Sérgio Trindade

17/11/2019 22:29

Anos-luz, a distância entre Mandela e Lula

Anos-luz, a distância entre Mandela e Lula

Dias desses, logo após a soltura de Lula, alguns amigos petistas, esquerdistas e lulistas pespegaram comparações as mais esdrúxulas. A mais repetida é que Lula e Mandela estão no mesmo patamar.

A distância entre Mandela e Lula tem de ser calculada em anos-luz, medida geralmente usada por astrônomos para mensurar distâncias de escala interestelar.

O líder sul-africano é estrela de primeira grandeza; o pernambucano de Garanhuns, satélite d’algum planeta.

Depois de passar menos de dois anos preso, após condenação em três instâncias, Lula saiu destilando veneno da jararaca que disse ser, prometendo incendiar o Brasil, chamando o atual Presidente da República de miliciano e o ministro da justiça de canalha. Faltou somente convocar as mulheres de grelo duro para o seu exército de Brancaleone.

Em tudo e por tudo diferente de Nelson Mandela.

Tivemos muitos estadistas no século XX – Churchill, Roosevelt, De Gaulle, Willy Brandt... Mandela foi, possivelmente, o último da espécie.

Nelson Mandela, preso durante 27 anos pelo regime segregacionista da África do Sul, saiu da prisão para perdoar os seus algozes e para apregoar um discurso de paz e união nacional.

O livro Conquistando o inimigo, de J. Carli, que deu origem ao filme Invictus, de Clint Eastwood, mostra como Nelson Mandela, recém-eleito presidente da África do Sul, utilizou-se da Copa do Mundo de Rugbi como ferramenta política para criação de um sentimento de pertencimento em torno do projeto de construção da nação, fazendo os negros se juntarem aos brancos para torcerem pela seleção sul-africana de rúgbi, esporte preferido pela minoria branca.

A união em torno da seleção é o pano de fundo das motivações do grande líder sul-africano, que conclama os brancos a se engajarem no governo que ele dirigia, trata os seguranças brancos da Presidência da República com um carinho paternal e por aí vai.

O projeto de Mandela passa por uma espécie de anistia, misto de esquecimento e perdão, pois, sabe o grande estadista, o rancor e o ódio não são elementos construtores de nada.

O Brasil está numa encruzilhada tem faltado sabedoria aos nossos líderes para nos tirar do atoleiro ideológico.

Solto, Lula insiste em nos carregar pra lá, insiste em propagar desunião, insiste em acirrar os ânimos, numa postura de político provinciano, nunca de estadista.

A insistir na postura, o líder petista só será grande para os seus militantes.

Pra história será nota de rodapé.

10/11/2019 10:32

O lupanar político nacional

O lupanar político nacional

Há dias envolvi-me numa discussão, civilizada ressalto, com dois amigos sobre a postura que Lula assumiria ao sair da prisão.

Os meus dois amigos sustentavam que Lula era, desde 2002, quando venceu a disputa presidencial contra José Serra, um político moderado.

A mesma, digamos, percepção dos meus dois amigos foi manifestada por articulista político dos mais lidos aqui do estado.

Discordo. E digo porque o faço.

Lula foi, sem dúvida, um líder moderado nas duas últimas vezes em que foi candidato a Presidente da República (2002 e 2006) e, em 2010, quando esteve no palanque de Dilma.

Em 2014, já começou a flertar com o antigo PT e, depois, quando acuado pela Lava Jato, virou bicho agressivo.

Ao longo da história, como me disse certa vez um amigo já falecido, Lula sempre teve compromisso apenas com ele. O Mensalão demonstra isso, com toda a cúpula do PT abandonada pelo então Presidente da República.

Lula saiu da cadeia na última sexta-feira falando em amor, mas logo disparou a metralhadora giratória de xingamentos contra o Presidente Jair Bolsonaro, a quem chamou de miliciano. Bolsonaro ainda na sexta xingara o ex-Presidente de canalha.

