Sérgio Trindade

07/11/2019 19:18

Nunes X Gleen

Nunes X Gleen

Lendo displicente e descontraidamente alguns veículos de comunicação hoje à tarde, deparo-me no blog de Juca Kfouri com uma Nota de Solidariedade de duas entidades de jornalistas a Glenn Greenwald (https://blogdojuca.uol.com.br/2019/11/nota-de-solidariedade-a-glenn-greenwald/).

Fui atrás do vídeo no qual o jornalista Augusto Nunes dá um tapa no norte-americano (https://www.youtube.com/watch?v=zPclYXmD-DM).

A atitude de Nunes foi errada, destemperada mesmo, e deve ser censurada por isso.

A atitude de Gleen Greeenwald, chamando o jornalista brasileiro de covarde, também não foi correta. Foi até covarde.

A imprensa deve por as coisas no devido lugar, para não tratar Nunes como vilão e Greeenwald como vítima, e vice-versa.

A agressão verbal de Greeenwald a Nunes, chamando suas falas sobre os filhos que tem com o deputado federal David Miranda de nojentas, não justifica o tapa dado por este naquele. E Greeenwald não deveria, naquele momento, trazer a lume a pendenga que tem com Nunes, afinal o programa não era sobre a relação conflituosa entre ambos (https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2019/11/07/interna_politica,804618/entenda-o-motivo-da-briga-entre-augusto-nunes-e-glenn-greenwald.shtml).

Seria bom que quem escreve notícias e também notas de solidariedade seja sóbrio para descrever o que realmente houve no estúdio da Jovem Pan.

03/11/2019 18:35

O país sem partidos

O país sem partidos

A corrosão do PT, nos últimos cinco anos, e a combustão do PSL demonstram que o Brasil é um país partido sem partidos. Até porque por aqui quase todo mundo parece mais confiável do que os políticos.

Nas pesquisas de opinião que buscam saber quem dispõe de mais credibilidade social, os políticos ocupam as posições derradeiras. Muitos são apontados como culpados pela situação, mas a culpa é quase sempre deles mesmos.

Para se defenderem, os políticos dizem que são mais visados por pertencerem a poderes mais abertos que todos os outros.

Não restam dúvidas de que as casas parlamentares, nos três níveis – federal, estaduais e municipais, são mais visíveis e mesmo mais acessíveis do que gabinetes de empresários, de juízes, de bispos, de militares, etc.

Maquiavel afirmou, de forma correta, que o príncipe almeja o poder e trabalha de forma racional para alcançá-lo. Porém, por estes tristes trópicos o povo vem avaliando mal as posturas adotadas pelos políticos, sempre em busca de qualquer tipo de aliança, com qualquer partido, sob qualquer compromisso, mesmo os inconfessáveis, desde que isso lhes rendam um bom balaio de votos.

Os partidos são, nas democracias maduras, veículos de ideias, propostas e projetos para a sociedade. Às vezes, quando as ideias, propostas e projetos para a sociedade são próximos ou convergentes, os partidos se aliam. Entretanto, um partido não faz aliança com o primeiro que lhe abana o rabo. Se assim o faz, deixa de ser uma agremiação que trabalha para a sociedade e passa a ser uma instituição que trabalha pelos seus próprios interesses. No Brasil, os partidos trocam propostas por tempo de rádio e televisão.

A situação é tal que hoje, no nosso país, é visto como radical e intransigente qualquer pessoa que defenda seus pontos de vista acima das conveniências do momento, pois aqui as visões de mundo não chegam a ser representadas pelos partidos, sinal incontestável de nossa debilidade partidária.

Há vida inteligente e qualificada em meio à barbárie partidária nacional, afinal os nossos políticos nasceram e cresceram em meio a balbúrdia de um sistema político torto, não sendo sozinhos os responsáveis pela situação, ainda que os maiores responsáveis por estarem como estão.

Deu no que deu, mas é possível reformar e corrigir.

31/10/2019 08:17

O Brasil, a Arábia Saudita, a crise chilena e a deputada do PSOL

O Brasil, a Arábia Saudita, a crise chilena e a deputada do PSOL

Andei dia desses olhando o Twitter, rede social na qual telegramas são escritos com ares de profundidade.

O Twitter é o Facebook dos intelectuais e o Instagram das fotografias de ideias.

