos, Médici e Lula, são devedores de seus antecessores. Lula, de FHC; Médici (e Costa e Silva), de Castelo Branco.

Sem o saneamento econômico-financeiro empreendido durante o governo Castelo Branco, o milagre econômico que atingiu o auge durante o quinquênio de Médici na Presidência da República não seria possível. O mesmo deve-se dizer do governo Lula: sem os ajustes dos anos FHC, o crescimento econômico da era Lula não teria sustentação.

O atual contexto histórico, com as rusgas nas quais estão envolvidas as principais forças políticas do país, impede que se jogue luz na discussão. A emoção e os sofismas lançam um véu sobre o que foi resultado das ações do governo Lula e o que o seu governo deve ao de FHC.

Não há governo que seja continuidade absoluta de outro. Mas há governos que mantêm inalteradas as bases herdadas das gestões que o antecederam. E ainda há governos que são devedores de governos anteriores. Alguns reconhecem, outros maldizem a herança.

Não há indício de que Médici negasse a boa herança legada por Castelo Branco, mesmo este sendo, no seio do Exército, de um grupo adversário. Médici, da linha dura; Castelo, dos moderados.

Mesmo que quisesse, Médici não poderia abdicar da herança de Castelo. Não abdicando, não poderia deixar de reconhecê-la e mesmo bendizê-la. E, ressalte-se, Castelo foi dos poucos presidentes brasileiros que não deixou de fazer o que devia, em matéria econômica, em nome da popularidade.  

Consolidada a tomada do poder e centralizada a autoridade no Executivo, Castelo Branco e seu grupo voltaram-se paulatinamente para os males econômicos que assolavam o país. Não há como desconsiderar, por qualquer ótica, que a economia brasileira estava em frangalhos no início de 1964. O Brasil estava à beira da insolvência, não havia crédito disponível no mercado internacional, a inflação galopante chegara a uma taxa anual de quase 100%, o empresariado, nacional e internacional, com receio do quadro caótico, adiava suas decisões econômicas, exceto aquelas mais imediatas.

Para reverter o quadro, Castelo Branco convocou dois dos mais experimentados economistas do país, Octavio Bulhões e Roberto Campos, e deu-lhes carta branca para pôr o país nos trilhos. Reconhecidos pelos empresários e banqueiros e com vasta experiência no setor público, a dupla Campos-Bulhões elaborou um diagnóstico da economia brasileira num trabalho de mais de 200 páginas intitulado Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG).

O PAEG apontou que seria a inflação a principal responsável pelo desvario econômico-financeiro brasileiro. Sua causa, dizia o trabalho da dupla, era o excesso de demanda. Esta, por sua vez, foi associada aos frequentes déficits públicos e ao excesso de crédito para o setor privado. Para atender a demanda, apontavam Campos e Bulhões, a base monetária era ampliada, o que estimulava um processo violento de inflação e suas consequentes distorções – oscilações bruscas nas taxas de salários reais, desordem no mercado de crédito, entre outros. Tal desorganização afastava completamente as possibilidades de investimento a longo prazo, tão necessário para o crescimento econômico do Brasil.    

Acusados de se venderem à banca internacional e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), a dupla Campos-Bulhões receitou um remédio, apesar de amargo, muito mais leve do que o preconizado pelo FMI. E uma vez receitado, o remédio de Campos e Bulhões não foi dado de uma só vez, pois poderia matar o paciente; foi pingado em doses homeopáticas, num enfoque gradualista radicalmente contrário às doses cavalares e ao tratamento de choque defendido pelo FMI.

A opção de Campos e Bulhões era monetarista, tão do desagrado das correntes econômicas que gravitavam em torno do governo Goulart, demonstrou-se eficaz. O gradualismo liberal-monetarista da dupla brasileira amorteceu alguns efeitos deletérios e preparou o terreno para o crescimento econômico do governo Costa e Silva e, principalmente, do de Médici.

Lula perdeu duas vezes para FHC, ambas no primeiro turno, e ainda assim é apontado como carismático inabalável. Depois venceu duas eleições presidenciais, em 2002 e 2006, e durante quase todo o seu segundo mandato muitos comentaram que o seu carisma sólido e inarredável era o grande responsável pelos seus altíssimos índices de popularidade, como se o carisma não dependesse, nas circunstâncias em que governou, das ações racionais do governante.  

