Sérgio Trindade

26/10/2019 12:07

Ao cinema nacional falta qualidade

Ao cinema nacional falta qualidade

Uma das queixas mais comuns dos nossos cineastas é a de que falta incentivo para o cinema nacional.

Há quem argumente que os governos brasileiros pouco ou nada fizeram para a construção de uma política cinematográfica.

Desde o início do anos 1950, quando o presidente Getúlio Vargas criou o Instituto Nacional de Cinema, passando pela Embrafilme, nascida quando o país era governado pela Junta Militar que substituiu Costa e Silva, no final da década de 1960, pelas Leis Sarney e Rouanet, nas décadas de 1980 e 1990, até a famigerada Agência Nacional de Cinema (Ancine), andrajo esculpido durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o que não faltou foi dinheiro público para financiar produções mambembes.

Mais de meio século de planificação e incentivo oficial para o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica brasileira que patina entre o ruim e o regular.

Confrontado com o argumento acima, os nossos homens de cinema alegam que não decolamos porque não temos recursos técnicos para fazermos cinema de qualidade.

Se assim é, como explicar a excelente qualidade de nossa propaganda e publicidade, feita por profissionais qualificados? E as nossas novelas, desde os anos 1970 exportadas para quase todo o mundo?

Sobra, para os espertos cineastas brasileiros, a desculpa da escassez de recursos financeiros.

Esquecem eles de dizer como iranianos, bósnios e argentinos fazem filmes excelentes com parcos recursos. Nem citemos o caso da Nouvelle Vague, do final da década de 1950.

O mal do cinema brasileiro é esforçar-se para ser genuinamente nacional.

Buscar uma identidade nacional pode ser meritório, mas isso não deve ser obsessivo, pois a arte é tanto mais importante quanto mais universal for. Ou seja, a nossa arte (plástica, literária, teatral, cinematográfica, etc) não deve ser medida pelo quantum de brasilidade tiver, mas por sua universalidade.

As obras literárias de Machado de Assis e de Guimarães Rosa conseguiram harmonizar o local e o universal e, por isso, são lidas por muita gente no mundo todo, pois ninguém as lê, exceto por interesse erudito, para conhecer a brasilidade que carregam.

O nosso cinema continua malhando em ferro frio, querendo ser um daguerriótipo do Brasil, um esforço tão desmedidamente sem sentido que acaba por levar o criador ao esgotamento intelectual. A tarefa é tão fútil quanto inútil.

Dar atenção ao roteiro, à direção e a produção é exercício primordial para a construção de um bom cinema nacional.

A brasilidade ficando em plano secundário, surgirá.

Sem exageros e sem artificialismos.

20/10/2019 17:47

O cinema brasileiro é ruim

O cinema brasileiro é ruim

Há pouco mais de um mês fiz um post numa rede social compartilhando uma crítica ácida ao filme Bacurau.

Fui imediatamente contestado por um amigo virtual, furibundo, apesar de ter se mostrado cordato, por eu difundir crítica ao filme brazuca, pois o meu amigo virtual queria ler o que eu achei do filme e não o que outro dizia sobre ele.

Uma semana depois fiz uma crítica contida, aqui neste espaço, ao mesmo filme.

Sou crítico dos filmes nacionais porque os assisto e os acho ruins, e são ruins não por falta de apoio.

Os nossos cineastas e os nossos intelectuais dizem que o público brasileiro boicota os filmes produzidos aqui, e não é verdade.

Basta ver como, entre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000, o público brasileiro, na esteira da ressurreição do cinema brasileira na era pós-Collor, afluiu às casas de projeção para assistir ao fraco Carlota Joaquina e ao razoável Central do Brasil e, agora, ao agora mediano Bacurau.

Antes, nas décadas de 1970-80, o público corria às casas de projeção para assistir A dama do lotação e Dedé Mamata, filmes lotados de financiamento de mamateiros.

Cineastas, produtores, atores e atrizes reclamam que falta no Brasil uma política cinematográfica robusta.

Errado novamente.

Dos anos 1950, o que não tem faltado é investimento público para o desenvolvimento do cinema brasileiro.