Escolhi para analisar o perfil de uma deputada federal que se apresenta assim: “Feminista, defensora dos direitos sociais e deputada federal pelo PSOL...”

Fui ao pai dos burros virtual e descobri que a referida parlamentar é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e servidora da mesma universidade.

Leio sempre – e concordo – que a política externa deve ser pautada pela defesa dos interesses do país. Logo, um chefe de Estado tem de seguir, à risca, uma postura pragmática nas relações com outros chefes de Estado, pondo os interesses da Nação acima de questiúnculas ideológicas.

Temos, como Estado soberano, de defender os nossos interesses em mesas de negociações com dignitários da Alemanha, da China, dos Estados Unidos, da França... do Zimbábue.

Esta semana o presidente Bolsonaro está num périplo pelo Oriente Médio e jantou com o príncipe saudita Mohammed Bin Salman. Na oportunidade, o brasileiro disse ter afinidades com ele. Foi o bastante para a deputada psolista lembrar que o saudita “é acusado de mandar matar um jornalista e de violar os direitos humanos” e que a “Arábia Saudita é considerada um dos países mais perigosos para as mulheres”, concluindo, por fim, que isso explicava a afinidade entre o chefe de Estado brasileiro e o chefe de Estado saudita.

O príncipe Mohammed Bin Salman é, de fato, acusado de mandar matar um jornalista e a Arábia Saudita não é um primor na defesa dos direitos humanos. Mas, vamos e venhamos, Lula é acusado por Marcos Valério de tramar a morte de Celso Daniel, foi condenado em três instâncias a justiça brasileira e o pessoal do partido da deputada grita a plenos pulmões Lula Livre.

A Lula deve ser dado o benefício da dúvida. De outra maneira: cabe à acusação o ônus da prova. O mesmo deve ser dito às recentes acusações acerca do possível envolvimento de Bolsonaro ou da família dele no caso Marielle Franco.

Culpado ou não dos crimes de que é acusado, o príncipe saudita sentou com Bolsonaro, chefe de Estado brasileiro, para negociar acordos comerciais. Cada um defendendo os interesses da Nação que representa.

Nenhum dos dois é juiz.

O príncipe saudita enquanto estiver sentado sobre poços de petróleo não será incomodado por ninguém.

***

A parlamentar antes assestara suas baterias contra o Chile.

Com sinais de demência (ou seria apenas desonestidade?), disse a psolista: “A reforma da previdência foi definitivamente aprovada no Congresso. O texto de Guedes e Bolsonaro se baseou na previdência do Chile, país que está em convulsão social por conta desse modelo perverso. Que nos sirva de inspiração a luta do povo chileno. A rebelião vai chegar aqui.”

Entre a demência e a desonestidade, a parlamentar não consegue entender que a previdência chilena é um sistema de capitalização e a brasileira, de repasse, de repartição. São modelos completamente diferentes.

Inicialmente, a reforma proposta pelo governo brasileiro e enviada ao Congresso Nacional tinha pontos que apontavam para um sistema de capitalização, baseado no modelo sueco, logo abandonado.

Os protestos chilenos são muito mais complexos do que a dicotomia direita-esquerda na qual estamos artificialmente metidos há pela menos uma década.

O Chile ostenta os melhores índices de educação (https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/educacao-chilena-e-a-melhor-da-america-latina-com-modelo-oposto-ao-do-brasil-5otfucsyzefqd4a7x6v51lo8s/), nível de riqueza (https://economia.uol.com.br/noticias/efe/2017/11/14/riqueza-na-america-latina-aumenta-39-em-um-ano.htm), IDH (http://www.projetolatinoamerica.com.br/idh-2015-america-latina/) e segurança (https://www.i9treinamentos.com/caso-de-gestao-publica-na-seguranca-do-chile/) da América Latina e não é e nunca foi, como certos setores políticos brasileiros e internacionais quiseram fazer crer, uma Suíça fincada na América Latina; tampouco é um caso de retumbante fracasso, como certos outros setores políticos brasileiros e internacionais querem nos fazer crer.

Os dois caminhos, atolados até o pescoço no binarismo analítico, ignoram inteiramente a realidade latino-americana.