O nível é rasteiro e demonstra claramente que o cenário político saiu de medíocre para abominável. A polarização acentuada macula e enfraquece a democracia e, de quebra, amedronta investidores estrangeiros que já desconfiam do Brasil. Mais, um ex-Presidente canalha e um atual miliciano, como eles chamam um ao outro, rebaixam a Presidência da República à função de alcouce dos mais lastimáveis.

A linguagem de palanque-bordel faz parte do jogo para inflamar os seguidores, mas é provável que o discurso de Lula siga em outra direção, à da política econômica de Paulo Guedes, que, a despeito de estar no rumo correto, ainda não chegou à mesa da classe média para baixo.

Lula precisa ser certeiro no tiro a Guedes porque a forma de ataque ao gerente de Bolsonaro pode unir o mercado em torno do Ministro da Fazenda, garantindo ao petista apenas a parte que com ele já está, ou seja, o terço histórico que vota no PT.

Lula sempre foi um estrategista político, mais interessado na própria sobrevivência e no seu próprio futuro político e tenta manter mobilizada a militância, hoje muito menor.

A Bolsonaro cabe insuflar Lula a sair do trilho.

Lula criticou Bolsonaro, Moro e Guedes, mas também tentou distribuir pílulas oratórias de amor, ao dizer que pretende percorrer o país, ao falar sobre sua namorada e sobre amor, para, em seguida, adquirir uma feição revanchista, bem ao gosto da militância mais aguerrida e mais irracional. Saiu de cena Lula paz e amor e chegou o Lula do confronto.

A Bolsonaro interessa o Lula raivoso e revanchista, porque a base bolsonarista estará mobilizada para fazer frente à militância do PT e seus satélites.

Se lulistas e bolsonaristas atuarem dentro dos marcos legais, ainda que distribuindo caneladas, a democracia suportará, mas a economia sentirá o impacto e a recuperação será mais lenta, afinal, investidores não gostam de instabilidade.

Lula solto e fazendo política vai levar os bolsonaristas a questionarem menos a mídia, pois o petismo ocupará espaço no mundo político batendo nela. Lula, diga-se, já deu uns safanões na Record, no SBT e na Globo, a Geni que apanha de todo mundo.

A postura de Lula e de seus seguidores vai, provavelmente, fazer Bolsonaro e alguns aliados mais extremistas posarem de paladinos da liberdade de imprensa, mesmo que movimentos de direita demonizem a Globo, a Folha de São Paulo, etc. Além disso, a agenda de Guedes vai ao encontro dos homens que comandam o PIB, o que deve, sem dúvida, atrairá a simpatia da grande mídia, dado que aos investidores, nacionais e estrangeiros, não interessa o discurso tóxico de outra liderança política de relevo.

Solavancos mais fortes serão interpretados como risco e aí o investidor, principalmente o estrangeiro, fugirá daqui.

Até os lupanares têm regras para garantir a presença do dinheiro. Os brigões podem frequentar o ambiente, mas não podem desestabilizá-lo.

Esperemos que o ex e o atual saibam se comportar.

07/11/2019 19:18

Nunes X Gleen

Nunes X Gleen

Lendo displicente e descontraidamente alguns veículos de comunicação hoje à tarde, deparo-me no blog de Juca Kfouri com uma Nota de Solidariedade de duas entidades de jornalistas a Glenn Greenwald (https://blogdojuca.uol.com.br/2019/11/nota-de-solidariedade-a-glenn-greenwald/).

Fui atrás do vídeo no qual o jornalista Augusto Nunes dá um tapa no norte-americano (https://www.youtube.com/watch?v=zPclYXmD-DM).

A atitude de Nunes foi errada, destemperada mesmo, e deve ser censurada por isso.

A atitude de Gleen Greeenwald, chamando o jornalista brasileiro de covarde, também não foi correta. Foi até covarde.

