Este texto será dividido em duas partes. Segue a primeira.

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Para os incrédulos e os profetas de fancaria, o Brasil segue, devagar para quem tem pressa demais, no rumo certo, ou errado demais para quem aposta ou torce pelo desastre.

Fez-se o afastamento de uma presidente irresponsável, empresários foram encarcerados por pagarem propinas a políticos e funcionários públicos graduados, processos foram abertos contra lideranças políticas nefastas, o presidente da Câmara, depois de tripudiar da Nação durante meses, foi, por determinação judicial (de um juiz do STF!!!), afastado do cargo número 1 de uma das casas do Parlamento. Tudo isso em tempo recorde.

À época houve quem questionasse a fundamentação jurídica de Teori para afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara de Deputados. A palavra esteve com o STF, que manteve a decisão de Teori.

Ouvi durante meses análises estapafúrdias, algumas com roupagens acadêmicas, mas que pareciam feitas em mesa de botequim (que me perdoem os analistas políticos de botequins). A esmagadora maioria fugia das análises de contexto para mirar na análise de estrutura. É o de sempre, para quem não entende contexto e analisa estrutura lambendo-a. O colega e professor de Sociologia (IFRN), Roberto Moura Fonseca, citou sabiamente, num bate-papo que travamos, um autor que, ao se referir a Marilena Chauí, dizia que a professora uspiana dava vassouradas filosóficas. Pois é, ouvi e li muitas dessas vassouradas – filosóficas, jurídicas, sociológicas, históricas, etc – dela e de outras sumidades, algumas guardadas pelo silêncio misericordioso do tempo.

Estamos há quase dois séculos numa encruzilhada: o Estado brasileiro é caro, cartorial, pesado, ineficiente, ineficaz, andrajoso, etc, etc e etc. Cobra demais dos cidadãos e não oferece o necessário, entre outras coisas porque se ocupa do que não deveria, porque quer regulamentar o que não deveria e por aí vai.

A encruzilhada atualmente nos levou a um poço sem fundo, mas ela vem nos indicando caminhos alternativos que podem nos conduzir a bom termo. Depende de nossas escolhas

Estivemos, por alguns momentos, nas três últimas décadas, na trilha correta. Tudo parecia promissor. O tempo, também dentro das mesmas décadas, nos afastou da trilha correta.

É bom que atentemos: o que fazemos hoje não é certamente, nem poderia ser, a salvação do país, porque o país não foi construído em uma década e tampouco será salvo num momento de luzes. 

As escolhas corretas de hoje precisam ser confirmadas em outras sendas. Para tal, precisamos separar quem é caso de política e quem é caso de polícia.

Por ora tratamos como se fossem a mesma coisa. E isso indica um caminho nocivo.