O ano de 1973 é emblemático para a história do ABC Futebol Clube. Em abril, sagrou-se campeão do 1º Torneio Início realizado no Castelão, vencendo o América, nos pênaltis. Em julho, levantou a Taça do Campeonato Estadual, transformando-se em tetracampeão. Em agosto, embarcou para a mais longeva excursão de um clube brasileiro ao exterior - 102 dias -, realizando 24 (vinte e quatro) jogos em 09 (nove) países da Europa, Ásia e África (Turquia, Grécia, Romênia, Iugoslávia, Líbano, Tanzânia, Uganda, Somália e Etiópia). No retorno, em dezembro, a direção alvinegra deu um presente à Frasqueira. A seleção soviética havia se negado a participar da repescagem para a Copa/1974, contra o Chile, no Estádio Nacional, local onde o governo do general Pinochet utilizava como campo de concentração e centro de torturas e execuções e estava excursionando pelas Américas. Havia jogado no Brasil contra o Vila Nova/GO e o Operário/MS e foi convidada para a festa do reencontro da saudosa torcida com a equipe alvinegra.

A equipe soviética tinha sido vice-campeã da Eurocopa/1972, realizada na Bélgica, perdendo a final para os alemães, que seriam campeões do mundo em julho/1974. Da equipe segunda colocada na Eurocopa, estavam na excursão Vladimir Pylgui, goleiro e medalhista de bronze na Olimpíada de Munique/1972, Viktor Matviyenko e Vladimir Kaplichnyy (defensores), Oleg Dolmatov e Anatoliy Konkov (meias) e Levon Ishtoyan, Vladimir Onishenko e Gennadiy Yevriuzhikhin (atacantes), além do treinador Aleksandr Ponomarev.

A partida foi realizada na noite de 18 de dezembro e o Castelão recebeu 27.831 pessoas. Público que ficou aquém do que a diretoria esperava. O jogo completa, nesta data, 46 anos.

Na verdade, houve uma indefinição se o jogo haveria, ou não, pois estava marcado para o primeiro dia das férias regulamentares dos atletas profissionais do país, que ia de 18.12 a 07.01 do ano seguinte. O ABC pediu ao Conselho Nacional de Desportos para promover a partida, mas não havia resposta até a interferência do Diretor de Promoções Esportivas da Caixa Econômica Federal e Conselheiro do CND, Sr. Cláudio Medeiros junto ao brigadeiro Jerônimo Bastos, que atendeu ao amigo e concedeu a licença para a realização do jogo. 

Mas outro incidente estava por vir. A chefia da delegação exigiu que antes da partida a bandeira comunista fosse hasteada e tocado o hino, “A Internacional”. O general Amadeu Martire, da 7ª Brigada de Infantaria Motorizada, não quis aceitar a exigência, pois havia pedido à Junta Governativa do ABC FC que destituísse o cassado Agnelo Alves da presidência do Conselho Deliberativo, não tendo sido atendido. Nova rodada de reuniões para resolver o problema de última hora, terminando com as condições soviéticas sendo aceitas, e a banda da Polícia Militar tocando os hinos nacionais antes da partida.

O ABC entrou em campo com seu uniforme número um, em traje de gala, com meiões, calções e camisas de mangas longas brancas. A União Soviética com o tradicional uniforme de camisas e meiões vermelhos e calções brancos. Ao fim do jogo, o placar de 2x2 mostrou a qualidade do espetáculo. Alberi abriu o placar com um belo chute de fora da área, após cobrança de escanteio de Libânio. Os soviéticos empataram quando Onishenko, o grande nome da partida, passou por Sabará e cruzou para a área, tendo Fedotov se antecipado ao zagueiro Valter Cardoso e batido forte no canto direito de Erivan. Na segunda etapa, Onishenko virou o jogo e Jorge Demolidor deu números finais após lançamento de Sabará, com a Frasqueira saindo em festa do estádio.

FICHA TÉCNICA:

ABC 2x2 SELEÇÃO DA URSS

Data: 18.12.1973

Local: Castelão

Público: 27.831

Renda: Cr$ 249.007,00 (Duzentos e quarenta e nove mil e sete cruzeiros)

Árbitro: Agomar Martins/RS

Auxiliares: Afrânio Messias/RN e Luiz Meireles/RN

Gols: Gols: Alberi (12 min) e Jorge Demolidor (88 min) (ABC); Fedotov (20 min) e Onishenko (50 min) (URSS).

 ABC: Erivan; Sabará, Valter Cardoso, Telino e Anchieta; Valdecy Santana e Danilo Menezes; Libânio, Alberi, Jorge Demolidor e Morais. Técnico: Danilo Alvim

SELEÇÃO DA URSS: Pylgui; Bakievski, Kaplichny, Plasamski e Lovchev; Zanazanian e Andrassian; Ishtoyan, Fedotov, Konkov e Onishenko. Técnico: Aleksandr Ponomarev.

Créditos de informações e imagens para criação do texto: Diário de Natal; "45, um tempo de futebol e de um poema (Kolberg Luna Freire); La Cancha Infame (Maurício Brum)