As gestões de Itamar Franco e de Fernando Henrique Cardoso foram as responsáveis por domar o dragão da inflação, que corroeu as bases da economia brasileira por duas décadas. O Plano Real, montado durante o período em que Itamar Franco ocupava o Palácio do Planalto, para onde foi alçado após a queda de Collor, foi sustentado por FHC, quando este, depois de convidado pelo Presidente para assumir a pasta da Fazenda, renunciou ao Ministério das Relações Exteriores e emprestou a sua credibilidade aos projetos de estabilização econômica da nova gestão.

Foi durante o tempo que FHC esteve à frente do Ministério da Fazenda que o Plano Real foi gestado. Foi graças ao Real que FHC capacitou-se para concorrer à Presidência da República, bateu Lula, que esteve durante boa parte do tempo à frente nas pesquisas pré-eleição, no primeiro turno e foi guindado ao posto de primeiro magistrado do nação. Quatro anos depois, repetiu o feito, vencendo o mesmo Lula, também no primeiro turno.

Quem tem menos de vinte anos não sabe o que foi o quadro inflacionário brasileiro entre a década de 1970 e primeira metade dos anos 1990. Os mais afoitos superficializam as medidas econômicas empreendidas pelo governo Fernando Henrique. Muitos não reconhecem que grande parte das conquistas econômicas e sociais nasceram durante os anos que ele ocupou o Palácio do Planalto. Até mesmo o seu partido, o PSDB, chegou a renegar a herança por ele deixada.

17/07/2019 15:05

Da lanchonete à Embaixada do Brasil em Washington

Da lanchonete à Embaixada do Brasil em Washington

Nova celeuma foi criada depois que o Presidente Jair Bolsonaro deixou, desde abril, vago o posto de Embaixador do Brasil nos Estados Unidos, quando de lá retirou Sérgio Amaral, competente e experiente diplomata, e aguardou até a semana passada para lançar um balão de ensaio que passeia entre o melancólico e o hilário – a indicação do próprio filho, Eduardo Bolsonaro, para o posto.

O pai exibiu as credenciais da cria: fala inglês. Como é muito pouco para garantir o cargo, o próprio Eduardo acrescentou algumas linhas: além de inglês, fala espanhol, é amigo dos filhos de Donald Trump, fez intercâmbio no Maine, estado que faz fronteira com o Canadá, e já manobrou uma chapa de hamburgueria. Por último, disse ter uma pós-graduação (Especialização) em Economia, que, agora se sabe, ainda não foi concluída.

Todo Presidente da República eleito e que não cometa ilegalidades e frequentes faltas morais deve ser respeitado, pois é, no presidencialismo, sistema de governo aqui adotado, chefe de Governo e de Estado e representa a Nação.

Grande parte dos problemas, alguns pequenos e outros grandes, pelos quais o atual governo federal passa são decorrentes da inaptidão e da inapetência de Bolsonaro para lidar com o complexo mundo da política num regime democrático. Se ele e parte de seus auxiliares ficassem mudos evitassem medidas açodadas, o governo caminharia melhor.

Não discuto se legalmente o Presidente pode ou não nomear o filho como Embaixador, pois os Presidentes eleitos nomeiam e demitem auxiliares. O Supremo Tribunal Federal (STF) não julga empecilho, do ponto de vista legal, em nomeação como a que Bolsonaro pretende fazer.

Não fere a lei, é certo. No entanto, desgasta politicamente o Presidente, pois mostra-o avesso a princípios que defendeu durante a campanha e exige dos partidários dele todo tipo de contorcionismo para explicá-la e justificá-la.

Há duas fronteiras para evitar o erro. A primeira é o próprio Presidente, que, a despeito das manifestações ou principalmente por causa delas, não parece convencido do equívoco que está prestes a cometer; a segunda, o Senado, que pode barrar a nomeação, se exercer umas das funções paras quais existe.

Nomear parentes e aderentes para cargos públicos comissionados foi – e ainda é – prática comum no passado distante do Brasil e diminuiu sensivelmente nos últimos vinte ou trinta anos, ainda que esteja longe de ser sepultada.

Há muita gente aboletada na máquina pública e que lá chegou sob os auspícios de papais, mamães, titios, etc, fiéis aos laços familiares.