A imprensa deve por as coisas no devido lugar, para não tratar Nunes como vilão e Greeenwald como vítima, e vice-versa.

A agressão verbal de Greeenwald a Nunes, chamando suas falas sobre os filhos que tem com o deputado federal David Miranda de nojentas, não justifica o tapa dado por este naquele. E Greeenwald não deveria, naquele momento, trazer a lume a pendenga que tem com Nunes, afinal o programa não era sobre a relação conflituosa entre ambos (https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2019/11/07/interna_politica,804618/entenda-o-motivo-da-briga-entre-augusto-nunes-e-glenn-greenwald.shtml).

Seria bom que quem escreve notícias e também notas de solidariedade seja sóbrio para descrever o que realmente houve no estúdio da Jovem Pan.

03/11/2019 18:35

O país sem partidos

O país sem partidos

A corrosão do PT, nos últimos cinco anos, e a combustão do PSL demonstram que o Brasil é um país partido sem partidos. Até porque por aqui quase todo mundo parece mais confiável do que os políticos.

Nas pesquisas de opinião que buscam saber quem dispõe de mais credibilidade social, os políticos ocupam as posições derradeiras. Muitos são apontados como culpados pela situação, mas a culpa é quase sempre deles mesmos.

Para se defenderem, os políticos dizem que são mais visados por pertencerem a poderes mais abertos que todos os outros.

Não restam dúvidas de que as casas parlamentares, nos três níveis – federal, estaduais e municipais, são mais visíveis e mesmo mais acessíveis do que gabinetes de empresários, de juízes, de bispos, de militares, etc.

Maquiavel afirmou, de forma correta, que o príncipe almeja o poder e trabalha de forma racional para alcançá-lo. Porém, por estes tristes trópicos o povo vem avaliando mal as posturas adotadas pelos políticos, sempre em busca de qualquer tipo de aliança, com qualquer partido, sob qualquer compromisso, mesmo os inconfessáveis, desde que isso lhes rendam um bom balaio de votos.

Os partidos são, nas democracias maduras, veículos de ideias, propostas e projetos para a sociedade. Às vezes, quando as ideias, propostas e projetos para a sociedade são próximos ou convergentes, os partidos se aliam. Entretanto, um partido não faz aliança com o primeiro que lhe abana o rabo. Se assim o faz, deixa de ser uma agremiação que trabalha para a sociedade e passa a ser uma instituição que trabalha pelos seus próprios interesses. No Brasil, os partidos trocam propostas por tempo de rádio e televisão.

A situação é tal que hoje, no nosso país, é visto como radical e intransigente qualquer pessoa que defenda seus pontos de vista acima das conveniências do momento, pois aqui as visões de mundo não chegam a ser representadas pelos partidos, sinal incontestável de nossa debilidade partidária.

Há vida inteligente e qualificada em meio à barbárie partidária nacional, afinal os nossos políticos nasceram e cresceram em meio a balbúrdia de um sistema político torto, não sendo sozinhos os responsáveis pela situação, ainda que os maiores responsáveis por estarem como estão.

Deu no que deu, mas é possível reformar e corrigir.

31/10/2019 08:17

O Brasil, a Arábia Saudita, a crise chilena e a deputada do PSOL

O Brasil, a Arábia Saudita, a crise chilena e a deputada do PSOL

Andei dia desses olhando o Twitter, rede social na qual telegramas são escritos com ares de profundidade.

O Twitter é o Facebook dos intelectuais e o Instagram das fotografias de ideias.

Escolhi para analisar o perfil de uma deputada federal que se apresenta assim: “Feminista, defensora dos direitos sociais e deputada federal pelo PSOL...”

Fui ao pai dos burros virtual e descobri que a referida parlamentar é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e servidora da mesma universidade.

