Um dos planos mais audaciosos da Segunda Guerra Mundial – envolvendo estratégia de ataque e aeronaves – teve Natal como peça fundamental para o sucesso, no que ficou conhecido como Operação Matterhorn. Em janeiro de 1943, durante a Conferência de Casablanca o assunto veio à tona, com a ideia do presidente Franklin Roosevelt bombardear o Japão utilizando aeronaves de grande autonomia, com sugestão de utilizar os populares B-24´s “Liberators”.

O plano passou o ano em suspensão, até que no final de 1943, o Estado Maior da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos apresentou duas opções, uma utilizando as Ilhas Marianas e outra um deslocamento continental partindo dos EUA até a China, passando pelas Américas, África e Oriente Médio.

A primeira ideia dependia do avanço sobre as ilhas do Pacífico, principalmente, para ter um território seguro para pouso e decolagem, lembrando que desde 1941 com o ataque a Pearl Harbor, os japoneses foram conquistando muitos territórios, com lutas que se estenderam até 1945. Provavelmente, a maior derrota tenha sido em fevereiro do último ano, quando a Marinha dos EUA tomou Iwo Jima.

Já a segunda iniciativa, além de um deslocamento maior, necessitava de uma base permanente na Índia e aeródromos de apoio na China, o que demandava uma estrutura maior de tripulação, aeronaves, combustível, peças e meios aéreos. Esta se tornou a mais viável em 1943, com a construção destas bases ao longo de 1944 e a previsão de receber até 150 bombardeios B-29´s “Superfortaleza Voadora”.

Entre fevereiro e março de 1944, a base aérea de Parnamirim Field se torna a peça chave deste plano, quando o 40º Grupo de Bombardeio (40th Bombardment Group) deixa sua base no Kansas com destino final Chakulia, na Índia (No post sobre Trampolim da Vitória tem uma imagem desta rota). Ao passar por Natal, o grupo de aeronaves foi cerca de mistério e segurança, pois os B-29´s tinham pouco mais de um ano de operação e eram consideradas ultrassecretas. Há relatos de que a Militar Policy (MP) cercou a aeronave e impediu a aproximação das pessoas, pois o equipamento “não existia” para o público.

B-29 "Superfortaleza Voadora" no pátio de Parnamirim Field (Foto: Arcevo do autor)

Daqui, os aviões realizaram o famoso salto sobre o Oceano Atlântico, o que era considerado um desafio à época, mas ainda menos perigoso comparado ao que essas tripulações enfrentariam ao tentar passar pelo Himalaia em direção a China. Apenas em abril de 1944, de um único esquadrão pelo menos cinco Superfortalezas Voadoras caíram nesta tentativa.

Um dia antes do Dia-D na Europa, em 5 de junho de 1944, o 40º Grupo de Bombardeio realizaram o primeiro ataque partindo da Índia, tendo como alvo fábricas e ferrovias na Tailândia, totalizando mais de 3.600 km de viagem de ida e volta, a maior em distância realizada até então. Em 15 de junho, partindo da China, finalmente atinge alvos no Japão, entrando para a história, pois o último feito do tipo tinha ocorrida em 1942, no ataque de Doolittle (merece um post sobre este fato).

A estratégia se repetiu até fevereiro de 1945, quando o grupo foi transferido para as Ilhas Marianas, de onde continuaram a atacar o território japonês. Vale citar que foram modelos similares, as B-29´s “Enola Gay” e o “Bock´s Car”, que lançaram as bombas atômicas nos ataques de Hiroshima e Nagasaki, em 6 e 9 de agosto de 1945, respectivamente.