Nos últimos dias, o Ministro Marco Aurélio Mello, do STF, andou ensaiando uma crítica ao ato de Bolsonaro, mas logo se calou. Talvez alguém tenha alertado o Ministro que ele chegou a mais alta corte do Judiciário pelas mãos do primo Fernando Collor de Mello, quando este era Presidente da República no início da década de 1990.

11/07/2019 08:21

Há salvação?

Há salvação?

A polarização na qual o Partido dos Trabalhadores (PT) e grande parte da esquerda brasileira apostaram não foi uma boa estratégia, ao contrário do que eu supus na esteira da eleição presidencial de 2014. Escreverei sobre isso no próximo artigo.

Volto as baterias para um tema que dialoga com ele, mas que hoje está mais na ordem do dia, o de entender qual o caminho que o PT deveria trilhar para se salvar e no futuro até se fortalecer como partido político que dialogue com amplos segmentos da sociedade brasileira e não apenas com algumas comunidades ideológicas muito próximas a ele.

Escrevo sobre o PT e também sobre Lula, mesmo que o ex-Presidente, hoje, seja apenas um espectro a assombrar o campo político e inviabilizar qualquer movimento do partido que ajudou a fundar e que guiou por quase quatro décadas.

Há caminhos auspiciosos, alguns mais fáceis e outros mais difíceis.

Sigamos pelo caminho que o partido trilhou ou sobre o qual se construiu, em parte, por mais de duas décadas, até ser flagrado com a boca na botija no Mensalão e posteriormente no Petrolão, o da linha “ética na política”.

Para isso o partido teria de abandonar o discurso de que movimentos conspiratórios e golpistas foram os responsáveis pelo impedimento da presidente Dilma Rousseff. Ele serviu, até um dado momento, para unir a militância, mas afugentou parcela significativa da população e não atrai mais ninguém. Também não faz muito sentido exigir ética na política amarrado a aliados, como Renan Calheiros, que simbolizam o contrário.

As possibilidades de que isso venha a ocorrer são mínimas, pois essas medidas exigem força, verve e, acima delas, ação – e, sejamos honestos, o PT e parte da esquerda brasileira que subiu no seu barco vivem num estado que passeia entre a letargia, a perplexidade e a catatonia.

Quando as lideranças do PT agem, mergulham no erro, confundindo as fronteiras entre os interesses do partido e os do país, apostando no “quanto pior melhor”. Pior, seguem fazendo barganha política para sufocar o compromisso que dizem ter com a moralidade pública.

A mania de falar mais do que fazer é da genética do PT, possivelmente herdado do seu maior líder, o ex-presidente Lula, um notório líder de massas e nunca um gestor.

Sendo Lula um grande líder de massas, deveria, nesta encruzilhada, falar, explicar-se e, no limite, pedir desculpas, como o fez o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, que, flagrado cedendo à lascívia e à luxúria em plena Casa Branca, foi à televisão e pediu desculpas pela fraqueza. Ou pelo menos como o próprio Lula, que, logo após estourar o Mensalão, desculpou-se pelos erros do partido – e não os dele, imune à autocrítica e a qualquer crítica.

A diferença entre o norte-americano e o brasileiro é que as desculpas de Clinton permaneceram desculpas; as de Lula logo naufragaram na negação do erro antes admitido e no populismo eleitoral e político de 2006 e dos anos seguintes.

Talvez Lula não tenha seguido a senda aberta por Clinton porque o erro deste foi de caráter estritamente pessoal, enquanto o do brasileiro foi de caráter político e administrativo. Ora, Lula iria pedir desculpas por ter posto no governo os seus companheiros de uma vida política inteira ou por ter feito alianças políticas equivocadas com lideranças que passou a vida denunciando como corruptas?

Não, Lula é Lula e não fará o discurso que espantaria a crise do PT e da esquerda. Possivelmente ele nem a veja e, não a vendo, não pode entendê-la, tampouco feri-la e destruí-la.

Lula é maior do que o PT e muito menor do que Clinton e do que a crise que ele e o seu partido criaram. Por isso naufragam juntos, deixando órfã a esquerda brasileira.

Sem se reinventar, a esquerda seguirá fragorosamente derrotada nos próximos anos.

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