O texto é continuação do da semana passada.

Lula gostava – e ainda gosta – de incensar e maximizar seus feitos, como se nada ou quase nada de positivo tenha sido feito antes dele chegar à Presidência da República, gabando-se de ser autor das boas e únicas transformações positivas efetuadas no Brasil. E sempre encontrou e encontra puxa-sacos e dementes em quantidade suficiente para lhe atribuir a alcunha de guia da nação, de líder insofismável, de farol que ilumina os nossos caminhos.

Tais baboseiras não foram ditas apenas por gente sem qualificação, vejamos:

“Adorei. Quando o Lula fala, o mundo se abre, se ilumina e se esclarece. [O presidente] falou uns 40 minutos, mas gostaríamos que ele falasse mais até.” (Marilena Chauí, professora da USP);

“Lula está refundando o Brasil.” (Jacques Wagner, ex-deputado federal, ex-ministro e ex-governador da Bahia);

“Este é o Brasil que o senhor, Presidente Lula, recuperou para nós e que os brasileiros não deixarão escapar de suas mãos.” (Dilma Rousseff, ex-ministra e ex-Presidente da República).

Mudanças significativas na estrutura de qualquer país não ocorrem em curto prazo. Elas exigem tempo e amadurecimento, como sobejamente demonstra a história.

Naturalmente, indivíduos à frente de seu tempo dão contribuições significativas para mudanças de longo alcance.

Personagens como Júlio César, Thomas Jefferson, Napoleão Bonaparte, Margareth Thatcher e outros são exemplos significativos.

E aqui, por estas paragens, não foi diferente.

O Brasil teve os seus líderes de vanguarda: José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

Outros de menor monta, mas não menos importantes, estiveram à frente de movimentos cruciais no desenrolar de nossa história. Para ficarmos apenas no período da transição do regime autoritário de 1964 para a nova república, Tancredo Neves e Ulisses Guimarães foram lideranças de peso, conduzindo o país na transição para a democracia sem maiores traumas. Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso lançaram as bases da estabilidade econômica, sem a qual o sucesso de Lula não teria sido possível.

O que Lula dizia e diz de si mesmo e o que os seus seguidores cegos reafirmam deslustram e maculam os feitos de seus antecessores, assumindo, por vezes, feitos deles. Chega ao ponto de praticamente dizer-se fundador da parte do Brasil que deu certo, esquecendo-se que algumas mudanças básicas para pôr o Brasil no rumo correto não foram feitas por ele.

“Eu fui o melhor Presidente da história do Brasil”, “Neste país de 180 milhões de brasileiros, pode ter igual, mas não tem nem mulher nem homem que tenha coragem de me dar lição de ática, de moral e de honestidade”, “Gostaria de poder fazer algo sobre a corrupção no país. Se dependesse de mim, todos estes deputados corruptos estariam na cadeia”, “Se tem um governo que tem sido implacável no combate à corrupção, desde o primeiro dia, é o meu governo.”

Lula gostaria de ser lembrado como um Vargas ou um JK, mas a história pode não lhe agraciar com tal distinção.

Mesmo sendo indiscutivelmente um dos maiores líderes de massas da América Latina, politicamente populista sem ter sido irresponsável no campo econômico, deixou algumas marcas negativas do seu tempo à frente dos destinos da nação, como o aparelhamento do Estado, a piora da qualidade do regime fiscal e a política externa inconsequente, que contribuíram decisivamente para o saque perpetrado ao erário por gangues organizadas e encasteladas na máquina pública.

O ex-Presidente poderia entrar para a história como um líder transformador que atuou no limite entre as duas éticas weberianas, a das convicções e a da responsabilidade. No entanto, corre o risco de confirmar o início de algumas de suas famosas frases, o “Nunca antes na história desse país...”, que se revelou profética, quando Lula acrescentou um novo e decisivo capítulo à sua biografia: a de primeiro ex-Presidente da República condenado e preso por corrupção, etapa importante na desconstrução política do mito.