Há quem aponte falta de recursos técnicos e a concorrência nociva do cinema norte-americano, outra rematada asneira.

O maior inimigo do cinema brasileiro é querer ser brasileiro demais, é querer capturar, como direi?, o Brasil como ele é (seja lá o que isso signifique) e mostrá-lo pra nós mesmos e para o mundo.

Se os nossos cineastas se preocupassem em fazer cinema, provavelmente fariam bons filmes e talvez faltasse tempo para reclamações infundadas.

Voltarei ao tema em outro artigo.

12/10/2019 15:48

O óleo da discórdia

O óleo da discórdia

O nível de intransigência no Brasil chegou a tal ponto que leitores desaprenderam a nobre arte de ler.

Vários veículos de comunicação discorreram, nos últimos dias, sobre estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) atestando que o óleo vazado na costa brasileira e que polui praias de todos os estados nordestinos é de origem venezuelana. (https://www.grandeponto.com.br/noticia/pesquisadores-da-ufba-respaldam-hipotese-de-que-petroleo-e-venezuelano?fbclid=IwAR2gaGeWW9253wPLAiR1N8OCHu_3eT31uBCWWxbED-ZDRyzuIGb20MFcOkU) (https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2019/10/10/analise-da-ufba-aponta-que-oleo-que-atinge-litoral-do-ne-e-da-venezuela.ghtml) (https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2019/10/10/interna-brasil,796529/oleo-derramado-em-praias-do-nordeste-tem-origem-venezuelana-conclui-u.shtml) (https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/10/analise-da-universidade-federal-da-bahia-tambem-diz-que-oleo-e-da-venezuela.shtml)

A notícia atiçou a esquerda e a direita tupiniquim,

A direita começou a acusar o governo venezuelano de, para sabotar o governo Bolsonaro, ter atirado óleo no mar brasileiro, esquecendo-se, por ora, que a Venezuela não transporta petróleo. É bem verdade que isso é um detalhe, mas faz diferença considerável.

De qualquer forma, a Venezuela nega o envolvimento no caso.

A esquerda ironizou a notícia, mostrando esquemas infantiloides de como o petróleo da Venezuela teria chegado às nossas praias, contornando o litoral do estados nortistas e lutado contra as correntes marítimas que seguem em direção ao Caribe, como se não pudesse ter sido transportado por algum navio (não necessariamente venezuelano) e solto, por acidente ou criminosamente, no mar.

Os estudos foram feitos por pesquisadores da UFBA e também de da Universidade Federal de Sergipe, e apontam para óleo venezuelano despejado no litoral nordestino.

Os pesquisadores não parecem ser simpatizantes do governo Bolsonaro, nem estão à soldo do governo de Maduro.

Cláudio Moura Castro escreveu texto sobre a dificuldade que mesmo gente bem posta na sociedade, com nível superior, tem de ler e entender o que estão lendo (https://adrenaline.uol.com.br/forum/threads/da-arte-brasileira-de-ler-o-que-nao-esta-escrito.503321/).

10/10/2019 05:29

A ética do mercado

A ética do mercado

O Adam Smith foi o primeiro grande pensador a discorrer sobre o mercado como catalisador da eficiência e da produtividade econômica.

Para ele, o egoísmo é algo inerente ao ser humano.

Esta falha, porém, não é inteiramente negativa, visto ser por meio do egoísmo que todos os homens de negócios se engalfinham na tentativa de vender suas mercadorias, precisando, para atingir o objetivo, agradar aos consumidores.

Mais de um século depois que o pai da Economia escreveu a sua mais importante obra (A Riqueza das Nações), que influenciou dez entre dez economistas, o francês Émile Durkheim elegantemente ajustou, do ponto de vista sociológico, a tese do pensador escocês.

Durkheim diz que nas sociedades mais simples e mais homogêneas há uma integração equilibrada entre as partes porque existe pouca diferença entre elas, prevalecendo a solidariedade mecânica, que não exige uma reflexão intelectual ou uma escolha. Neste tipo de sociedade, o grau de coesão social é muito alto, sendo improvável que um indivíduo sinta-se perdido e sem direção no mundo. O “sentido do nós é superior ao sentido do eu”, diz o mestre francês. A coesão é garantida por um conjunto de princípios (uma moral) e um conjunto de regras e normas (um direito), cuja função é punir os indivíduos que ao transgredirem ofendem a toda a sociedade.

