Registro do exato momento do pouso do I-BALB, avião de Italo Balbo no Rio Potengi (Foto: Arcevo do autor)

Em 5 de julho, iniciamos uma série de posts relacionados ao voo de Ferrarin e Del Prete, e hoje postaremos sobre o raid que veio a Natal para inaugurar a Coluna Capitolina. A esquadrilha de aviões foi comandada em pessoa pelo comandante da Aeronáutica da Itália, o general Italo Balbo.

A viagem do comandante Balbo foi glamorosa e com apoio total do Governo de Benito Mussolini, a quem ele dizia representar em pessoa por onde passava, e no fim das contas era verdade. A Marinha de Guerra da Itália chegou a providenciar navios de apoio com peças e mantimentos para os aviões e para o retorno dos tripulantes da América. Balbo, por sua vez, era um verdadeiro garoto propaganda para os facistas, pois representava a atividade dos militares e a força do governo, como seu representante.

No dia 17 de dezembro de 1930, o embaixador brasileiro Oscar Teffé presenteou o general Balbo com um mapa do Brasil feito em 1774, junto de uma mensagem do presidente Getúlio Vargas. A missão dos italianos era chegar a capital federal, passando por Natal, onde inauguraria o monumento da Coluna do Capitólio ou Coluna Capitolina, como é mais conhecida hoje. A viagem era tão importante, que o Governo do Argentina pediu ao ministro do Exterior da Itália que a travessia fosse estendida até a Argentina, tornando o “Raid da América do Sul”.

Genera Italo Balbo, nos Estados Unidos (Foto: Portal da Itália)

Oficialmente, Crociera Aerea Transatlantiva Italia-Brasile (como foi denominada posteriormente) começou em 18 de dezembro de 1930, com 12 hidroaviões modelo Savoia-Marchetti “S-55” que partiram do aeroporto de Orbetello, dando o nome de Raid Aereo Itália-Brasil, sob o comando do general Balbo. A primeira etapa seria chegar a costa oeste da África, na ilha de Bolama, na Guiné Bissau, antes de parti para Natal, totalizando 2.900 quilômetros de voo sobre o oceano Atlântico, e  diferente dos franceses que optavam pelo Senegal, onde a distância era 3.100 km. Na verdade, sabe-se hoje que outros dois aviões acompanharam a façanha e até chegar no Rio de Janeiro, três deles sofreram acidentes, ou seja, 11 conseguiram chegar com sucesso.

Os hidroaviões se dividiram em quatro esquadrilhas, cada uma representada por cores.  Abaixo, a cor e respectivas matrículas e tripulações (segundo informe publicado no Diário de Pernambuco, de 1º de janeiro de 1931):

Esquadrilha Negra:

  1. I-BALB: General Balbo, capitão Stefano Cagna, tenente Venturini Gastone  e o segundo tenente Gino Cappannini.
  2. I-VALL: General Giuseppe Valle, capitão Attilio Biseo, sargento Giovanni Carascon e o sargento Erminio Gadda.
  3. I-MADD: Coronel Umberto Maddaleno, tenente Fausto Cocione, sargento Cezares Bernarzzani e o segunto tenente Giuseppe Da Monte.

Esquadrilha Branca:

  1. I-LONG: Major Ulisse Longo, capitão Guido Bonini, tenente Ernesto Campanelli, sargento Mario Pifferi.
  2. I-BOER: Capitão Luigi Boer, tenente Danilo Barbi Cinti, sargento Felice Nensi e sargento Ecole Imbastari.
  3. I-DRAG: Capitão Emilio Dragheli, tenente Leonello Leone, sargento Bruno Bianchi e cabo (Aviador Primeira Classe) Carlo Giorgelli.
  4. I-TEUC (reserva): Tenente Giuseppe Teucci, tenente Luigi Questa, cabo (Aviador Primeira Classe) Giussepe Berti, sargento Armando Zana.

