Uma frase de Câmara Cascudo ilustrou a campanha da ABA (Associação Brasileira de Anunciantes), em 2004, que buscava resgatar a auto-estima do brasileiro (Eu sou brasileiro e não desisto nunca): “O melhor do Brasil é o brasileiro”. (http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2004-07-19/campanha-quer-resgatar-auto-estima-do-brasileiro) (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2007200403.htm)

Dezesseis anos depois, quando o mundo e o Brasil estão numa encruzilhada histórica trágica, o brasileiro médio ainda não entendeu o enredo.

Neste início de 2020 estamos diante de uma escolha de Sofia: matar milhões ou matar milhares.

A Itália cochilou e assiste a uma parcela de sua população de idosos morrer como moscas.

A responsabilidade cabe ao povo italiano, mas também e principalmente a algumas de suas lideranças políticas deve ser debitada a salgada conta.

Para quem não lembra, Dario Nardella, prefeito de Florença, a terra de Nicolau Maquiavel, viu nas reações iniciais ao corona-vírus a ressurreição de antigos e adormecidos preconceitos raciais.

Para combatê-los, o doidivanas lançou uma campanha resumida em três palavras: “Abrace um chinês”.

Fevereiro estava começando e, fora da China, a epidemia contabilizava 186 casos confirmados e somente um óbito.

Pouco mais de uma mês depois, da primeira para a segunda semana de março, a epidemia começava a se espalhar pela península itálica, quando Nicola Zingaretti, presidente da Lazio e secretário do Partido Democrata, com o vírus alojado no seu corpo não procurou atendimento especializado no leito de uma UTI.

O segundo doidivanas italiano defendia a tese segundo a qual o aumento exponencial dos casos confirmados aumentaria a velocidade da produção de anticorpos que deteriam o avanço do vírus.

O resultado da irresponsabilidade das duas sumidades todos sabemos: a Itália está prostrada frente ao inimigo invisível (https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/leonardo-coutinho/coronavirus-italia-tragedia-populismo/).

Por aqui, abaixo da linha do Equador, onde não existe pecado, as autoridades têm, de um modo geral, tirando um ou outro desmiolado, atuado com certa presteza.

Cabe à população cooperar, cumprindo o básico: manter-se em casa.

É nosso dever salvar a maior quantidade possível de pessoas.

Mas o que testemunhamos e fazemos?

 “Roubamos” álcool em gel nas farmácias para estocar, deixando parte de nossos compatriotas e concidadãos sem o produto, transitamos pela cidade, lotamos praias e programamos festinhas e churrascadas como se nada houvesse, descumprindo o chamamento ao isolamento social, compramos remédios importantes para manter a saúde de doentes de malária porque ouvimos ou lemos notícias sobre a possível eficácia do remédio, ainda não inteiramente comprovada, no combate ao corona-vírus, e condenamos os necessitados dos remédios a ficarem sem acesso a eles. (https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/03/20/coronavirus-hidroxicloroquina/) (https://exame.abril.com.br/ciencia/as-diferencas-entre-a-malaria-e-a-covid-19-os-riscos-da-hidroxicloroquina/) (https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/03/20/interna_gerais,1130771/infectologistas-medicamento-para-malaria-nao-combate-coronavirus.shtml)

Pior: pomos a politicagem à frente da boa política.

Em suma, optamos por matar o maior número possível de pessoas.

O Brasil já foi o país do futuro, título do livro do judeu-austríaco Stefan Zweig, que, fugindo do nazismo, radicou-se na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro.

De país do futuro, caminhamos, se o bom senso não aparecer por aqui, pra ser um país da irresponsabilidade e, no limite, de homicidas dos nossos familiares, amigos...