No mundo moderno e contemporâneo, os vínculos entre os indivíduos são mais esgarçados e, aí, ninguém mais sabe com certeza o seu lugar ou em que direção seguir, como se nada mais os ligasse. Numa sociedade assim predomina a solidariedade orgânica, produto das diferenças trazidas pela nova divisão social do trabalho. A solidariedade persiste, mas ela é fruto não da igualdade e sim da diferença. Os homens continuam sendo obrigados a obedecer regras e normas. No entanto, as faltas cometidas pelos indivíduos não afetam a sociedade como um todo.

Nas relações econômicas, cada um dos agentes envolvidos deseja cravar o punhal nas costas do outro: “Há, nessa exploração do homem pelo homem, algo que nos ofende e nos indigna”. O egoísmo do homem será podado, conforme preceitua Durkheim, pela vida em sociedade, que o obriga a respeitar os interesses dos outros e as instituições. Sendo assim, as regras morais garantem à sociedade um princípio de justiça.

Se o mercado é, no mundo atual, a arena social por excelência, é para ele que todos devem voltar a atenção, pois é ali que ocorre a maior parte dos conflitos e é ali que mais claramente percebe-se como não é possível viver sem a cooperação de todos. Logo, diria Durkheim, o mercado precisa de uma ética mais forte que a lógica econômica, pois deixado ao sabor dos acontecimentos e dos imperativos individuais, ele não tem limite e ameaça a vida social.

O problema de Durkheim é, guardadas as devidas proporções, o mesmo de Karl Marx quando este sugere algo para pôr no lugar do capitalismo.

O alemão propôs um mundo idílico de extinção das desigualdades sociais que se configurou num mundo de opressão política e de pobreza econômica. O francês sugeriu uma espécie de ressurreição corporativa, onde pudessem conviver, de mãos dadas, patrões e empregados. A sua ideia resultou em algo daninho, rico economicamente mas politicamente opressor, pouco menos de duas décadas depois de sua morte. 

Como críticos do funcionamento do sistema os dois são geniais, mas não conseguiram fazer a transposição de críticos para formuladores de uma nova ordem.

A ideia smithiana de um mercado livre ainda é, tirando os excessos e mirando na eficiência produtiva, o caminho mais promissor. Urge, entretanto, estipular os limites do mercado por meio da construção de marcos reguladores, a melhor ferramenta para manter a eficiência econômica sem descambar para a um quadro anômico, permitindo a sobrevivência de uma ética do egoísmo, instrumento propulsor dos ganhos de produtividade e, por tabela, da efetivação do crescimento econômico, com institutos que deem proteção aos agentes econômicos mais frágeis.

06/10/2019 10:01

Greta Thunberg pouco tem a dizer

Greta Thunberg pouco tem a dizer

Passado o vendaval sobre o que representa Greta Thunberg nas discussões sobre o ambiente, resolvi escrever um pouco sobre ela.

A adolescente sueca virou uma celebridade ativista do clima, que, nas Nações Unidas, foi ouvida e repercutida como autoridade sobre o assunto.

E isso com apenas 16 anos de idade.

Greta criticou com veemência as autoridades ali presentes, dizendo-lhes que elas “vêm a nós, jovens, em busca de esperança. Como vocês ousam! Vocês roubaram meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias.”

Greta deve ser uma jovem inteligente e sinceramente preocupada com as questões climáticas, mas tudo que vem girando em torno dela nos últimos dias é apenas marketing.

Todo o marketing de Greta começou com a viagem, feita de veleiro, da Europa aos Estados Unidos.

Praticamente toda mídia fez propaganda do deslocamento, mostrando-o como sustentável.

O veleiro que levou Greta até os Estados Unidos exigiu, conforme noticiou o jornal berlinense TAZ, algumas pessoas irem de avião aos Estados Unidos para levar o veleiro de volta para a Europa.

A travessia do Atlântico feita com pompa sustentável parece não ter sido sustentável, mas apenas uma jogada de marketing.

