O texto abaixo é do amigo Luiz Roberto, professor de Filosofia, em resposta a um texto escrito por mim (https://www.grandeponto.com.br/blog/post/farinha-do-mesmo-moinho), neste mesmo espaço.

 

Li e gostei do seu texto Farinha do mesmo moinho, mas confesso que não concordo com a análise.

Começo por Maquiavel.

Ainda que eu entenda sua pegada sobre a realpolitik de Maquiavel, a questão mais inerente à teoria maquiaveliana não é a falta de moralidade, mas um utilitarismo completo, onde os fins justificam os meios. A política maquiavélica em O Príncipe leva em consideração só a razão de Estado. Contudo, o Estado é composto por indivíduos, os quais são agentes morais.  Mas a discussão é longa, tem muita coisa e vou pular logo para o cerne de minhas discordâncias, que são outras duas, que julgo mais importantes e são as seguintes:

1 – O PT enganou as pessoas se portando como paladino da moral. O que vemos hoje é que o PT é coletivista e defende uma moralidade de acordo com estes princípios, os quais também são utilitaristas. Está mais do que provado pelos fatos do mundo real que o PT nunca almejou a liberdade individual de ninguém. Isso não faz parte do DNA do partido, e você passa longe desta discussão.

2 – O grande erro das suas análises políticas é que todas as vezes que você escreve sobre um, Lula e o PT, você escreve sobre o outro, Bolsonaro e algo que ele não tem organicamente, um partido. Esta tentativa de isenção e mediação sempre descamba em erro. Acho que você teria muito mais sucesso se os analisasse separadamente.  Tenho a impressão que você sempre quer passar a imagem de uma análise isenta, e aí mistura os dois. Acaba servindo a Deus e ao Diabo e não tem como ter dois mestres. Tente fazer só uma análise, por exemplo, de Bolsonaro; ainda que ela fosse eivada de erros, seria mais justa. Acho completamente diferentes os dois governos, de Lula/Dilma e de Bolsonaro. Você os coloca numa panela só, os mistura, e quer que os fatos do mundo se dobrem à sua análise, quando deveria ser a sua análise que deveria dobrar-se aos fatos do mundo.

Eu condeno muita coisa do governo Bolsonaro. Para mim, no que mais importava ele não fez nada, absolutamente nada. Poucas pessoas querem se ocupar sobre isso. Talvez seja um problema só para poucos. Fora outras coisas que eu discordo dele: frouxo, falador e por aí afora. Entretanto, você continua insistindo que Bolsonaro e seus apoiadores mais importantes são autoritários e, para mim, isso não tem correspondências nos fatos. É preciso que você aponte uma medida autoritária dele. Podemos discordar da forma como ele enfrenta os conflitos, mas autoritário ele jamais foi em seu governo. Aliás, essa é uma análise de viés extremamente frankfurtiano, que termina por estar relacionada diretamente, ainda que sem querer, com um meme que corre sobre O exterminador do futuro sensível, woke.

Chamar Bozo de autoritário parece ser sensibilidade tóxica, ou woke.

É isso.