Leio sempre – e concordo – que a política externa deve ser pautada pela defesa dos interesses do país. Logo, um chefe de Estado tem de seguir, à risca, uma postura pragmática nas relações com outros chefes de Estado, pondo os interesses da Nação acima de questiúnculas ideológicas.

Temos, como Estado soberano, de defender os nossos interesses em mesas de negociações com dignitários da Alemanha, da China, dos Estados Unidos, da França... do Zimbábue.

Esta semana o presidente Bolsonaro está num périplo pelo Oriente Médio e jantou com o príncipe saudita Mohammed Bin Salman. Na oportunidade, o brasileiro disse ter afinidades com ele. Foi o bastante para a deputada psolista lembrar que o saudita “é acusado de mandar matar um jornalista e de violar os direitos humanos” e que a “Arábia Saudita é considerada um dos países mais perigosos para as mulheres”, concluindo, por fim, que isso explicava a afinidade entre o chefe de Estado brasileiro e o chefe de Estado saudita.

O príncipe Mohammed Bin Salman é, de fato, acusado de mandar matar um jornalista e a Arábia Saudita não é um primor na defesa dos direitos humanos. Mas, vamos e venhamos, Lula é acusado por Marcos Valério de tramar a morte de Celso Daniel, foi condenado em três instâncias a justiça brasileira e o pessoal do partido da deputada grita a plenos pulmões Lula Livre.

A Lula deve ser dado o benefício da dúvida. De outra maneira: cabe à acusação o ônus da prova. O mesmo deve ser dito às recentes acusações acerca do possível envolvimento de Bolsonaro ou da família dele no caso Marielle Franco.

Culpado ou não dos crimes de que é acusado, o príncipe saudita sentou com Bolsonaro, chefe de Estado brasileiro, para negociar acordos comerciais. Cada um defendendo os interesses da Nação que representa.

Nenhum dos dois é juiz.

O príncipe saudita enquanto estiver sentado sobre poços de petróleo não será incomodado por ninguém.

***

A parlamentar antes assestara suas baterias contra o Chile.

Com sinais de demência (ou seria apenas desonestidade?), disse a psolista: “A reforma da previdência foi definitivamente aprovada no Congresso. O texto de Guedes e Bolsonaro se baseou na previdência do Chile, país que está em convulsão social por conta desse modelo perverso. Que nos sirva de inspiração a luta do povo chileno. A rebelião vai chegar aqui.”

Entre a demência e a desonestidade, a parlamentar não consegue entender que a previdência chilena é um sistema de capitalização e a brasileira, de repasse, de repartição. São modelos completamente diferentes.

Inicialmente, a reforma proposta pelo governo brasileiro e enviada ao Congresso Nacional tinha pontos que apontavam para um sistema de capitalização, baseado no modelo sueco, logo abandonado.

Os protestos chilenos são muito mais complexos do que a dicotomia direita-esquerda na qual estamos artificialmente metidos há pela menos uma década.

O Chile ostenta os melhores índices de educação (https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/educacao-chilena-e-a-melhor-da-america-latina-com-modelo-oposto-ao-do-brasil-5otfucsyzefqd4a7x6v51lo8s/), nível de riqueza (https://economia.uol.com.br/noticias/efe/2017/11/14/riqueza-na-america-latina-aumenta-39-em-um-ano.htm), IDH (http://www.projetolatinoamerica.com.br/idh-2015-america-latina/) e segurança (https://www.i9treinamentos.com/caso-de-gestao-publica-na-seguranca-do-chile/) da América Latina e não é e nunca foi, como certos setores políticos brasileiros e internacionais quiseram fazer crer, uma Suíça fincada na América Latina; tampouco é um caso de retumbante fracasso, como certos outros setores políticos brasileiros e internacionais querem nos fazer crer.

Os dois caminhos, atolados até o pescoço no binarismo analítico, ignoram inteiramente a realidade latino-americana.

*O conteúdo deste blog não representa necessariamente a opinião do portal.