27/10/2019 09:28

A crônica esportiva politicamente engajada

A crônica esportiva politicamente engajada

Juca Kfouri talvez seja o maior exemplo, hoje, do cronista esportivo que abdica do dever de escrever sobre assunto a que se propõe.

É assim desde os anos da democracia corinthiana, mas tornou-se irritante de uma década e meia para cá.

Acompanho-o desde a época da revista Placar.

Lia-o na Folha de São Paulo, assistia-o na ESPN e leio o blog no qual escreve.

Na ESPN, Juca começou a voltar suas baterias para o mundo político.

Ele e José Trajano transformaram os programas da ESPN, principalmente o Linha de Passe, numa mesa redonda na qual os laivos “progressistas” dos dois davam o tom do programa, que, por isso, foi ficando chato e maçante, porquanto estar interessado em debater mais política e menos futebol.

Ora, quem liga a TV para assistir a programa de esporte quer ver programa de esporte.

Se quiser assistir a programa de política, o sujeito muda de canal.

Foi, parece, o que muitos telespectadores fizeram.

A ESPN caiu no ibope, sendo obrigada a fazer uma reforma nos quadros.

José Trajano foi demitido, mas não resolveu, de todo, o problema, pois Juca continuava lá e a emissora ainda trouxe um ou outro engajado para aporrinhar os telespectadores.

Uma segunda reforma varreu da emissora os últimos resquícios de engajamento político, a grade de programação foi refeita e os programas passaram a fazer esporte, afinal o canal a isso se dedica.

Enquanto isso, Juca Kfouri segue, amargo, dedicando-se cada vez mais ao noticiário político e menos ao futebol.

De leitor assíduo dele, tornei-me leitor casual.

26/10/2019 12:07

Ao cinema nacional falta qualidade

Ao cinema nacional falta qualidade

Uma das queixas mais comuns dos nossos cineastas é a de que falta incentivo para o cinema nacional.

Há quem argumente que os governos brasileiros pouco ou nada fizeram para a construção de uma política cinematográfica.

Desde o início do anos 1950, quando o presidente Getúlio Vargas criou o Instituto Nacional de Cinema, passando pela Embrafilme, nascida quando o país era governado pela Junta Militar que substituiu Costa e Silva, no final da década de 1960, pelas Leis Sarney e Rouanet, nas décadas de 1980 e 1990, até a famigerada Agência Nacional de Cinema (Ancine), andrajo esculpido durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o que não faltou foi dinheiro público para financiar produções mambembes.

Mais de meio século de planificação e incentivo oficial para o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica brasileira que patina entre o ruim e o regular.

Confrontado com o argumento acima, os nossos homens de cinema alegam que não decolamos porque não temos recursos técnicos para fazermos cinema de qualidade.

Se assim é, como explicar a excelente qualidade de nossa propaganda e publicidade, feita por profissionais qualificados? E as nossas novelas, desde os anos 1970 exportadas para quase todo o mundo?

Sobra, para os espertos cineastas brasileiros, a desculpa da escassez de recursos financeiros.

Esquecem eles de dizer como iranianos, bósnios e argentinos fazem filmes excelentes com parcos recursos. Nem citemos o caso da Nouvelle Vague, do final da década de 1950.

O mal do cinema brasileiro é esforçar-se para ser genuinamente nacional.

Buscar uma identidade nacional pode ser meritório, mas isso não deve ser obsessivo, pois a arte é tanto mais importante quanto mais universal for. Ou seja, a nossa arte (plástica, literária, teatral, cinematográfica, etc) não deve ser medida pelo quantum de brasilidade tiver, mas por sua universalidade.

As obras literárias de Machado de Assis e de Guimarães Rosa conseguiram harmonizar o local e o universal e, por isso, são lidas por muita gente no mundo todo, pois ninguém as lê, exceto por interesse erudito, para conhecer a brasilidade que carregam.

O nosso cinema continua malhando em ferro frio, querendo ser um daguerriótipo do Brasil, um esforço tão desmedidamente sem sentido que acaba por levar o criador ao esgotamento intelectual. A tarefa é tão fútil quanto inútil.

Dar atenção ao roteiro, à direção e a produção é exercício primordial para a construção de um bom cinema nacional.

A brasilidade ficando em plano secundário, surgirá.

Sem exageros e sem artificialismos.

*O conteúdo deste blog não representa necessariamente a opinião do portal.