Esquadrilha Vermelha (Rossa):

  1. I-MARI: Capitão Giuseppe Marini, capitão Alessandro Migilia, sargento Salvatore Beraldi e sargento Daivid Giulini.
  2. I-BAIS: Capitão Ugo Baistrocchi, tenente Luigi Gallo, cabo Amedeo Girotto, e sargento Francesco Francioli.
  3. I-RECA: Capitão Enea Recagno, tenente Renato Abbriata, sargento Luigi Fois e sargete Francesco Mancini.
  4. I-DONA (reserva): Capitão Renato Donadelli, tenente Pietro Ratti, sargento Ubaldo Gregori, sargento Rafaele Perini.

*O tenente Pietro Ratti era um dos tripulantes mais famosos, pois era parente do papa Pio XI (Ambrogio Ratti).

Esqudrilha Verde:

  1. I-AGNE: Capitão Alfredo Agnesi, tenente Silvio Napoli, sargento Ostilio Gasparri e cabo (Avidor Primeira Classe) Giusseppe Virgilio.
  2. I-DINI: Tenente Letterio Cannistracci, tenente Alessadro Vercelloni, sargento Giuseppe Maugeri e cabo (Aviador Primeira Classe) Alfred Simonette.
  3. I-CALO: Tenente Jacopo Calò Carducci, sargento Ireneo Moretti, sargento August Romin e cabo (Aviador Primeira Classe) Tito Mascioli.

Savoia-Marchetti do voo de Balbo ancorado em um rio, provável na Guiné Bissau (Foto: Arcevo do autor)

As doze aeronaves e as duas reserva decolaram, no dia 18 de dezembro, com a expectativa de chegar no Marrocos no mesmo dia, contudo, devido ao mau tempo 4 delas fizeram pouso em Los Alcazares, na Espanha, e o restante seguiu para a Ilha de Marjocas, no Mar Mediterrâneo. De acordo com as autoridades espanholas, no dia 22, ainda havia hidroavião passando pelo estreito de Gibraltar a caminho do Marrocos, de onde seguiram para Bolama, na Guiné Bissau. Este seria o último trecho da primeira etapa e mesmo assim ainda tiveram de esperar 12 dias para retomar o voo, agora sobre o Atlântico.

Esperando condição boa de tempo e a lua nova, as esquadrilhas decolaram de Bolama no dia 6 de janeiro, entre 1h30 e 2h da madrugada, de Bolama, com exceção do I-RECA do capitão Enea Recagno. Às 8h, um chamada da Rádio Nacional, interceptada do Cruzador Pontagna, informava que faltava cinco avões na formação, o que levantou preocupação, até as 10h30, quando saiu outro informe. Às 11h30, o vapor Antonio Mosti comunicou a passagem dos 11 aviões, enquanto que a esquadrilha verde ficou na retaguarda aguardando a aeronave retardatária, com previsão de chegar a costa nordestina às 16h.

Às 15h40, chega a informação de que a formação está a 200 km de Natal e uma das tripulações, o I-DONA teve que pousar no oceano Atlântico e ser resgatado, já próximo dos rochedos de São Pedro e São Paulo. Nessa hora, o comércio da cidade estava fechado e povo ocupava o caes do porto, à época na Tavares de Lyra, com presença de Sylvino Bezerra e Anthenor Navarro, interventores federais do Rio Grande do Norte e Paraíba (Parahyba), respectivamente. Além deles, o vice-cônsul da Itália em Santa Catarina, capitão Mauro, como representante do ministro do Exterior da Itália e do embaixador italiano no Rio de Janeiro.

8 de janeiro de 1931 - Diário de Pernambuco dando nota da chegada a Natal do raid (Foto: Reprodução)

Os primeiros cinco aviões, liderados pela esquadrilha de Balbo, apontam às 16h15 sobre o Rio Potengi, pousando sob os aplausos dos potiguares. Os demais aviões chegam em seguida, com exceção de dois, pois além do I-DONA, o I-BAIS não chegara. Balbo e os comandantes ficaram hospedados na Vila Governamental, em Petrópolis, enquanto que os demais desbravadores foram recebidos na Escola Doméstica.

Próximo post desta série vamos detalhar como foram os dias de Balbo em solo potiguar.

Links relacionados: