No papel a força expedicionária foi criada em 1943, contudo, o embarque para a Itália se deu apenas em julho de 1944 e os derradeiros combates se estenderam até maio de 1945. Neste último ano, exatamente há 75 anos, os nossos pracinhas concluíram uma das missões mais difíceis da guerra, quando por mais de uma vez outros exércitos tentaram sem êxito. Acredito que pouco se falará na mídia sobre o fato e a data histórica.

Abaixo segue o material produzido na entrevista para o então Portal Noar.

De fato o Brasil participou da Segunda Guerra Mundial de diversas maneiras, seja com a presença de bases americanas em seu território – incluindo a base de Parnamirim, em Natal – ou com envio de tropas para o combate na Itália. Neste último exemplo, se cria um efetivo do Exército formado por homens de diversos cantos do País, em 1943. O Governo criava então a Força Expedicionária Brasileira (FEB) que junto com a FAB envia mais de 20 mil homens para lutar na Itália.

Nos dias atuais, os feitos desses homens e suas colaborações para o fim da Guerra são de pouco ou nenhum conhecimento. A luta para os pracinhas brasileiros durou entre julho de 1944 e maio de 1945, totalizando 457 mortos em 239 dias de combate. Esta divisão de exército foi integrada ao 5ª Exército dos Estados Unidos, com cerca de 300 militares oriundos do Rio Grande do Norte, dos quais seis não voltaram com vida para o estado de origem.

Atualmente residindo em Recife, o amigo Souza – como prefere ser chamado – morou em Natal até 2013, quando ajudava a manter as atividades e encontro entre veteranos da FEB. Ele é considerado um dos heróis da tomada de Monte Castelo e Montese, algumas das principais batalhas do teatro de guerra na Itália.

Muito comovido, após ter se passado 70 anos dos fatos [reprodução da entrevista de 2014], Sousa conversou com a reportagem e contou um pouco da sua história e de seus companheiros.

Portalnoar.com: Como foi o seu ingresso no Exército Brasileiro?

Cap. Souza: Nasci em 1924 em João Câmara e com 17 anos, em novembro de 1941, fui incorporado como voluntário. Eu era estudante do Atheneu e o 29º Batalhão de Caçadores (29º BC) ficava ali por perto. Entrei nesse batalhão que depois foi transformado em 16º Regimento de Infantaria, o famoso 16RI, e fomos transferidos para o bairro do Tirol. Em janeiro já fui promovido a cabo e em agosto de 1942 fui promovido a 3º sargento.

E como o senhor soube da Guerra?

Sabíamos porque saia no jornal e na rádio. E em 1943 já fui designado para o litoral para dar segurança às praias, pois falava-se em invasão alemã no litoral. Primeiro fui para Ponta Negra e depois Pirangi do Norte, com uma seção de morteiros. Eu ficava embaixo do cajueiro que hoje chamam de o Maior do Mundo, mirando a foz do rio. Em Ponta Negra, certa vez, eu tive a oportunidade de um avistamento de submarino alemão. Um avião de Parnamirim veio e atacou, bem na hora do pôr do sol. Em outra ocasião, na mesma praia achamos uma balsa de borracha com o corpo de um americano. Antes disso, quando os americanos chegaram em Natal, o nosso efetivo foi designado para acompanhar as atividades em Parnamirim, onde também passei um tempo.

Quando surgiu a relação com a FEB?

Fui designado para a FEB em julho de 1944, no primeiro contingente que saiu de Natal para o Rio de Janeiro. Antes fomos para Recife de trem, em viagem de 48 horas, pois tinham medo de ataque as tropas do Exército, então, foi desviando. Lá passamos oito dias em estágio até embarcarmos em navio para o Rio, sob a proteção da Marinha dos Estados Unidos. Lá eu ingressei no 1º Regimento de Infantaria, o regimento ‘Sampaio’. Tivemos treinamento constante, com embarque e desembarque em navio e marchas noturnas exaustivas.

O embarque para Itália como se deu?

Em setembro de 1944, embarcamos em navio para a Itália, enfrentando 15 dias de viagem com um receio enorme de ataque de algum submarino. Descobriram que o submarino necessitava de 7 minutos para preparar a mira, então, a cada intervalo desse tempo o navio mudava a rota. Nunca íamos em linha reta, sempre em ‘zig e zag’ e uma viagem desconfortável, com muitos passando mal e vomitando. Quando chegamos ao estreito de Gibraltar, visualizamos a África e uma poeira fina cobriu todo o navio e a partir dali passamos a ser escoltados pela Marinha Inglesa. Vi uma coisa que nunca esqueci. Vários navios afundados com as quilhas para cima e uma coisa que nunca imaginei, um vulcão ativo, o Vesúvio.

E ao chegar a Itália, o que aconteceu?

Passamos para uma das centenas de barco, com capacidade para 200 homens cada. Entre Nápoles e Livorno enfrentamos um temporal de dois dias, piorando ainda mais a agitação na barca e o mal estar dos soldados. Foi horrível o mau cheiro dos vômitos. Desembarcamos e seguimos para Pisa, onde ficamos acampados até outubro. Repetimos o treinamento e tivemos acesso ao equipamento e fardamento americano, pois experiências passadas entre as nossas tropas e as deles não foram positivas [Havia confusão entre o fardamento americano e brasileiro, pois este último parecia com o alemão].

Encontro com o Souza, com os pesquisadores Fred Nicolau e Augusto Maranhão, em 2018 (Foto: Acervo do autor)

 

Como se deu a entrada em combate?

Antes de irmos para a linha de frente participamos de um grande exercício real em Finepoli, sob observação do Estado Maior Americano, que deu a permissão para entrarmos em combate. Dali fomos enviados para a região de Gaggio Montano, em missão de apoio aos americanos, em 25 de novembro. Quatro dias depois teríamos nosso batismo de fogo, em 29 de novembro de 1944. Não sabíamos, mas ali começava a batalha de Monte Castelo para nós.

Chegamos a noite no local e ficamos em porões depois de uma marcha terrível. Hoje eu fico pensando que o alemão sabia que estávamos ali e nos observava. Marchamos das 22 horas até as 2 horas, numa estrada com muita lama, só para chegar no sopé da montanha. Às 4 horas, teve início uma verdadeira chuva de bala, morteiro e granadas. Tivemos muitas baixas, apesar de muitas vidas salvas por causa do trabalho do corpo médico. Meu sargento caiu do meu lado segurando as vísceras [Pede para interromper a entrevista].

O senhor pode continuar de onde parou?

A FEB teve muita dificuldade de adaptação no início, contudo, ao fim da guerra estávamos em pé de igualdade com a divisão de montanha dos EUA, que treinou por até dois anos antes de ir a combate. A tomada de Monte Castelo foi muito importante, por que os americanos já tinham tentado por duas vezes e falharam. Nós combatemos muito e no dia 21 de fevereiro de 1945 conseguimos tomar.

O que diferenciava a tropa brasileira das demais?

Para eles uma curiosidade foi a tropa inter-racial, em que um sargento preto dava ordem em uma tropa com brancos. Mas eu nunca senti discriminação por causa da cor apesar de haver no exército deles [EUA].

Como foi o fim da Guerra?

No dia 5 de maio de 1945 houve o cessar fogo, mas oficialmente a Guerra acabou no dia 8 de maio. Permanecemos na Itália para garantir a ordem, principalmente, por causa dos comunistas que tinham um sentimento revanchista contra aqueles que ajudaram o alemão e o Governo Mussolini. Eles queriam agredir famílias que eram pro-nazistas e moças que se relacionaram com soldados alemães tinham a cabeça raspada.

Numa dessas missões, pós-guerra, fui escalado para uma patrulha que ia prender quatro italianos que tentavam raspar a cabeça de uma dessas moças. Fui armado com minha submetralhadora, mas na hora decidi pegar a arma de um companheiro que entregou virada para mim e com o dedo no gatilho. A arma disparou, atingiu minha mão, saiu pulso e perfurou a barriga. Participei de vário combates em Monte Castelo e Montese, e não me ferir. Contudo, fui ferido no dia 12 de maio, já não mais em guerra.

Que mensagem o senhor deixa ao leitor?

Faço o apelo para que essa história não caia no esquecimento e que nas escolas os professores não se omitam. Já é muito pouca disseminada.