Semana passada escrevi que o Brasil ainda se encontra preso à Era Sarney.

Apresentei alguns sinais que e ora apresento outros, alguns contraditórios.

O presidente Jair Bolsonaro foi candidato, em 2018, surfando uma onda moralista.

Moralista, não exatamente moralizadora, como é possível vislumbrar por algumas posições assumidas por ele.

É notório que Bolsonaro foi, no início do governo, um soldado anti-Centrão, como também o foi, em certo momento, a ex-presidente Dilma Rousseff. (volto ao tema na próxima semana)

O bloco partidário não tinha, como grupo, cargo(s) no governo e vez por outra o presidente discursava contra loteamento político dos cargos, dizendo que não cederia às pressões dos partidos políticos, ainda que os cedesse a outros agrupamentos.

Tudo somado, a soma indicava ser zero, pois o governo não deixou de ser assediado por alguns dos bolsões fisiológicos incrustados na máquina do Estado.

Os fatos pareciam indicar, dado o perfil aparentemente austero do novo presidente, que o Brasil estava prestes a alcançar uma conquista há muito desejada, a saber, libertar a Presidência da República do fisiologismo e do clientelismo políticos cevados desde a ascensão da Cruzada Democrática ao poder, em 1985.

Repito: Dilma Rousseff chegou a ensaiar, no início do primeiro mandato, movimento semelhante.

Ledo engano, para quem acreditou que o Brasil estava chegando a uma nova Era, pois a Era Sarney continua altaneira, robusta, firme e resistente, e a Presidência continua prisioneira, refém dos interesses corporativos, partidários e pessoais.

Aproveitadores e achacadores das mais variadas espécies, que, como hienas, devoraram as entranhas de todos os governos, de Sarney a Temer, permanecem a postos, prontos a devorar as entranhas de qualquer governo.

As oligarquias que sangravam e sangram o país estão disponíveis para ocupar a máquina pública, loteando-a, e para assaltar os combalidos cofres públicos.

Ceder a ela passou a ser um elemento de sabedoria política convencional, pois se assim não for, dizem os especialistas, o país fica ingovernável e o presidente cai.

Está aí o maior entre os problemas políticos do Brasil, o que amarra e atravanca a administração pública, alimenta despudoradamente a corrupção e enfraquece o equilíbrio institucional do país.

Por esse sistema, parece que o Estado brasileiro só funciona se e somente se o governo saciar a insaciável necessidade de grupos políticos fisiológicos por espaços políticos e a também insaciável sede que cada um desses grupos tem por encher os bolsos com o dinheiro dos impostos que cada brasileiro deposita na conta do Estado.

Libertar a Presidência da República dessa arapuca não significa construir um sistema no qual os presidentes governem sozinhos ou num arremedo institucional no qual os três poderes sejam interdependentes.

Um sistema como o atual só funciona matando aqueles para quem ele deveria trabalhar – a sociedade e o povo brasileiros.

Mas isso é outra história.