A mídia internacional ainda foi atrás de informações sobre a tal sustentabilidade da viagem; a brasileira, de um modo geral, contentou-se em dar vazão ao sensacionalismo ambiental. (https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2019/08/ativista-greta-thunberg-comeca-viagem-de-barco-para-participar-de-evento-da-onu.html). (https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/08/ativista-greta-thunberg-inicia-viagem-em-veleiro-para-participar-de-conferencia.shtml). (https://www.uol.com.br/universa/noticias/deutsche-welle/2019/08/15/opiniao-a-corajosa-viagem-de-greta-thunberg-pelo-atlantico.htm).

A tal compensação de carbono parece que é só barulho. (https://www.msn.com/pt-br/noticias/mundo/emiss%C3%B5es-de-carbono-da-viagem-de-greta-thunberg-viram-pol%C3%AAmica/ar-AAFYQDE). (https://www.uol.com.br/tilt/ultimas-noticias/afp/2019/08/18/emissoes-de-carbono-da-viagem-de-greta-thunberg-viram-polemica.htm), pois a viagem da jovem ativista do clima foi “mais poluente do que se ela tivesse pegado o avião”.

Na ONU, Greta alardeou: “Eu deveria estar de volta à escola do outro lado do oceano”.

Seria fácil fazer isso, se ela não optasse, por questões meramente publicitárias, faltar a duas semanas de aulas para cruzar o Atlântico a bordo de um veleiro e mostrar ao mundo que evita viagens de avião.

Se estivéssemos num tabuleiro de xadrez, Greta e a meninada que “lideraram” uma greve global há alguns dias fazem o papel de peões.

Mesmo os líderes da gritaria, as torres e cavalos do tabuleiro, decidem quase nada sobre o clima.

O assunto está nas mãos de gente grande: Donald Trump, Vladimir Putin, Angela Merkel, Li Kegiang, entre outros.

Esse pessoal – principalmente os lideres norte-americano, russo e chinês – não é do tipo que ouve os murmúrios de Greta e companhia.

É fato que as crianças são peões de envergadura.

Sempre foram, como registra a história.

No início do século XIII, como as Cruzadas não conseguiam o intento de expulsar os infiéis da Terra Santa, um jovem chamado Estevão, levou, segundo cronistas medievais, uma carta ao rei Felipe Augusto.

Estevão dizia ter recebido a visita de Jesus Cristo, e este lhe deu a missão de organizar uma expedição somente com crianças, que, por serem puras de coração, expulsariam os muçulmanos da Terra Santa.

São muitas as versões, com historiadores apontando que a Cruzada das Crianças teve a participação de adultos, notadamente camponeses e mendigos, muitos deles doentes. Há os que dizem que as crianças seriam jovens homens e não exatamente crianças.

Os conselheiros do rei o orientaram a mandar Estevão de volta para casa.

A versão mais popular diz que o jovem Estevão se junta a religiosos e peregrinos que voltavam do Oriente pregando a realização de uma nova cruzada.

Milagres se sucedem e são atribuídos a ele, renovando ainda mais o fervor religioso, que se estende por outras regiões do continente europeu, com milhares de crianças aderindo à causa.

Sem conseguir abrir o Mediterrâneo para facilitar a passagem dos cruzados, Estevão e seus seguidores fazem a travessia a bordo de navios de mercadores.

No Oriente a Cruzada foi destroçada pelos muçulmanos e os poucos sobreviventes são feitos prisioneiros e vendidos como escravos.

Não há dúvida de que as crianças são peões poderosos na história.

A cruzada climática de Greta, a Estevão de saias (ou teria sido Estevão a Greta de calças), demonstra isso.

A adolescente ativista apresenta-se com, digamos, desenvoltura no palco.

Quem ousa criticá-la é logo acusado de insensibilidade.

Já ouvi gente dizendo “Como é possível atacar uma adolescente?”, “Será que um ser tão angelical é movido por interesses outros que não o bem?”, e por aí vai.

Um filósofo britânico do século XIX dizia que as crianças devem ser educadas para se tornarem adultos esclarecidos e intelectualmente maduros.

