Passando pelo Centro de Natal nos deparamos com um muro decorado com imagens de personalidades locais, como Câmara Cascudo, Nísia Florestas, Auta de Sousa, entre outras. Uma das figuras retratadas é do escritor Antoine Saint-Exupéry, que há muitos anos se fala – ou se debate – sobre sua passagem por Natal, entre os anos 1920 e 1930.

Em meados dos anos 2000, cogitou-se inclusive uma homangem a ele nas margens do rio Potengi, onde a Prefeitura colocaria uma estátua dele aprecieando o pôr do sol. Desde a década de 1950, criou-se no imagnário popular essa estória e que sua visita ao Rio Grande do Norte teria influenciado no simbolismo do livro  “O Pequeno Princípe”, tido como a obra literária mais lida e com maior número de edições traduzidas no mundo.

As areias das dunas, o formato de elefante do território do estado e até mesmo o baobá da avenida São José, em Lagoa Seca, seriam exemplos dessa influência.

Pois bem, adianto que este post será mais longo, pois a pesquisa demandou tempo – até mais do que imaginávamos – e apurou muita coisa. Trata-se de um artigo de opinião, o que também exige mais espaço deste periódico e por isso será dividido em duas partes. Na primeira, aboremos aspectos da década de 1920 e em seguida de 1930-1940.

Para traçar esta linha temporal, o blog se baseou em biografias do escritor e registros históricos. Relatos orais foram levados em consideração desde que apresentassem alguma evidência, a exemplo de documentos, fotos ou matérias de jornais.

Vale ressaltar que sobre a presença ou não dele em terras potiguares no quesito aviação seria simbólico, tendo em vista que por Natal passaram inúmeros aviadores pioneiros e famosos pelos feitos para aeronáutica. No tocante a literatura, a situação mudaria de figura devido a importância da obra, já destacada e que influência a cidade poderia ter na imaginação do autor, quem sabe ao ponto de interferir em um outro parágrafo, como se especula.

Como a presença dos franceses, no campo de aviação de Parnamirim conta a partir de 1927 e se estende até 1940, a presença de Exupéry em terra potiguar teria que ser neste mesmo período. Um ano antes, em outubro de 1926, o senhor Didier Daurat, contrata nosso personagem como piloto, com a missão de desbravar novas rotas do récem explorado correio aéreo, estudando um caminho entre Toulouse, na França, até Alicante, na Espanha. Em 15 de dezembro do mesmo ano, a bordo de um Breguet XIV, ele realiza seu primeiro transporte de correio, entre as regiões francesas de Toulouse e Perpignan. Bem loge do Rio Grande do Norte.

Em 1925, a empresa Latécoere inicia o reconhecimento de áreas na América do Sul para transporte de correio aéreo, mas nada ainda definitivo, se retringindo à Argentina e o Sul-sudeste brasileiro. Enquato que um serviço regular entre Casablanca e Dakar já era explorado, sendo uma ramificação do trecho Toulouse-Casablanca. Contudo, não existia uma rota sobre o Atlântico Sul, portando, sem chance de Exupéry ter cruzado o lago até o RN, nos primeiros anos da década.

Aeronave Breguet XIV (Foto: Acervo do autor)

O ano 1927 é muito importante para a história da aviação e Natal. Em outubro, pousa o primeiro avião de rodas no Campo de Parnamirim, trazendo os corajosos Joseph Le Brix e Dieudonné Costes, após um raid sobre o oceano Atlântico Sul, a bordo do Nungesser e Coli. Quatro meses antes, em maio, o americano Charles Lindbergh fazia o primeiro voo sem escalas entre Estados Unidos e França, a bordo do Spirit of St. Louis. Em abril deste ano ocorre um fato importante, surge a empresa Compagnie Générale Aéropostale que adquire a Latécoère, passando a ser comandada por Marcel Bouiloux-Lafont.

Equanto isso, em outubro de 1927, Saint-Exupéry desembarcava em Cab Juby, no litoral do Marrocos, onde fora noemado chefe da seção da escala, considerada essencial na rota Casablanca-Dakar. Apesar de Dakar ser um dos pontos mais próximos até Natal, cerca de 3.100 km, os aviões daquele período não tinham autonomia e como chefe da seção, sua missão era ajudar os pilotos da rota continental, operando raramente sua própria aeronave.

Exupéry com a equipe de Cab Juby (Foto: Acervo do autor)

Já em 1929, após dois anos no Norte da África, o funcionário da Aéropostale é nomeado gerente do escritório na Argentina, tendo forte atuação na manutenção da rota Santiago-Assunção-Rio de Janeiro. Além disso, tinha a tarefa de viabilizar uma nova rota pelo extremo sul da América. Sua missão era ainda mais administrativa, sendo responsável por gerenciar o pessoal e o equipamento, monitorar as condições dos aeroportos e pistas, recrutar pilotos e resolver da melhor forma os problemas operacionais.

Muitos pesquisadores defendem que foi neste período, devido a função, que ele visitou Natal. Pórem, sem registro oficial e com limitada atuação ao sul do Brasil. Comum ouvir de pessoas de mais idade que fulano ou sicrano teriam visto e até conversado com Exupéry por aqui. Porém, sua passagem seria meramente mais um piloto, sem ser reconhecido, pois estava uma década longe de ser o famoso autor de O Pequeno Princípe, publica apenas em 1943.

Outro ponto que merece ser citado é a impossibilidade dele ter passado por Natal sem ter passado pelo Rio de Janeiro, Salvador e Recife, levando em consideração a baixa autonomia das aeronaves, então, em pelo menos um desses locais deveria constar algum documento. A quem defenda que ele teria vindo de navio, como tantos outros, mas mesmo assim fica díficil a comprovação sem algum registro.

O fim da década de 1920 coloca em xeque a possibilidade da visita do piloto-escritor, por enquanto. Vamos saber ainda o que aconteceu nos anos seguintes.

Continua... A Parte II será postada no dia 26/03, às 19h00.