Quando crianças temos pouco a dizer que valha a pena.

Tirando os geniais, um jovem pode dizer as mesmas coisas que um adulto, mas com menos maturidade e, portanto, menos nuances.

O que Greta e a turma dela dizem é o que ouvimos diariamente de muita gente que se arvora a resolver questões complexas com soluções simplistas.

Estevão e Greta jogariam no mesmo time.

Alguns adultos adolescidos também.

03/10/2019 21:11

A ética da política

A ética da política

Revistas, jornais, sites, rádios, TVs criticam a maneira como alguns partidos políticos atuam no Congresso Nacional.

As críticas são dirigidas principalmente ao clientelismo e ao fisiologismo das agremiações partidárias.

É da natureza dos partidos brigarem por espaços. Em outras palavras, o instinto de lutar pelo poder está no DNA deles.

Partidos políticos só têm poder por meio dos espaços que controlam no aparelho do Estado. E isso significa cargos, de preferência importantes, que controlem verbas substanciais, que elaborem e toquem grandes projetos, etc.

Num regime político como o brasileiro, em que o presidente precisa constantemente negociar, o jogo, por envolver um grande número de partidos, muitos deles fracionados, é predatório.

Os que saem derrotados das urnas, que perdem redutos políticos, precisam, para sobreviver, de muita astúcia, para impedir que não haja uma caça generalizada aos seus quadros.

Nicolau Maquiavel mostrou no início do século XVI uma reavaliação das relações entre ética e política.

O pensador florentino apresentou uma moral secular de base naturalista e estabeleceu a autonomia da Política, rejeitando a anterioridade das questões morais na avaliação política.

A ética maquiaveliana analisa as ações em função dos resultados da ação política; o que é moral é o que traz o bem à sociedade, sendo necessário e legítimo, às vezes, fazer o mal.

Segundo Maquiavel, se o governante aplicar de forma inflexível os padrões morais que regem a sua vida pessoal à vida política, não conseguirá governar eficientemente.

Por isso, a avaliação moral não pode e não deve ser feita antes da ação política, conforme normais gerais e abstratas, mas sempre a partir de um contexto bem específico, porquanto toda ação política dirigir-se à sobrevivência do grupo.

Enquanto os filósofos antigos e medievais procuravam descrever o bom governo, estabelecendo regras inflexíveis que moldassem o perfil do governante ideal, Maquiavel demonstrava cruamente como de fato os governantes procedem. 

Governos precisam aprovar projetos e propostas. Para tal, precisam estabelecer uma base de sustentação ou de apoio para passá-los no Congresso Nacional.

Assim, praticamente tudo o que ocorre com os agrupamentos da base governista é, de certa forma, responsabilidade do governo.

São os recursos, financeiros inclusive, de que dispõe na Presidência da República, aliados à sua capacidade de negociação e convencimento, que poderão permitir um melhor encaminhamento das pretensões governamentais.

O bom governante é aquele capaz de compreender o jogo político real e suas circunstâncias concretas, identificando as forças em conflito a fim de agir com eficácia; os valores morais que regulam as condutas individuais não se aplicam à ação política – atividade que envolve o destino não de um cidadão, mas de toda a comunidade/sociedade.

Desta forma, o Presidente pode e deve atuar como árbitro do jogo político.

Distribuir cargos e verbas sempre foi e continuará sendo um dos elementos primordiais do funcionamento de uma coalizão.

Os partidos políticos que formam uma coalizão querem ter o maior número possível de cargos sob o seu comando e lutam para manter a coalizão com o menor número possível de partidos. Por isso, a lógica e a dinâmica dos governos de coalizão são, por vezes, brigas intestinas, lutas por espaços.

Convém, entretanto, não conduzir as negociações políticas de forma atabalhoada e amadora; elas devem ser efetivadas em torno de um projeto de construção nacional.

As negociações que eliminem os partidos do jogo político e façam ligação direta com os movimentos sociais não são boas para o fortalecimento da democracia, pois constituem portas abertas para o fortalecimento desmedido do poder Executivo.

As ditaduras começam assim.

*O conteúdo deste blog não representa necessariamente a opinião do portal.